05 novembro 2012

Tradução: os Prós e os Contras!

Confesso que não sei como começar esse post. São tantas opiniões diferentes de tantos profissionais da área, professores, etc, que fica difícil decidir qual delas parece ser a correta. Então, eu vou humildemente falar um pouco sobre o que eu sei de tradução e quais são seus prós e contras na minha opinião.

Traduzir não deve ser tão difícil, não é mesmo? Esses tradutores ficam de mimimi por nada! The book is on the table, o livro está na mesa. Simples assim, não é? Não. NÃO! Vamos ver um pouco os prós e os contras da tradução para entender esse processo um pouco melhor.

Qual é, afinal, o maior ponto a favor da tradução, a favor dos tradutores? Oras, essa resposta é simples, se não fosse o trabalho de vários tradutores, não teríamos acesso a quase nenhuma informação, exceto, claro, se soubéssemos falar várias línguas, o que normalmente não é o caso. Graças a tradução podemos ler obras de Goethe, George Orwell, Voltaire, Shakespeare, e até mesmo E.L. James, se quisermos cometer tamanha heresia.

Infelizmente, na minha opinião, esse é o único ponto positivo. Nos meus anos de faculdade ouvi professores e colegas falando que era interessante ler a tradução de obras famosas feita por escritores famosos, como a tradução de O Corvo feita por Machado de Assis, e eu, toda do contra, sempre discordei (aliás, essa é uma das piores traduções de O Corvo que já li). 


Zero pra você, Machado, ZERO!!! 

Quando leio "Once upon a midnight dreary..." e na tradução vejo "Em certo dia, à hora, à hora/Da meia-noite que apavora" tenho vontade de arrancar meus olhos fora (e veja só, até rimei agora!). O que aconteceu aqui? Machado era um péssimo tradutor? Não soube o que fazer com esse poema? Queria mesmo era acabar com Poe? Não, não e não de novo.

O ato de traduzir envolve tantas questões e problemas que eu devo avisá-los desde já: nenhuma obra, NENHUMA, tem uma tradução perfeita. Sempre há algo a ser melhorado, algo a ser modificado. Por quê? 

Porque cada língua tem suas regras gramaticais, por exemplo. Enquanto no inglês o ritmo de um poema pode ser feito por seus adjetivos seguidos de substantivos, no português invertemos essa ordem; enquanto no inglês a maioria das frases segue um padrão simples de construção, o chamado SVOCA (subject, verb, object, complement and adjective), no português nós podemos inverter, mudar, torcer, entortar, enfim, fazer o que bem entendemos com nossas frases.

Fora as diferenças gramaticais das línguas, temos as diferenças culturais, e quando falo culturais não me refiro somente as diferenças entre países, que já são inúmeras, mas também as diferenças dentro do próprio Brasil. Em São Paulo é comum comer um pão na chapa e café com leite de manhã, já em Santa Catarina as pessoas comem tortas, bolos e cuca (um doce típico da região). Se eu escrever um livro e meu personagem disser "vou tomar café da manhã", esse café será diferente para cada brasileiro que ler a frase. 

Agora, imagina na hora de traduzir um livro da literatura inglesa, cheio de jantares, bailes e comidas nojentas (tipo pudim de sangue - sim, isso existe e eles gostam), o que o tradutor faz? Adapta? Apaga tudo? Desiste de ser tradutor e vai vender coco na praia? Já explico, não, não e...eu acho que não, né? Vai saber.


Minha vida é andar por esse país, e ver se um dia traduzo feliz!
Primeiro, a não ser que eu esteja falando da Lia Wyler (tradutora da saga Harry Potter), ou da Lenita Rímoli Esteves (tradutora da saga O Senhor dos Anéis), o tradutor não pode bancar o bonitão e sair revolucionando, traduzindo como quiser, adaptando tudo (nem elas tem todo esse poder). Não, ele tem de seguir o que a editora mandar

É isso mesmo, vocês pensaram o quê? Que tradutoras são livres? HA! Que ganham direitos autorais sobre sua tradução? HAHA! Não. Claro que não. Se a editora quiser um livro adaptado e sem um traço cultural, sem um pingo de contexto, é isso que será feito. Se a editora quiser uma tradução literal, sem interpretação nenhuma por parte do tradutor, o que ele fará? O melhor que ele puder, já que isso é impossível.

Outro ponto negativo da tradução: não importa o que um tradutor faça, não interessa o quão imparcial e invisível ele seja no texto traduzido, sua interpretação sempre fará parte de seu trabalho. É impossível saber o que o autor estava pensando quando escreveu seu livro, então, o melhor que um tradutor pode fazer é tentar entender a obra e traduzi-la como a compreendeu, só que, para fazer isso, ele terá de interpretá-la de acordo com a sua perspectiva, suas experiências, sua vida. 

Resumindo, ao traduzir um livro, o tradutor tem de tomar cuidado com as expressões idiomáticas (tipo "it was raining cats and dogs" em português é "chovia canivetes" e não "chovia cães e gatos"), com as diferenças gramaticais e diferenças culturais,  com o que a editora quer que ele faça (adaptação, domesticalização, estrangeirização - sim, esses são os termos oficiais de alguns tipos de tradução), e, por fim, tomar EXTREMO cuidado para que sua interpretação do livro não fique óbvia e não detone a obra original.

Depois de estudar tudo isso e muito mais na faculdade, decidi que, se possível, não leria traduções nunca mais. Por melhor que a tradução seja, ela nunca será igual a obra original, ela nunca vai passar exatamente a mesma coisa, nada será tão bom quanto o que o autor escreveu. 

Claro que esse meu objetivo não é possível, só sei uma língua estrangeira (inglês), e, apesar de tentar arriscar ler em espanhol, essa língua latina não é tão fácil quanto parece ser (tentem ler Cien Años de Soledad), fora todas as outras várias línguas desse mundo vasto. Uma hora ou outra serei forçada a ler uma tradução. 

Só para concluir, não quero deixar ninguém em pânico achando que está lendo um lixo cada vez que pega uma tradução na mão. Não. Existem traduções incríveis (por exemplo, O Corvo traduzido por Fernando Pessoa), assim como existem traduções tão ruins que eu consigo imaginar exatamente o que estava escrito em inglês enquanto estou lendo a tradução. O segredo é buscar o livro com as melhores críticas, de preferência ter um amigo tradutor que te dê uma indicação de qual versão do livro você deve ler, e ir com fé!

E se não tiver como fazer nada disso, o jeito é se render mesmo e ler com confiança e com carinho. Pode não ser a obra original, pode não ser a melhor tradução do mundo, mas é o que temos na mão, é o que tinha pra hoje, e o importante é ler sempre e adquirir mais conhecimento! 

Deixem um comentário, um xingamento, uma oração, o que quiserem, mas não esqueçam de deixar uma palavrinha para mim (se puderem)! Até a próxima!

Por: Gaby