09 dezembro 2012

Eu, leitora

Um dia, nos cadernos da minha irmã mais velha, descobri a letra "x".
Mas como ela escrevia era que a coisa se tornava fascinante: na intenção de tornar cursiva essa letra tão dura quanto colunas de construção, ela desenhava uma "pequena montanha" e a cortava em seu cume por um risco. Tão bonito. Tão misterioso.
Aos poucos, eu fui descobrindo os quadrinhos...hábito que não me largaria pelo resto de meus dias até então. Foi quando me vi sendo Magali, acompanhando aqueles deliciosos desenhos de comida (Ah, Mauricio de Souza me fez passar cada vontade...) que também incentivou outra paixão: a da gastronomia...mas não é papo pra agora.

Eu, leitora, mesmo antes de saber que letras formavam palavras.
Eu, leitora, fascinada em escrever pela primeira vez que "O Ivo viu a uva".
Eu, leitora, que esquecia do "u" em ninguém nos ditados.
Eu, leitora, decorei rápido que " m vem sempre antes de p e b "

Eu, leitora, nunca esqueci e fui juntando os pedaços da minha para conhecer também outras histórias.
Teve a avó que enviava toneladas de novas aventuras sempre que podia. As lia e enviava pra mim...
Foi aí que o gosto engatou a primeira marcha e nunca mais deixou de subir. Jeffrey Archer, Sidney Sheldon, Collen MacCullough, Agatha Cristie, Michel Quoist e mais tantos...
Além de revistas, várias delas, kilos de informações... seleções, piadas, notícias, artesanato, (de novo) a culinária...
Ah, como foi o impacto de Demian (Hesse) em minha vida!! Talvez seja o mais relido por mim no tempo em que eu procurava por abraxas. O segundo mais lido (debaixo de uma torrente de lágrimas) talvez seja o Vidas Secas...

Houve também a fase do hiato, a fase das biografias, a fase mais forte de quadrinhos. Os livros ficaram, alguns foram doados e as fases ficaram mais suaves. As histórias não: ainda bem guardadinhas na minha cabeça.
Depois de mais adulta, vieram as filosofias e as distopias. Confesso que esses são meus fracos: não consigo viver sem. Mesmo que consumida por alguma aventura, esses estão sempre comigo, para momentos de internalização.

Costumo a brincar e dizer que sou muitas. Mas a verdade é que, depois de viver tantos, eu contenho multidões, aglomerados, milhares de vozes como em Eles eram muitos cavalos...
Confusa, não distinguo a realidade as vezes...como em, quando ao ler 1984, num cochilo eu sonhava que o Ministério do Amor vinha à minha caça, ou fumava 400 cigarros com cafés sonhando ser Arturo Bandini.

O fato é que: eu, leitora, sou louca.
Todos os leitores são loucos a seu modo...mesmo aqueles que costumam ler o que nem passa pelos meus olhos.
Ler é viver além de um só corpo. As vezes com açúcar e afeto. As vezes, com fel.
Ler é ter mais de uma vida, sem destino e condução.

E eu gosto :)


(texto originalmente publicado no blog da autora que vos escreve, aqui)