11 janeiro 2013

Banguela

O texto a seguir foi escrito pelo colaborador e parceiro do Dose Literária, João Pinheiro.
 

É, estou perdendo dentes. Já tinha perdido alguns antes, é claro, mas agora a coisa parece ser séria.

Tenho até medo de contar. Dias loucos, amigo! Sinto-me só. Como um chimpanzé abandonado numa floresta incendiada. Fazer o que da vida? Desenhar cafeteiras, copos americanos, garrafas de cerveja, maços de cigarro e postes já não têm tanta graça, a ilusão se foi. Viajar pelo mundo está fora de cogitação. Como isso? Um duro feito pau de tarado. Sem chance. Nem fliperama tem mais nessa porra de cidade. O que eu tenho? O bar do Zoio como consolação nesta tarde sem nexo. E o Zoio nem é mais o dono da joça, isso que é engraçado, já faz é muito tempo. Parece que ele tá no crack. Que merda. Tá todo mundo migrando pra pedra. Eu continuo cachaceiro, e agora, e cada vez mais, banguela.

Meu irmão não está mais aqui para jogarmos conversa fora e disputarmos uma partidinha de bilhar. Tá longe agora, o puto. Casou-se pela quinquagésima vez e vai ser feliz para sempre, agora. Tomara. Ele sempre ganha de mim, no bilhar, é claro, mas eu tenho espírito esportivo e insisto em sempre perder. O mano conhece do joguinho, joga na manha, certinho, sem escorregar. Eu sei um pouco também, não muito.

O bar do Zoio é uma espécie de mundo em miniatura, manja? Um mundo sujo, convenhamos, assim como o mundo lá fora, ué, nada mais natural. Só tem derrotados aqui e nos botecos do mundo todo. Mas eu não sou contra desistir, pelo contrário, acho perfeitamente natural. 

No passado amei a vida como a uma prostituta numa noite de “não tenho nada a perder” na Augusta. Principalmente quando tive certeza que essa é a minha única oportunidade, vixe. Depois de ter sacado que tudo é falso? Que tudo o que nos ensinaram é falso? Estamos sendo empurrados para o futuro e o futuro é o vazio total? Mas no momento estou me lixando pra isso, estou cagando para essa minha “chance”. O criador que enfie... Vá!

Foda-se o amanhã. 

No fundo somos só poeira rastejando conforme o vento manda. O acaso é Deus, quando ele não assina.

Mas ainda estamos vivos.

Então, paguemos o preço, mas vivamos!