Ecce Homo – Como se chega a ser o que se é

Ecce Homo - Eis o homem!
Essa espécie de autobiografia escrita em 1888 pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (saúde!), foi seu penúltimo livro escrito antes de falecer, dois anos depois, de “loucura” causada pela sífilis, em Weimar na Alemanha.
Nos capítulos Por que sou tão sábio, Por que sou tão inteligente, Por que escrevo livros tão bons e Por que sou um destino, Nietzsche praticamente se declara “dig din dig din dig din sou foda” (e ele é!), e faz criticas cruas, sem hesitar, contra a moral (principalmente a ligada ao Cristianismo), a sociedade alemã da época, a religião, a maioria dos grandes filósofos, e até mesmo contra sua própria família, especificamente mãe e irmã.
 
Antes mesmo deste ateu e imoralista declarado, falecer, sua irmã Elisabeth Foester (que era simpatizante do movimento hitlerista), se apossou dos escritos não publicados do irmão, tomando para si os direitos autorais das obras, modificando alguns dos escritos e tentando ligar as ideias de Nietzsche ao Nazismo, e favoritando o partido, obviamente.

Mas ao contrário do que se pensa, Nietzsche não era anti-semita (nem niilista!!! [o que era Nietzsche, afinal, além de um übermensch?]), ele, inclusive, abominava e criticava qualquer forma de racismo (aliás, o que é que Niet não criticava, me diz!), e em Ecce Homo ele deixa bem claro, com as palavras mais explícitas possíveis que apesar de ser natural da Alemanha e ter passado boa parte da sua vida entre os alemães, ele não suportava a raça, justamente por se considerarem a raça suprema, ariana, a mais pura e toda aquela conversa nazista.

Há um trecho em Ecce Homo (mais especificamente na página 24) em que o autor faz uma dura critica à sua mãe e irmã, porém, durante sessenta anos esse trecho foi censurado por Elisabeth e substituído por outro, feito pela própria, tecido de elogios às duas. Sacanagem!
Imagina o que Nietzsche diria sobre isso se tivesse tido a oportunidade.

Já em estado catatônico devido a sífilis, ao lado
da irmã, Elisabeth.

Complementando o capítulo Por que escrevo livros tão bons, ele cita suas mais importantes obras e faz pertinentes e importantes comentários pessoais sobre cada uma delas, são:
I – O Nascimento da Tragédia
II – As Intempestivas
III – Humano, Demasiado Humano
IV – Aurora
V – O Alegre Saber (A Gaia Ciência)
VI – Assim Falava Zaratustra
VII – Além do Bem e do Mal
VIII – Genealogia da Moral
IX – Crepúsculo dos Ídolos
X – O Caso Wagner

Super-Nietzsche

Ecce Homo além de uma autobiografia e uma auto-análise psicanalítica, é também um guia aos leitores deste sem-Deus que, nesta obra, percorre sua própria vida sob todos os aspectos: físico, intelectual, psicológico, social e espiritual. Nietzsche se analisa e fala de si próprio, com evidente exaltação, mas tecendo perversas criticas contra ele mesmo, simplesmente por ser homem, um ser humano, demasiado humano.

Eu pessoalmente preferiria ter lido este livro após ter lido toda a sua coleção de obras, por soar como uma “conclusão” de vida e carreira, portanto, faz mais sentido e é melhor compreendido por quem já o conhece mais a fundo. Mas ao ler Ecce Homo, além de conhecer mais sobre o autor, pude compreender melhor a mente deste notável pensador mau-humorado que tanto admiro. Também já conheci sua opinião sobre religiões após a leitura de “O Anticristo”, e já defini como meu próximo livro de filosofia a sua Magnum opus “Assim Falava Zaratustra”.
Nietzsche é definitivamente o meu filósofo favorito.


Ficha Técnica:
Título original: Ecce Homo – Wie man wird, was man ist
Autor: Friedrich Nietzsche
Gênero: Filosofia; Autobiografia
Editora: Escala
Páginas: 123
Ano: 2006
Preço sugerido: 5,00





A Anna também já falou sobre Nietzsche aqui no Dose, check it out:

Comentários

  1. Olá!!

    Estou com esse livro aqui em casa, mas ainda não me arisquei na leitura. Confesso que fiquei tentada a sair correndo pegar meu exemplar para ler, mas vou primeiro terminar minha leitura do momento. rs

    Adorei sua resenha, parabéns!

    Beijos,

    Samantha Monteiro
    Word In My Bag
    http://wordinmybag.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada, Samantha.
      Quando vc ler o teu Ecce Homo, passa aqui pra dizer o que achou. ;)
      Tenha ótimos momentos de leitura!
      Beijos.

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  2. Olha! Te aplaudo de pé amiga,por escrever assim tão bem e de modo tão simples para que todo mundo possa realmente entender quem é Nietzsche antes de falar qualquer abobrinha por aí, como NÓS sabemos que existe, principalmente no meio Black Metal... hahahaha!!!! Parabéns!

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    1. Obrigada, amiga!!! ^.^
      Tens razão, cansei de ver gente no meio underground completamente equivocada quanto as ideias de Nietzsche. Um anticristo ele era mesmo, fez criticas severas à religiões cristãs, mas nazi não, pelo contrário. E Quanto ao niilismo, até hoje não está bem claro se ele era de fato niilista, porque ele se contradisse muito de um livro para outro.
      Beijão. :-*

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  3. Dele só li além do bem e o mal e o anticristo. O anticristo eu adorei na época que li, mas não posso falar a mesma coisa do outro...Tenho vontade de ler mais outro pra tirar a teima.

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    1. Olá Tamara! :)
      O "Além do bem e do mal" é um dos que está na minha estante para ser lido, então um dia haverá resenha dele aqui tbem, estou ansiosa para ler-o.
      "O Anticristo" é o meu preferido!
      Apesar de ainda não ter lido, recomendo o "Assim Falava Zaratustra". No próprio "Ecce Homo" ele faz vários comentários a respeito da obra e aparentemente é o melhor e mais importante de toda a sua bibliografia.
      Um beijão. Seus comentários sempre me deixam muito feliz, obrigada!

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  4. Olá Eni! Òtimo post. Ouvi e estudei muito Friedrich Nietzschena faculdade. Esse livro me interessou bastante e me lembrou o Freud por ele mesmo. Quero ler...mas antes lerei outros livros do autor. O cara é foda mesmo...eternizado através das obras.
    Desculpe a demora em responder o comentário. Estava viajando e sem internet. Desejo para você um ótimo 2013 repleto de luz e muito sucesso.
    Beijos!
    Paloma Viricio- Jornalismo na Alma

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    1. Olá Paloma!
      Obrigada, de coração. ;)
      Este livro que citaste "Freud, por ele mesmo" é um dos que pretendo adquirir, o que vc achou dele?
      Obrigada pelos votos. Sucesso com o blog à ti tbem.
      Um beijão. :-*

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  5. Gostei principalmente do esclarecimento sobre a doença que ele tinha e que o deixou demente, pois muitos por aí dizem que ele ficou louco devido à sua filosofia radical, e isso não é verdade. Muito bom!

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    1. Olá, obrigada pela visita e pelo comentário!
      Quanto a doença de Nietzsche, infelizmente até hoje não foi confirmada o motivo real de sua demência e causa mortis, mas a mais provável é a sífilis, pois ele foi tratado em um manicômio e todos os sintomas se assemelhavam aos sintomas da sífilis. Me parece que há um livro escrito por um estudioso sobre vida e obra de Nietzsche em que esse fato é melhor esclarecido, mas até o momento não consta nos registros virtuais (eu precisaria fazer uma busca mais apurada para te confirmar isso).
      Mas é notório que em "Ecce Homo" ele não está em seu estado mais sóbrio pois nessa época em que o livro foi escrito a doença já começou a se manifestar, é até engraçado ler alguns trechos dele falando sobre si mesmo, a mania de grandeza e auto-exaltação estão gritantes e chega a ser um pouco exagerado.
      Seja de doença física ou psiquiatra, Nietzsche em seus últimos dias de vida sem dúvida nenhuma não estava em seu juízo perfeito e por esse motivo foi vítima da irmã, que permitia que a mídia explorasse sua imagem em seu leito. Nesta foto que postei dele ao lado da irmã (e algumas outras espalhadas pela internet) isso é evidente.
      Mais uma vez obrigada!
      Abraços.

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  6. Enizoca, amei seu texto. Como a Pati disse, pouca gente sabe falar de filosofia de forma simples. Amo os maus humorados, precisamos de mais crítica no mundo, sabe. Tô lendo o Cioran! Fã do Nietzsche confesso e o "cara" da amargura. Leia, recomendo!

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    1. Puxa, Manu, obrigada! <3
      A partir dessa tua descrição, me sinto na obrigação de buscar mais informações sobre Cioran. Valeu pela dica, querida. ;)
      Beijão!

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  7. Nietzsche é uma contradição (como no caso do niilismo) por não fazer filosofia como Descartes e companhia, mas por ensinar a se fazer filosofia. O povo do Black Metal fala do Nietzsche, essa é nova pra mim. xD

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    1. Tens razão, Jonathan, ele é muito contraditório (e acho que por isso se torna ainda mais interessante). O que mais admiro nele são suas críticas ferrenhas, ele não tem travas na língua! Se fosse nos tempos modernos ele seria daquele tipo que entraria em discussões pelo facebook, arrumaria inimizades e deixaria todos de bico calado porque no final das contas ele sempre tem razão. Pois era exatamente isso que ela fazia em sua época, arrumava treta com todos! rs
      Niet é o filósofo preferido (talvez único) do pessoal do Black Metal, por ser o autor de "O Anticristo". Mas a impressão que tenho é que, esta é a única obra de Nietzsche que esse povo conhece.
      Abração!

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  8. o 1º contato que tive com ele foi em O Anticristo, depois li O nascimento da tragédia. Tenho vários livros dele, me identifico com muitos dos seus pensamentos... simplesmente incrível...

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    1. Tbem tenho vários livros dele, Val, e me identifico muito com suas ideias, é um filósofo sensacional! Diz o que pensa, sem hesitar, pago um pau. rsrs

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