26 janeiro 2013

Entre miados e aparições silenciosas

Finalizei o ano de 2012 com muitos presentes bons e um deles foi o livro "Os Gatos", da texana Patricia Highsmith. O  presente veio direto das mãos da Michelle, nossa mais que querida amante de felinos. Se me permitem um rápido devaneio, toda vez que penso na Mi, como a chamamos carinhosamente, imagino logo a Selina Kyle, personagem da Michelle Pfeiffer em Batman - O Retorno. Impossível dissociar. 


Portanto, foi uma agradável surpresa compartilhar do gosto de uma amiga que falou tão bem do livro da escritora que adorava o gênero policial. Por ter tido uma infância disfuncional, nascendo de pais separados e crescendo em meio a um relacionamento complicado com a mãe e o padrasto, Patricia se refugiava na escrita de longos diários. Neles, ela criava histórias sobre pessoas - normalmente seus vizinhos - cuja aparência acima de qualquer suspeita escondia, na verdade, uma natureza psicopata. Dois de seus livros ganharam versões cinematográficas, sendo eles "Strangers on a Train" (conhecido no Brasil como 'Pacto Sinistro', o livro foi adaptado para a sétima arte por Alfred Hitchcok) e "The Talented Mr. Ripley" ('O Talentoso Ripley'). Patricia Highsmith também alcançou êxito editorial com o romance "The Price of Salt" (Carol), causando polêmica ao retratar o romance entre duas mulheres.

Além de literatura, Highsmith era apaixonada por gatos. As três histórias e poemas desse livro, acompanhados de um breve ensaio e de desenhos dos felinos, mostram o amor que a escritora sentia pelos bichanos. São histórias sem mistérios, com segredos logo resolvidos, mas cujo arremate está no tratamento psicológico dado aos personagens. A Michelle fez um breve apanhado do que o leitor pode esperar nos três contos, assinalando também o ensaio final. Lendo-os, notei algumas semelhanças entre Portland Bill, Ming e Puss-Puss, os três protagonistas de sete vidas: eles parecem enxergar a alma humana, seus reais desejos e intenções; são silenciosos, de personalidade expressiva e um olhar nebuloso, sem nunca revelar o que realmente estão pensando. Os três são geradores dos momentos de reflexão das histórias, e nos levam a pensar que espécie de ser existe dentro de cada corpinho peludo desses. 

Créditos: Leugim77
Em "Presentinho de gato", uma pacata reunião familiar inglesa é brutalmente interrompida por um par de dedos arrastados pelo bichano para o meio da sala, levantando logo a questão do que poderia ter acontecido naquele lugar tão bucólico; já em "A maior presa de Ming", um lindo e sonolento gatinho é constantemente molestado pelo namorado da dona e resolve ele mesmo fazer justiça com as próprias patas; "A casa de passarinhos vazia" traz a história de um casal atormentado por um bicho desconhecido, capaz de descortinar o passado que ambos querem esquecer. Uma gatinha idosa e de passos lentos vem para mostrar como a vida pode ser um relógio monocórdio se assim permitirmos. Este último é o conto que destaco. 

Créditos: Faboart
Os poemas "O filhote", "O gato" e "O gato velho" descem ladeira a baixo como previsão do destino de Patricia Highsmith: uma mulher jovem, culta e atraente, que terminou seus dias em um autoexílio na Europa, presa dentro de sua misantropia e reclusão máxima. Em 2010, a escritora Joan Schenkar lançou a biografia "The Talented Miss Highsmith" (A Talentosa Highsmith, Editora Globo, 2012), onde relata o caráter obsessivo da escritora e sua fixação em escrever suas histórias do ponto de vista masculino. Schenkar também revela que a mãe e as amantes de Patricia eram suas maiores inspirações (leia mais aqui).

A jovem Patricia Highsmith
"Os gatos" é um livro para ser lido em uma só sentada, oferecendo aos amantes e simpatizantes dos felinos um bálsamo para gastar em uma tarde sonolenta ou mesmo começar a entender qual a razão dos gatos serem tão importantes para os egípcios.