11 fevereiro 2013

Colhendo amoras

Hoje é o aniversário da morte de uma das minhas poetizas favoritas. Sylvia Plath.

Para quem não está familiarizado com sua poesia cheia de sentimento, decidi colocar aqui o poema "Colhendo Amoras".










Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amoras, 
amoras dos dois lados, embora mais à direita, 
uma álea de amoras, descendo em curvas fechadas, e um mar 
algures, lá ao longe, arfando. Amoras 
tão grandes como a cabeça do meu polegar, e mudas como olhos 
negros nas sebes, repletas 
de um suco azul-vermelho. Este desperdiça-se nos meus dedos. 
Não pedira tal comunhão de sangue; devem amar-me. 
Comprimem-se numa garrafa de leite, de encontro aos seus lados. 

Sobre mim passam, com a sua cacofonia, os corvos em bandos negros, 
pedaços de papel queimado oscilando num céu ventoso. 
A sua voz é a única que está a protestar, a protestar. 
Julgo que o mar não vai mesmo aparecer. 
Os verdes e altos prados brilham como iluminados por dentro. 
Chego a um arbusto de bagas tão maduras: é um arbusto de moscas, 
suspendendo os seus abdómens azuis esverdeados e os vidrilhos alados de um biombo chinês. 
O festim de mel das bagas surpreendeu-as; julgam-se no paraíso. 

Para além de uma curva, as bagas e os arbustos acabam. 

A única coisa que vem a seguir é o mar. 
De entre duas colinas sopra contra mim um vento súbito, 
sacudindo como fantasmas a sua roupa branca contra o meu rosto. 
Estas colinas são demasiado verdes e suaves para terem saboreado o sal. 
Sigo, entre elas, a vereda aberta pelas ovelhas. Uma última curva leva-me 
até à face norte das colinas, e a face é urna rocha alaranjada 
que olha para nada, nada a não ser uma grande extensão 
de luzes brancas e cor de estanho e um ruído como o de um ourives 
batendo sempre um metal rebelde.