11 fevereiro 2013

Not Without My Daughter - Uma História de Superação

Em alguns momentos de nossa vida nos sentimos perdidos. Acho que todo mundo já parou um dia, olhou para frente e não viu saída para o seu problema. Betty Mahmoody teve vários momentos assim, só que, no caso dela, ela realmente não tinha saída nenhuma, ou pelo menos era isso que ela pensava. O fantástico dessa história é que ela é real e narrada pela pessoa que, por amor a filha, superou a si mesma e todos seus medos e problemas.




Betty era uma dona de casa americana, levava uma vida tranquila com seu marido, 'Moody' Mahmoody, e sua filha, Mahtob Mahmoody. Apesar de todas as dificuldades financeiras pela qual eles passaram, a família permaneceu unida, e tudo parecia correr bem. O único problema aqui era o conflito interno que Moody carregava dentro de si.

Moody vinha de uma família muçulmana ortodoxa, e quando eu falo ortodoxa, eu quero dizer ORTODOXA!!!! Sua mulher deveria ser nada mais do que sua propriedade e serví-lo de acordo com sua vontade, e a vida que eles levavam nos Estados Unidos era um ultraje para sua religião. Moody vivia entre dois extremos, uma hora ele era o médico e pai carinhoso, totalmente de acordo com o modo de viver do ocidental, e na outra ele era o Moody muçulmano ortodoxo, um homem rude e apegado as suas raízes. 

No livro, Betty descreve que testemunhou esse conflito algumas vezes. Conhecia seu marido e conhecia a origem dele, sabia o quanto era complicado para ele viver nos Estados Unidos como um americano, especialmente considerando que na época que essa história aconteceu o Irã estava se revoltando contra os EUA, e ele sofria preconceito por ser iraniano.

Eu imagino como isso deve ser horrível, mas certamente não deve ser horrível ao ponto de enganar sua mulher e filha (de cinco anos!). O que ele fez? Marcou uma visita a sua família que duraria duas semanas...e acabou durando 18 meses.

Eu? Ha! Jamais faria isso. Olha a minha cara de bom velhinho!

Em uma de suas crises existenciais, Moody convence Betty a ir com ele para o Irã por duas semanas e levar Mahtob junto. Como ele a convence? Ah, prometendo um inferno na justiça, briga por custódia, ameaça de sequestro, etc e talz. Coisas simples assim. 


Chegando lá, eles são recebidos por apenas uns 100 familiares, quase nada. Imaginem uma americana e sua filha de cinco anos sendo cercadas por uma multidão de iranianos barulhentos, elas nem estranharam. Após ganhar (e ser forçada a vestir) um lenço e montoe (espécie de vestido que cobre tudo), todos são levados para a casa da irmã de Moody, Ameh Bozorg, e lá encontram um animal morto sangrando no chão. Calma, não era uma ameaça, e sim uma forma de dizer "bem-vindo"! 

O choque cultural não para por aí. Ameh Bozorg era, dentre todos os membros da família, a muçulmana mais ortodoxa que se possa imaginar. Não tinha um único móvel ocidental (me refiro a sofás, cadeiras, mesa de jantar, etc) na casa, a comida era preparada em uma cozinha num estado deplorável (Betty menciona que muitas vezes encontrava insetos no arroz, olha que legal), e para melhorar, Ameh Bozorg tomava em média um banho a cada...um ou dois meses (devo mencionar o estado das roupas nem um pouco limpas dessa senhora?). 

Apesar de tudo isso, Betty tinha a certeza de que as duas semanas logo passariam, e ela voltaria sã e salva com Mahtob para os Estados Unidos. Ela tinha essa certeza, até seu marido confessar que tinha sido demitido antes de irem para o Irã e avisar que elas nunca mais voltariam para os Estados Unidos


A partir daí, tudo vai de mal a pior. O homem amável, o pai carinhoso, o médico dedicado, o marido que Betty conhecia some. Ele se transforma em um homem agressivo, que não hesita em usar a força para conseguir o que quer. Possessivo e ciumento, ele faz com que a família vigie Betty e Mahtob, e aos poucos força sua mulher e filha a viver de acordo com sua religião e seus costumes. Para melhorar, o pai de Betty tinha câncer na época, e estava nos últimos meses de vida. 

Apesar de não ver saída, de estar presa com sua filha em um país hostil a mulheres, um país que via americanas como prostitutas (ela foi assediada dentro de um táxi, por exemplo), Betty decide que irá fugir. Então começa sua busca incessável por uma maneira de sair do Irã, e o mais importante de tudo: conseguir sair com sua filha, pois já era difícil fugir sozinha, e ninguém queria assumir o risco de ajudá-la se ela levasse a menina.

Como sempre, não conto o final de boas histórias, e essa é simplesmente fenomenal. Eu não consigo imaginar o horror que essa mulher sofreu, como sobreviveu a fuga, aos traumas, a tudo. É o tipo de livro para ler, agradecer a vida que temos e seguirmos em frente.

Para quem não achar ou não quiser ler o livro, tem uma adaptação cinematográfica boa com o Alfred Molina e a Sally Field:

Nunca Sem Minha Filha

O que Betty fez depois disso? Trancou-se em um consultório de algum psicoterapeuta para nunca mais sair? Não. Ela fundou uma organização chamada One World: For Children, que visa ajudar na compreensão entre culturas, e busca oferecer segurança a crianças que, como Mahtob, tem pais de culturas diferentes. Além de fundar essa organização e escrever o livro Not Without My Daughter, ela compilou a história de vários pais que sofreram o mesmo que ela em um livro chamado For the Love of a Child.

O que houve com o Moody? Perseguiu a sua filha até morrer. Literalmente. Os endereços e telefones de Betty e Mahtob não eram listados (não são até hoje, creio eu), mas mesmo assim Mahtob conta que às vezes chegava em casa e via que alguém tinha mexido nas suas coisas, alguém que o pai enviara, já que ele não podia entrar mais nos EUA. Ela nunca o perdoou e recusou contato com o pai desde que fugiu do Irã com Betty. 

Moody fez um documentário chamado Without My Daughter para mostrar seu lado da história, mas isso não adiantou em nada. Ele morreu em 2009, aos 70 anos, sem nunca ter visto sua filha de novo. Honestamente? Não tiro a razão dela.

Espero que gostem do livro/filme e que tenham gostado do post. Por hoje é só e até a próxima!