21 março 2013

1001 Livros: Entrevista com o vampiro - Anne Rice

Inspirada nos posts da nossa talentosa Mara Vanessa, sugiro que este seja lido ao som de Sympathy for the Devil na versão original do Rolling Stones. Quem viu o filme saberá o porquê.

Louis, um vampiro com aparência de 25 anos, é entrevistado por um jovem repórter após se conhecerem em um bar, e assim que o gravador começa a rodar, num quarto de hotel a meia-luz, o vampiro passa a conduzir a narrativa de sua vida de quase duzentos anos de experiência como um ser das trevas desde o dia em que foi mordido em 1791, por seu vampiro-mestre, em sua fazenda Pointe du Lac, em Nova Orleans.
A noite vem a ser o pano de fundo desta história.


Na obra, Louis, que possuía grande quantidade de terras e riquezas, perde um membro da família, o que deixa-o desolado, sentindo-se culpado e desejoso de morte, para ele todo o significado da vida havia se exaurido de sua alma diante de tal tragédia, e é ai que o misterioso vampiro Lestat surge, da qual a origem não fica bem clara, e que encontrou tudo o que precisava em seu atraente pupilo, riqueza material, beleza física, o desejo de morte, nenhum amor ou servidão a Deus, para fazer-lhe companhia pelos séculos seguintes, não fosse a integridade moral que Louis carregava consigo, e o seu lado humano gritando através de seus olhos de sangue, sua pele de mármore, e seus caninos afiados.


Diferente dos estereótipos de vampiros clássicos, estes não têm aversão a alho, crucifixos, e sua imagem é refletida no espelho perfeitamente, no entanto, um banho de sol ou uma estaca no coração significa o fim.

- Pela primeira vez eu me sentia inteiramente transformado em vampiro. Fechei as venezianas de madeira entreabertas sobre as janelas estreitas e tranquei a porta. Depois penetrei no caixão forrado de cetim, quase percebendo o brilho do tecido no meio da escuridão, e ali me tranquei. Foi assim que me tornei um vampiro. Pg. 41

Muitas dúvidas lhe assolavam, caindo num infinito de meditações e alimentando por seu mestre um desprezo descomunal, a maior das dúvidas vinha de sua própria natureza, por que não conseguia matar com tanta facilidade quanto seu mestre? Por que Lestat era tão repugnante e por que odiava-o tanto? Por que considerava a vida eterna uma maldição, quando muitos consideram uma benção? E por que não conseguia apreciar aquela vida de luxos extravagantes, banhos de sangue luxuriantes, sensibilidade e força extrema, superioridade aos olhos humanos e beleza soturna, que Lestat tratava com tanta naturalidade e escárnio? Por que sentia-se tão dependente e preso ao seu criador?


Algumas de suas questões internas foram temporariamente esquecidas quando surgiu em suas vidas a pequena Cláudia de apenas 5 anos, transformada em vampira, inconsequentemente, por Lestat, para suprir a solidão em que Louis vivia. Tratada como uma filha amada pelos dois, Lestat sequer previu que seria a própria pequena, sua ruína, pois na ânsia de buscar respostas às suas perguntas, Cláudia comete o pior dos crimes.


Louis e a pequena seguem então de navio ao velho mundo, para descobrir a origem dos vampiros, para saberem se há de fato outros seres como eles, e como se tornaram o que são, o que faziam, como viviam, eram muitas as perguntas que Lestat deixou de responder. E foi caminhando entre vielas escuras e úmidas, com o sobrenatural impregnado nas paredes do porão do Teatro dos Vampiros que Louis encontrou um strange love, o vampiro grão-mestre Armand.


As descrições que se seguem após este fato são de apertar o livro contra o peito e suspirar, sentindo descer pela garganta a saliva espessa, seja pelo envolvimento entre os dois belos vampiros, as tristes constatações de Cláudia, a atmosfera sombria e malévola dos subsolos do teatro, o ar superior e charmoso de Armand, e os acontecimentos finais, envolvendo inclusive Lestat.

Entrevista com o vampiro lançado pela editora Rocco, 334 páginas, trás uma capa lindíssima criada por Rodrigo Rodrigues e a mais que perfeita tradução de Clarice Lispector, o que na minha opinião transformou toda a narrativa numa das mais ricas do gênero. A obra faz parte d'As Crônicas Vampirescas, e está listado entre os 1001 Livros Para Ler Antes de Morrer, pela riqueza descritiva, pela condução da narração, pelo dom que Anne Rice possui de nos ambientar a este submundo gótico romanesco com tamanha maestria.


É quase impossível ler este livro sem comparar, ou relembrar algumas passagens – se não, o filme inteiro – da versão cinematográfica dirigida por Neil Jordan e protagonizada por Tom Cruise e Brad Pitt, que na minha imaginação são os verdadeiros Lestat e Louis, tão perfeitas foram as interpretações e construção dos personagens desta história escrita em 1976.
O filme lançado em 1994 foi o principal motivo de eu ter desejado ler o livro por tantos anos, e o livro, o complemento mais importante desta, que se tornou uma das minhas histórias de fantasia, terror gótico e romance preferidas. Complemento porque, vi o filme antes (algumas BOAS vezes) e tinha a história toda ainda cravada na memória, mas obviamente se trata de uma adaptação, e é no livro que encontrei personagens extras, de suma importância na história, alguns lugares e acontecimentos amputados no filme, essenciais para torná-la uma obra tão completa. Não importa a ordem com a qual você veja o filme e leia o livro, mas sugiro que faça os dois.
E mais um ponto interessante, o final do livro e filme são diferentes.

Pôster do filme

Ficha Técnica:
Título original: Interview with the vampire
Autora: Anne Rice
Tradução: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Ficção americana
334 páginas

(Imagens do filme de 1994 dirigido por Neil Jordan. Brad Pitt interpreta Louis, Tom Cruise é Lestat, Kirsten Dunst está como Cláudia e Antônio Banderas é o vampiro Armand.)