14 março 2013

Espere a primavera, Bandini - John Fante

Este livro é dedicado a minha mãe, 
Mary Fante, com amor e devoção; 
e a meu pai, Nick Fante, com
amor e admiração.

Não estava sendo nada fácil aquele inverno para Svevo Bandini. Nenhum trabalho fixo, somente uns bicos de pedreiro, uma lareira que precisava de tijolos aqui, um telhado esburacado ali, era tudo o que conseguia.
Quem narra essa história é seu filho mais velho, Arturo.

“Era um pedreiro e para ele não havia vocação mais sagrada na face da terra. Você podia ser um rei; podia ser um conquistador, mas não importa o que fizesse, precisava ter uma casa; e se tinha o menor bom senso, era uma casa de tijolos; e naturalmente, construída por um homem do sindicato, na tabela do sindicato. Aquilo era importante.” Pag. 57

As crianças em casa com fome, batendo os dentes de frio, sentados à mesa, carrancudos, porque papa novamente não poderá pegar macarrão fiado no mercadinho, e terão que passar mais uma noite a base de ovos. Mexidos, cozidos, fritos, quê importa, Arturo não aguentava mais comer aqueles ovos daquelas galinhas idiotas.
Mas Svevo não voltará para casa esta noite, nem para Maria, nem para os filhos, porque tudo o que ele mais quer é passar bem longe da sogra, vovó fará-lhes uma visita aquela noite.
Papa foi para o bar, de novo, e voltará com a roupa cheirando a charutos, e mama ficará brava de novo, porque ele voltou sem dinheiro, perdeu-o todo em apostas.


Arturo Bandini sente que aquele natal no Colorado será atípico, algo grita no fundo do seu peito sobre a saúde de “sua garota”, e numa de suas conversas com Deus, ou seja lá quem é que está ali lhe ouvindo, pede perdão por ter surrupiado uma moeda de sua mãe que, mesmo agarrada ao terço, em transe nas contas e orações, finge não saber que Arturo, cansado dos papos dos irmãos mais novos, foi ao cinema às mil desculpas e escondidas.

Dias passados, Svevo não retorna ao lar, nem no dia seguinte, nem no outro, e no outro, surpresa, também não. Onde estará papa? Por que este carcamano não volta pra casa? Por que mama fica tão triste, tão calada? Sem fazer o jantar esta noite, passa o dia com os olhos fixos num mesmo ponto, deixando August e Federico assustados. E por que a primavera não leva embora esse maldito inverno que congela meus pés, e essa maldita neve que molha meu sapato velho furado, para eu poder voltar a jogar?


Espere a Primavera, Bandini é tão John Fante que antes de qualquer outro livro dele, deve ser lido. É sua primeira novela, escrita em 1938, um ano antes de Pergunte ao Pó. Acredito que esta obra denotou sua maneira de narrar, o que o fez permanecer autêntico e fiel a ela durante toda a sua carreira como escritor.
É uma história tão verdadeira, tão realista, que chega a machucar.

Quem lê e conhece um pouco de Fante, sabe da responsabilidade que ele coloca no leitor de refletir durante a leitura, e não foram poucas as minhas viagens ao passado, rememorando cenas com meus irmãos à mesa brigando pelos melhores pedaços da galinha assada, ou do orgulho ferido sentido ao demonstrar interesse por um garoto da escola e não ser correspondida.
Quem não o conhece, está ai a oportunidade.

Ora irreverente, ora mau humorado, por vezes arrogante, Arturo é um adolescente que admira o pai mesmo diante das circunstâncias da pobreza, que respeita e honra a mãe, pela sua pureza de mãe, e se depara com sentimentos até então nunca experimentados, em situações que, mal sabe ele, provocam-lhe amadurecimento. Eu ri com Arturo, e chorei com ele, e por ele, também.

Sua leitura é tão vivaz que a gente se pega pensando em lapso de segundos “sou eu Arturo Bandini?”

Ficha técnica:
Espere a primavera, Bandini
John Fante
Editora José Olympio
2010
Novela americana
206 páginas