30 março 2013

O Mistério Sittaford

Agatha Christie, conhecida mundialmente como "Rainha do crime", é uma das escritoras mais lidas, traduzidas e publicadas do mundo. Gerações inteiras crescem lendo e se envolvendo nos romances de mistério e intrigas da autora inglesa, cujo cheque-mate segue o ritmo certo para prender a atenção: segredos codificados nos mínimos detalhes. 

A receita não é diferente em "O Mistério Sittaford" (original 'The Sittaford Mystery', tradução de Carlos André Moreira, editora L&PM, 2010, pág. 256), onde o fio condutor parte do assassinato do capitão endinheirado (e pão duro) Joseph Trevelyan, proprietário da mansão Sittaford  e de mais seis bangalôs próximos ao palacete. A revelação do homicídio ocorre de forma curiosa, já que acontece por meio do jogo mesa-girante, apontado como possibilitador de atividade mediúnica e muito popular na Europa e EUA a partir do século XIX.

Registro fotográfico de pessoas jogando mesa-girante

A investigação da polícia leva ao nome do sobrinho do capitão, James Pearson, que carrega no histórico certos "pecadilhos financeiros" efetuados na empresa onde trabalha, além de ter estado presente no local do crime e se evadido de forma imediata. Sendo o principal acusado, o jovem boêmio só pode contar com os esforços e determinação de sua noiva, Emily Trefusis, descrita no livro como uma mulher bonita e bastante focada. Ao invés de seguir o perfil de "noiva aflita, com os nervos em frangalhos", Emily emprega toda a sua inteligência em descobrir quem é o verdadeiro assassino do capitão Trevelyan. Para isso, conta com o apoio do jornalista Charles Enderby, enviado para cobrir o fato e, como todo bom jornalista (pelo menos assim o dizem), faz tudo pelo furo, pela notícia de primeira mão.

Como jornalista, me diverti bastante com o senso comum empregado para descrever os profissionais da imprensa, tidos como "abutres oportunistas", conceito que parece estar impregnado no imaginário popular - na maioria das vezes, não sem razão. 

"Conheço bem os da sua espécie. Nenhuma decência. Nenhuma discrição. Juntam-se ao redor de um homicídio como urubus rondando uma carcaça". (Pág. 62)

"O Mistério Sittaford" traz toda a perícia literária-criminal que tornou Agatha Christie famosa, e foi considerado pelo The New York Times como "um dos melhores [livros] que ela já escreveu". Eu o achei interessante, palpável, com um toque de realidade maior, mas mesmo com quase doze anos de convivência com a "rainha do crime", ainda sinto algumas peças faltando no tabuleiro. Explico: o desfecho é surpreendente, os bandidos geralmente são pessoas acima de qualquer suspeita, mas em quase todos os livros que li da autora, achei que faltou um ponto de ligação entre o criminoso e o motivo. Apesar das pistas que Agatha vai lançando no decorrer do livro, percebo que na maioria dos casos, a biografia dos culpados é pouco esmiuçada, e a razão do delito costuma ficar solta no ar. Mesmo essa "falha" não ofusca o brilho dos romances da escritora inglesa, sempre cheios de segredos e imaginação.


Plus:

Neste link, você pode conferir um documentário super bacana sobre vida e obra da Agatha Christie (áudio em inglês).

Agatha Christie: A "rainha do crime"

"O Mistério Sittaford" ganhou uma adaptação (com muita licença poética, por sinal) para a televisão, em forma de série. Assista aqui o episódio completo (somente em inglês).

O Dose Literária também traz comentários a respeito dos livros "Um Pressentimento Funesto" e "O Natal de Poirot". Não deixe de ler.