07 março 2013

Semana da mulher – Lady Chatterley


Em homenagem a semana da mulher, faço as honras a personagem construída por D. H. Lawrence, protagonista de O Amante de Lady Chatterley, que está sendo atualmente meu espelho de personalidade.
No texto abaixo contém tanto as descrições do autor, retiradas diretamente do romance, quanto as minhas impressões pessoais.

Connie, inglesa nascida no final do século XIX, foi criada e educada, juntamente com sua irmã Hilda, de maneira singular e admirável, ou, como diz o próprio criador “recebeu o que se poderia considerar uma educação esteticamente avessa aos padrões tradicionais”, seus pais prezavam acima de tudo, sua liberdade.
Longe de ser oprimida pela conduta moral dos costumes da época, ainda na adolescência, Connie viajou muito e visitou Paris, Florença, Roma e outros centros de grande diversidade e concentração artística, donde bebeu em suas fontes culturais, e num outro pólo de sua formação, visitaram Haia e Berlim durante as memoráveis convenções socialistas, onde oradores discursavam em todos os idiomas civilizados e ninguém se acanhava. A década? 20.

Portanto, desde muito novas, Constance e a irmã Hilda se integraram naturalmente à atmosfera da arte e da política idealista. Esse era o seu mundo. Elas se tornaram ao mesmo tempo cosmopolitas e provincianas, com o provincianismo cosmopolita da arte que acompanha os princípios do idealismo social. Aos quinze anos elas foram mandadas a Dresden para estudar música, entre outras coisas. E se divertiram por lá, vivendo livres no meio estudantil, discutindo os temas da filosofia, da sociologia e da arte com os homens, revelando-se tão capazes quanto os próprios homens: apenas superiores, por serem mulheres.
Eram livres! Eis a palavra maior para defini-las.


Ao ar puro, nas florestas, nas manhãs, com seus amigos de braço viril e voz de pássaro, livres para agir como bem entendessem e acima de tudo, livres para dizer o que bem entendesse. Na conversa estava o fascínio supremo: a troca apaixonada de ideias. O amor era só um acompanhamento em tom menor.
Tanto Constance quanto a irmã mais velha tiveram a primeira experiência amorosa antes de completarem dezoito anos. Portanto elas se deram de presente, cada qual ao rapaz com quem tinha as conversas mais sublimes e pessoais.

Longe de ser sentimental e sonhadora, do tipo que se aventura num romance esperando que do mancebo venha um pedido de noivado, Connie deliciava-se com a vida, com as novas experiências, as reações, possuindo notável domínio de sua mente, sem nunca descartar a possibilidade de constituir família, e foi com o jovem Clifford, que casara-se, aos vinte e três anos, ele, vinte e nove. Foi com Clifford que Connie apurou sua percepção, aflorou seus sentidos, mas percebeu também que o fogo da paixão, por mais que arda, uma hora se branda, se dissipa, se finda. O que resta, em meio ao amor fraterno, consideração e respeito, é um oprimido grito na garganta, uma frustração, um desejo de sei lá o quê. Desejo este desperto no livro, pelo empregado de seu marido, Oliver Mellors.

Lady Constance Chatterley é uma personagem forte, segura, que não se impõe, mas que simplesmente é. Notável por sua cultura e dona de si, não é do tipo que se esconde atrás de um nome, de uma posição social, de um marido, mas que também preza pela conservação e valorização da família. Nem submissa nem autoritária, comedida a sua maneira, expressa opinião quando lhe é requerida, e quando não, o faz com segurança, possui bom senso para tomar decisões, sem ser impulsiva, tudo ao seu tempo, é levada pelo desejo, deseja ser mãe, e acredito que saiba exatamente como ser. Bem instruída, amante de literaturas, percebeu, enquanto vivia um relacionamento com o amante, que despidos, todos somos iguais, porque discorda do ser humano que julga a posição ou importância social pelas vestimentas, pelo nome que carrega, e uma das coisas que Connie não se conformava, era com as diferenças de classes, numa conversa de suma importância que ela tem com o marido, mais especificamente no Capítulo 13, isso é evidente.
É livre e não permite que a prendam, ou que se prendam à ela, só sob vontade. Vive e deixa viver.


Identifiquei nela alguns pontos em comum de personalidade, da natureza de seu ser, talvez seja o que Lawrence considera de mais valoroso numa mulher, o que tomei para mim como um elogio. Por outro, Connie é dotada de valores que eu comumente admiro, ideias libertárias e sociais que o próprio autor acredita e defende. Sua sensualidade é natural, jamais vulgar.

Eu juro que me esforcei para identificar um defeito nesta personagem, uma falha de conduta, o que seja, mas não encontrei. D. H. Lawrence construiu-a muito bem. Talvez dentro dos parâmetros do que para ele seja uma mulher perfeita, e foi exatamente isso que mais me conquistou em sua escrita, em sua construção de personagem com personalidade notável e crucial para o desenvolvimento de todo o romance.
Que bela contribuição a nossa literatura.

Mulheres, parabéns pelo seu dia!

E contem-nos quais são suas personagens favoritas. ;)

(imagens da atriz Marina Hands, do filme Lady Chatterley, de 2006, pelo diretor Pascale Ferran)