18 abril 2013

1001 Livros: O Amante de Lady Chatterley - D. H. Lawrence


“A nossa época é essencialmente trágica, e por isso recusamo-nos a ver nela a tragédia.”

Assim começa um dos mais significativos romances que li, não só pela sua importante contribuição à literatura mundial, mas principalmente por sua carga psicanalítica comportamental, diante das questões da essência humana, do amor e sexo, narrado de forma naturalíssima, trazendo o leitor à todas as reflexões que D. H. Lawrence sutilmente propôs, enredadas a história de uma nobre lady da aristocracia inglesa, que, mesmo casada, envolve-se com um, também casado, empregado de seu esposo.

Mas antes de supor que tudo gira em torno de uma história bafônica de traição, livre-se de todo preconceito e ideia moralista e perceba, sinta e reflita sobre o que D. H. Lawrence realmente quis dizer com esta obra.

Constance e Clifford Chatterley casaram-se em 1917, e seis meses depois, o esposo sofre um ataque durante o serviço militar, que o debilita, obrigando-o a retornar para casa, paraplégico e impotente. A esposa, amiga, amorosa, com apenas 23 anos passa a dedicar a vida ao inválido, com zelo, incentivando o então baronete, a tornar-se escritor. Mudam-se para Wragby, a fazenda da família, numa região interiorana da Inglaterra em que a extração do carvão na época movimentava lucros ao grandes e empregos miseráveis aos provincianos.


Sem demorar muito, a rotina de viver num vilarejo, e conviver no "cárcere"  de um meio (pseudo)intelectual, com constantes visitas de escritores e artistas em sua residência, a impossibilidade de viajar para vários países do mundo pela dificuldade de locomoção do esposo, enfadam a jovem dama que outrora fora aventureira e livre; a vida e os prazeres que o dinheiro pode proporcionar começam a perder seu sentido, Constance anseia por vida, um respirar livre da cruz que carrega, mas sem que o esposo seja abandonado, pois é com prazer que Connie sacrifica-se ao marido, mesmo que a sua vida sexual seja nula.
Numa oportunidade, Lady Chatterley envolve-se sexual e sentimentalmente com um artista, amigo do marido, e os dois chegam a imaginar uma vida em comum, não fosse a dúvida que Constance carregava, decidiu, por fim, aceitar que aquele era só mais um caso amoroso, que não dava para levar a sério.


Clifford se cansa da vida literária e se dedica a vida empresarial, comprando minas de carvão e administrando-as, influenciado pela companhia agradável de sua nova governanta, a viúva Sra. Bolton. Deseja ter um filho para que seu nome e fortuna sejam passados às próximas gerações, mas por reconhecer que é impossibilitado de semear um filho em Constance, pede à esposa, sutilmente, que se encarregue de engravidar, contanto que seu envolvimento com o biológico pai da criança seja somente para esta finalidade. “Aventure-se num romance e seja semeada com o nosso filho” é a ideia que Clifford passa à Connie numa de suas conversas, o que a torna esperançosa por poder gerar uma criança.

Atos e fatos passados, Clifford contrata um guarda-caça, Oliver Mellors que reside ali próximo da mansão, e o torna encarregado de cuidar de suas terras para que ninguém caçasse animais em sua propriedade, e Mellors com seus trinta e poucos anos de idade, habituado com a vida solitária, pois foi abandonado pela esposa, faz o serviço de bom grado, por apreciar a solidão das florestas.
Numa tarde em que a dama passeia pelo seu tão adorado bosque, defronta-se com Mellors, numa situação inusitada, este encontro viria a ser o primeiro de muitos. O interesse um pelo outro surge aos poucos, único e exclusivamente físico a princípio, aos poucos sexual, e por fim torna-se um elo de lealdade e cumplicidade, de amor verdadeiro e entrega completa.


Mas antes de pensar que a história se resume e acaba ai, ainda há o fato de Lady Chatterley ser casada, de ser dependente financeiramente do marido - mas não completamente -, da existência da esposa do guarda-caça que está ausente, as questões morais, sociais, a escândalo que provoca o envolvimento de uma aristocrata com um plebeu, dentre outras questões que podem vir a dificultar a união dos amantes.

Ao meu ver, D. H. Lawrence conseguiu sintetizar nesta obra várias de suas ideias a respeito de sociedade, moralidade, sexualidade, e isso tudo com uma visão apuradíssima, natural, sincera, e muito, muitíssimo evoluída.

Como quase todas as suas obras, O Amante de Lady Chatterley não é uma obra destinada à mero entretenimento, apesar de o fazer muito bem, pois me foram prazerosas as horas passadas em sua companhia, mas também, trata-se de um romance de tese, que expõe ideias moralmente subversivas aos que o ingleses (e demais culturas ocidentais) estavam pregados habitualmente na época, e por isso causou tanta polêmica. Chocou a sociedade por sua abordagem realista do sexo, visto como um ato natural, entre homem e mulher, e foi proibida pela censura inglesa (a proibição perdurou por 32 anos). A solução foi publicar o livro na Itália.

Sua vida é tão interessante e digna de estudos mais aprofundados quanto sua obra completa. Li este livro com a mente aberta, mas fui tocada mesmo, no coração! Se tornou, de longe, um dos meus livros favoritos, e mal vejo a hoje de poder ler outro título do autor.


Meu exemplar tem a tradução de Fernando B. Ximenes e foi lançado pela coleção Biblioteca Folha - Clássicos da Literatura Universal, 410 páginas, ano de 1998 e impresso pela Ediouro. Encontrei-o num sebo por R$8,00.

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