23 abril 2013

1001 Livros: O Iluminado – Stephen King

“O adormecer da razão gera monstros” - Goya 

De frente ao gerente do resort Overlook, nas montanhas centrais americanas, o ex-professor de inglês Jack Torrance é entrevistado para ocupar a vaga de caseiro para aquela temporada de inverno em que o tradicional hotel permanecia fechado. De maneira investigativa o empregador questiona-lhe a respeito de seu passado alcoólatra e violento, e só quem já passou por uma dessas situações sabe o quanto é constrangedor falar sobre algo que nos forçamos a esquecer, enquanto os outros nos julgam tão-somente por aquele passado. É então a partir deste primeiro contato que Jack passa a odiar o gerente, o hotel e o emprego que busca, seu pressentimento é funesto, mas ele precisa desse emprego, e age com escárnio para consegui-lo, ou será obrigado a ver a esposa Wendy trabalhando fora e sem ninguém para cuidar de seu pequeno filho de 5 anos, Danny.
Entre a narração dos fatos há flashes de pensamentos dos personagens, uma ferramenta que Stephen King utiliza para trazer o leitor à história quando há ameaças de bocejos durante a leitura, o que surte grande efeito. A tensão da leitura parece aumentar mais quando sabemos o que se passa no interior da mente de cada um dos personagens.


Assim que o letrado Jack passa na entrevista, outros acontecimentos são elucidados, por que foi expulso da escola em que dava aulas, como tornou-se alcoólatra, como adquiriu a desconfiança e despertou medo na esposa...? Então a família Torrance sobe as montanhas para passarem o pior inverno de suas vidas, isolados na região mais fria de todo o Colorado. Nada do que King conta na história é para “encher linguiça” apesar de as vezes parecer que sim, mas tudo tem um propósito para estar ali na história, por mais enfadonha que possa parecer a descrição.

Danny, o garotinho de 5 anos, esperto, inteligente e “iluminado”, no último dia de funcionamento do hotel é alertado pelo também iluminado cozinheiro Dick Halloran, sobre os males que aquele hotel poderia causar-lhe. Danny possui o dom de ver espíritos, ouvir vozes, ler pensamentos e até de enxergar o futuro, mas pela pouca idade, tudo o que chega até ele é muita informação distorcida, que ele não compreende, porém teme comentar sobre o que vê por medo de parecer louco, ou doente mental, e limita-se a falar somente sobre seu amigo imaginário Tony.
Personagens bem construídos numa narrativa coerente, o suspense aumenta quando o garotinho aparece em cena, não há exageros, mas o pânico crescendo no personagem ao longo da história é evidente.


A família Torrance a princípio aprecia a estadia no hotel, há esperanças de um futuro melhor vindas de Wendy, Jack se esforça para cumprir seus deveres e manter o hotel em ordem, e passa a dedicar algumas horas por dia para escrever uma peça de teatro, enquanto o pequeno Danny, em fase de alfabetização, passa a conhecer os horrores daquele lugar, seja em visões, em descobertas e experiências nada agradáveis com “antigos” hóspedes, e se depara então com a palavra REDRUM, sem fazer ideia do que se trata, sabe apenas que é uma coisa muito ruim.
O livro então começa a pesar nas mãos, os olhos afoitos correm a procura das descrições mais assustadoras, a apreensão aumenta junto com a ansiedade, o nariz quase tocando nas páginas do livro, e quando me dei conta, cheguei ao final.


É nesse ponto em que O Iluminado ganha seu tom de terror, de perturbação, de incômodo, de arrepios e calafrios, quando os animais podados do jardim ganham vida, quando o elevador passa a mover-se sozinho, vozes surgem pelos corredores, e o menino Danny é perseguido e atemorizado. Jack Torrance passa a ser absorvido pelas ilusões do hotel, a vontade de fugir de Wendy beira a demência sabendo que naquela época do ano todas as vias rodoviárias que levam ao hotel estão bloqueadas com camadas espessas de neve, e o frio é insuportavelmente congelante lá fora. As chances de sobrevivência vão só diminuindo conforme as páginas se aproximam do fim, o terror aumentando, o menino tornando-se suscetível, o pai enlouquecendo e deixando-se dominar pelos delírios da abstinência alcoólica e a mãe protetora sem encontrar soluções diante de todo aquele pavor.


Minha intenção quando iniciei a leitura foi a de fazer uma comparação livro x filme, mas desisti da ideia porque eu cometeria muitos spoilers tanto do livro quanto do filme para fazê-lo. A verdade é que a versão de Stanley Kubrick (1980) é diferente, muitas cenas, principalmente as mais clássicas, são adaptações modificadas do livro, como exemplo as irmãs gêmeas no corredor; quando Wendy encontra os escritos doentios do marido ao lado da máquina de escrever; Danny andando de triciclo pelos corredores de carpete; a cena final de Jack na neve, etc... essas cenas não são do livro! Kubrick as imaginou, baseadas nos fatos narrados, e fez uma versão mais assustadora da história, mais sanguinolenta, que eu particularmente gostei, ficou diferente.

O problema de ver o filme antes de ler o livro é o de ter a impressão de que está faltando alguma coisa para “ver” na história, principalmente quando o filme é tão bom quanto o livro (na minha opinião). Eu ainda não vi a versão de 1997 que dizem também ser boa e a preferida de Stephen King, mas pretendo em breve. Ler este livro só aumentou minha vontade de ler mais obras do autor.


Leitores de Stephen King bem sabem o quanto é sorte encontrar seus títulos a precinhos módicos, mesmo em sebos, independente do ano da edição. Eis que no meu sebo preferido encontrei O Iluminado por R$8,00 numa edição da Círculo do Livro, capa dura, 447 páginas, lançado nos anos 80. O coração bateu forte.