13 abril 2013

A riqueza do mundo

Texto postado originalmente no site interrogAção. 


Uma voz imponente parece segurar com as duas mãos a figura de traços germânicos e tom brasileiro, de olhar firme e colar de contas grossas no pescoço. Era a primeira vez que eu parava para vê-la, ali, do outro lado da tela do computador, falando sobre os livros recém-publicados, sobre os que já passaram e sobre a vida que dá ares de quem está apenas começando. Esse foi o contato inicial que tive com a escritora e tradutora Lya Luft. Aos 74 anos, a santacruzense descendente de alemães arrebata dezenas com a venda de livros, nas sessões de autógrafos e palestras em que é conferencista.

Conheci o trabalho de Lya em 2004 e, ao contrário do que se pode pensar, não foi por meio do seu sucesso editorial Perdas & Ganhos (2003), lançando no ano anterior. À época, por questões de trabalho, eu acompanhava o conteúdo da revista Veja e, vez ou outra, sempre batia os olhos na coluna Ponto de vista, assinada por Lya. Coincidência ou não, os textos que li na coluna abordavam temas cotidianos e sempre faziam referência aos relacionamentos familiares, às dificuldades e desafios, aos sabores e alegrias. 
Opiniões que soavam como fortes conselhos, na verdade.

Então, oito anos depois dos primeiros contatos, recebi A riqueza do mundo (editora Record, 2011, pág. 272), uma coletânea de ensaios sobre a existência humana com tudo o que ela tem de melhor e pior: amor, tristeza, revolta, indignação, esperança, contestação e percepção. Acima de tudo, a obra forma um conjunto de reflexões da autora sobre os mais variados temas, com aquele aroma de “eu escrevo por um mundo melhor”. Não duvido, certamente. Os ensaios de Lya são decididos, ela não tem medo de se posicionar, de apontar, de emitir juízos de valor. Em uma sociedade em que a mais recente bandeira é fazer apologia ao “ficar em cima do muro”, Lya Luft assume e assina suas ideias, mesmo que isso traga à tona opiniões que flertam com um conservadorismo embrulhado em papel celofane.



Dividido em três partes (Da Sociedade, Dos Afetos e Das Coisas Várias), o livro de Lya vai mapeando pontos que se misturam, abordando desde o sentimento de insatisfação com o sistema vigente no mundo, rodeado de corrupções, barbárie, violência e morte, até situações e vivências que circundam as relações familiares, chegando à gangorra do encanto versus desencanto com as infinitas possibilidades tecnológicas e sociais contemporâneas. Na maioria das vezes, fica evidente que estou escutando alguém com sabedoria suficiente para falar sobre um mundo perdido, onde poucos se encontram. Em toda a obra, senti um misto de desabafos e sermões – por mais que, no próprio texto, a autora negue o termo ‘conselhos’, atribuído por quem assim o identifica na sua obra.

Apesar de temas interessantes, me senti pouco à vontade com a quantidade de exemplos para uma mesma ideia, agrupando uma lista extensa de elementos separados por vírgulas em uma única frase. Essa tática se repete em todos os três capítulos, retomando também, de forma cansativa, pensamentos que já foram ditos. Esse tipo de opção lança uma âncora às palavras, deixando o texto exaustivo.

Vale mencionar os três poemas que abrem cada capítulo, com destaque para o bonito “Deuses e Homens”, com belas imagens formadas por palavras e a conjunção da mitologia que nos acompanha desde a nossa ancestralidade, fazendo jus à narrativa de origem, proposta por mitólogos como Mircea Eliade e Joseph Campbell.

Lya Luft

Lya Luft tem muito a dizer. Ela não está por aí como mera autora de best seller ou mais um trabalho para o segmento da autoajuda. Não, não é isso. Nesse primeiro contato, notei uma autora com pensamentos, com luz própria, com opiniões — mesmo que algumas delas não façam parte do meu rol de ideias, como a predileção por Monteiro Lobato. Mais um detalhe que faz parte das minhas observações é o ato de escrever sobre as mudanças do mundo de dentro do gabinete. Mas não a condeno. Boa parte dos intelectuais brasileiros, quiçá do mundo, está sentada confortavelmente em suas escrivaninhas de mogno, refletindo sobre as injustiças e soltando os pensamentos no ar para que, talvez, outros os executem. Pode ser que esse não seja o caso, não sei. Mas vale à pena rever o conceito de que apenas com ideias se move o mundo.