25 abril 2013

Aprendendo a Viver – Sêneca

Composto de epístolas escritas em seus últimos anos de vida, entre 63 d.C. e 65 d.C. por Lúcio Anneo Sêneca, filósofo do império romano, advogado e conselheiro que teve grande notoriedade quando tornou-se pretor do imperador Nero; Aprendendo a Viver (Epistulae morales ad Lucilium) trata-se de um manual de conduta moral em que o autor defende suas ideias em tom irônico, mas maduro, um idealista que busca a tranquilidade do viver bem e que usufrui de todo o seu conhecimento adquirido em anos de vida social e política para aconselhar. Como pensador, Sêneca é um dos meus escritores preferidos.


Ele é prático, sucinto, direto, e nos tempos modernos suas cartas soariam como posts de blog, ou indiretas de facebook, aliás, vejo Sêneca como um daqueles blogueiros que usam da sinceridade e do seu conhecimento para tornar-se popular. Tanto é que, o destinatário de tais epístolas é seu suposto amigo Lucílio, porém, não há provas existentes de que foram enviadas de fato ao amigo, imagina-se, como diz no prefácio a tradutora Lúcia Sá Rebello que traduziu a obra direto do latim, que tenham sido escritas intencionalmente para virem a público e não como cartas pessoais, mas para que fossem difundidas, compartilhadas. Textos curtos, ao todo 29, separados por temas como Tempo, Velhice, Futilidades, Progresso, Brevidade da vida, Doenças e morte, Suicídio, Ler e escrever, Amigos, Saúde, Fortunas, Natureza, e diversos outros temas da vida prática onde o sábio aplica soluções e opiniões simples, de fácil compreensão, semelhantes as "dicas de como viver bem" dessas revistas informativas, porém, com um tom mais filosófico, na visão de um senhor de idade que viveu há 2 mil anos atrás. Todas estas cartas estão reunidas nessa edição da L&PM Pocket em 137 páginas.


Muito do que Sêneca aconselha é preferível exercer do que seguir o contrário, pelas constatações um tanto quanto óbvias que não só dele, mas que de nós mesmos surgem diante de um grande problema, uma grande dificuldade. Reconhecê-las e colocá-las em prática é a questão, o quanto precisamos moldar nosso ego para atingirmos a plena felicidade de viver?

Em resumo, o que Sêneca quer dizer é que a vida é muito simples de viver, é muito pequena em comparação ao universo, e muito curta perante a eternidade, que nunca devemos acreditar que sabemos viver só porque existimos, que sempre devemos buscar conhecer mais, compreender melhor e que a vida só é considerada boa quando a cada dia vivemo-la de forma prazerosa, viver não é durar neste planeta, não é prolongar nossa existência, mas saber aproveitá-la, por mais curta e penosa que seja. É nosso destino, é o que nos cabe, é o que tem pra hoje.


Já falei de outro livro de Sêneca aqui, tão bom quanto este, e que recomendo fortemente a todo e qualquer ser humano: Sobre a brevidade da vida.

Trechos selecionados (dentre muitos outros ótimos trechos):
"Podes me indicar alguém que dê valor ao que seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte." Da economia do tempo – Pg. 15
"Ninguém se preocupa em viver bem, mas em viver muito; porém, todos podem agir de modo a viver bem mesmo que não saiba por quanto tempo." Da futilidade das meias-medidas – Pg. 28
"Alguns se vangloriam dos seus vícios; e tu pensas que busca remédio quem enumera os seus vícios como se fossem virtudes? Por isso, tanto quanto possas, repreende-te a ti mesmo, faze um exame de consciência; assume primeiro o papel do acusador, depois o de juiz e, por último, o de intercessor. Em algumas ocasiões, sê duro contigo mesmo." Da viagem – Pg. 31
"Quando me dedico aos amigos, também não me distraio de mim mesmo, nem me entretenho com aqueles que alguma circunstância ou causa oficial nascida dos assuntos públicos me reuniu, mas me detenho com os melhores. A eles, em qualquer lugar, em qualquer século que tenham existido, dirijo o meu espírito." Das boas companhias – Pg.54
"Não acredites que um homem possa ser feliz se a sua estabilidade depende de sua fortuna. Apoia-se em bases frágeis quem faz sua felicidade depender de elementos externos. Toda alegria que assim surge logo se vai; no entanto, aquela que vem do interior é firme e sólida. Ela cresce e nos acompanha até o final." Da fugacidade da fortuna – Pg. 99