As Traduções de "O Corvo"

Se O Corvo não for o poema mais famoso da história dos poemas, deve estar, no mínimo, na lista dos top 10. Não há um professor de literatura inglesa que não mencione O Corvo em pelo menos uma de suas aulas, e não há fã de literatura inglesa que não conheça esse trabalho de Poe




Por que será que O Corvo é tão conhecido? Bem, poderíamos listar vários motivos: pela métrica, rima, sonoridade, enfim, por sua total e completa perfeição. Muitos tentam descobrir quanto tempo Poe levou para escrever essa obra-prima, mas até hoje não se sabe se foram dias ou anos (eu voto em anos). O poema foi tão bem escrito que traduzi-lo é uma tarefa para mestres.

Escolhi três traduções em português para mostrar nesse post: a de Machado de Assis, a de Fernando Pessoa e a de Milton Amado. Como o poema é bem longo, vou colocar aqui apenas a primeira estrofe de cada tradução.




Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
`'Tis some visitor,' I muttered, `tapping at my chamber door -
Only this, and nothing more.' - Edgar Allan Poe
Em certo dia, à hora, Da meia-noite que apavora, Eu, caindo de sono e exausto de fadiga, Ao pé de muita lauda antiga, De uma velha doutrina, agora morta, Ia pensando, quando ouvi à porta Do meu quarto um soar devagarinho, E disse estas palavras tais: "É alguém que me bate à porta de mansinho; Há de ser isso e nada mais."  - Tradução de Machado de Assis
E se eu disser que não gosto da tradução acima?  
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais, E já quase adormecia, ouvi o que parecia O som de alguém que batia levemente a meus umbrais. "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais. É só isto, e nada mais." - Fernando Pessoa
Por fim, minha tradução favorita: 
Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria, A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais, E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído, Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar. "É alguém?" fiquei a murmurar, que bate à porta, devagar; Sim, é só isso e nada mais." - Milton Amado
Milton Amado era um jornalista de Minas Gerais, porém, acho que ele se saiu melhor nessa tradução do que os dois grandes gênios da literatura brasileira e portuguesa. E vocês, o que acham? Qual das traduções vocês preferem?

Por: Gaby


Comentários

  1. Gabyzinha, eu adorava a tradução do Fernando Pessoa, mas essa do Milton também é sensacional! Tem link pra ela inteira?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu também adorava a do Fernando Pessoa até encontrar essa linda do Milton Amado! O llink dela é esse: http://www.casadobruxo.com.br/poesia/e/edgar06.htm :)

      Excluir
  2. eu nem sei qual minha preferida, mas fico entre a de Pessoa e a de Milton...
    e essa imagem de cima é a que escolhi pra tatuar, de tanto que amo Poe <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sua tatuagem deve ser a coisa mais linda <3! Manda uma foto pra nós na nossa página do FB =) (se quiser e puder, claro). E obrigada por comentar \o/

      Excluir
  3. Gaby, você teve aula com o Valdemar? rs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tive aula com o Demichelli, mas pelo visto eles são parecidos HAHAHA!

      Excluir
  4. Poxa... difícil escolha!
    Mas sou suspeita para falar de Pessoa. Adoro!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É difícil mesmo! A tradução do Pessoa é a minha segunda favorita rs! Ele era um poeta fenomenal.

      Excluir
  5. A tradução de Machado de Assis é linda! :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Confesso que Machado e eu temos uma longa história de dissabores, então sou suspeita para falar dele HAHAHA! Porém, o admiro muito por ter posto a cara a tapa, só escritores incríveis mesmo para ousar traduzir Poe rs.

      Excluir
  6. Apesar de ser fã incondicional do Machado de Assis, tenho que abrir o coração e reconhecer, da maneira mais franca e cruel (rs), que a tradução dele para 'The Raven' é a que menos gosto.

    Não conhecia a do Milton Amado, mas me identifiquei e gostei da fidelidade poética. Vou procurar. (: Minha preferida, por enquanto (rs), continua sendo a do 'Nando' Pessoa. <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, um professo da faculdade fez uma aula sobre Poe e mostrou essa tradução. Eu fiquei muito chocada quando a li e percebi que gostava mais da tradução do Milton do que Fernando Pessoa e Machado de Assis.

      Excluir
  7. Eu acho que a que li primeiro foi a do Pessoa, por isso tenho um apego maior a ela. Mas essa do Milton Amado também é fabulosa.
    Sou doida pelo livro com todas as traduções ^^

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu bem entendo! Adoro Fernando Pessoa, mas o Milton arrasou rs! Esse livro deve ser mágico *-*!

      Excluir
  8. Traduzir poesia deve ser um dos atos de maior coragem e dedicação intelectual. Os detalhes superam a quantidade da prosa. Mesmo sendo fã do Machado, considero as outras duas traduções melhores, mas tendo mais a do Pessoa. Aliás, pelo gosto incondicional da chatice, "destes dois gênios da língua portuguesa" seria mais adequado, afinal de contas, o bigodinho do Pessoa é tipicamente português. xD

    ResponderExcluir
  9. Machado de Assis, pelo simples fato de eu ter conhecido este poema lendo a tradução dele, em meados dos anos 90, em um zine chamado De Profundis Clamavi, que tratava de cinema, literatura e black metal e eu o recebia via correio em xerox meio ofício... Bons tempos em que o carteiro trazia a informação, não um cabo de fibra óptica. :)

    ResponderExcluir
  10. Então agora o Fernando Pessoa é gênio da literatura "brasileira"? Palmas!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Anônimo aí em cima não deve ter lido a palavra 'luso' no post... u.u

      Excluir
  11. O Corvo foi o que de mais belo li. E a tradução de Milton Amado (que está no livro "Edgar Allan Poe: Ficção Completa, Poesia & Ensaios") é, disparada, a que eu mais gosto.

    Perdoe a intromissão.
    Marcelo

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Bem vindo(a) ao Dose Literária.
Agradecemos seu comentário e tentaremos responde-lo assim que possível ;)