06 abril 2013

Lovecraft, horror e nostalgia

"In space the stars are no nearer 
They just glitter like a morgue
And I dreamed
I was a spaceman
Burned like a moth in a flame
And our world was so fucking gone". - Trecho de Great Big White World (Marilyn Manson)


"O horror em Red Hook" (original "The Horror at Red Hook", editora L&PM, tradução de Jorge Ritter, 2012, pág.64) foi o meu primeiro contato com o norte-americano H.P. Lovecraft, considerado o precursor da moderna literatura de horror. A Anna já mencionou o livro em uma de suas resenhas e então, pouco tempo depois, corri atrás do meu exemplar. 



Três contos se dividem em 64 páginas e têm como ponto comum a sensação eminente de pavor, sobrenatural, ligações ocultas e morte. Apesar de ser meu primeiro contato com Lovecraft, senti de imediato aquela névoa densa e obscura - mas nem por isso ruim - que costuma envolver histórias do gênero. Na primeira delas, 'O horror em Red Hook', o policial Thomas Malone tem que lidar com visões oriundas de uma dimensão diferente, onde seres subterrâneos e maléficos se deleitam em controlar e "tocar o terror" na comunidade. Particularmente, eu não gostei do caráter xenófobo e racista de algumas passagens, mencionando o perigo de sujeitos de "compleição escura" e fazendo associações de imigrantes árabes e asiáticos à crenças escusas. No que diz respeito à magia negra e outras manifestações do gênero, Lovecraft faz menção à línguas mortas, como o latim, e práticas seculares de sacrifício e sangue.

'Ele', o segundo conto, exala a essência saudosista de uma Nova York que não existe mais. Na pele de um poeta, o narrador despreza tudo o que a cidade se tornou e decide passear apenas no turno da noite, onde o passado pode ser sentido. Tal atividade nostálgica leva o poeta a encontrar um sujeito esquisito - exatamente como ele - e ambos partem para um passeio noturno, que termina em revelações de passagem do tempo e seres de outro planeta.

Minutos de felicidade e paz interior: Lovecraft rindo. 

O terceiro conto, 'A Tumba', é o mais interessante de todos os três, e conta a história de um rapaz apaixonado pela vida e cultura antiga (de novo a nostalgia, onde só o que passou é realmente importante), e que vivencia uma experiência fantasmagórica ao lado dos restos mortais da família Hyde, que morreu queimada em um incêndio provocado por raio, fruto de uma intensa tempestade. Gostei do encontro de "vida e morte" ressaltado no conto e da ideia de conexão entre os dois mundos.

De óculos, um pouco mais sério. A tensão começa.
Terminei a leitura com saldo balanceado e decidi procurar mais outros contos do Lovecraft que morreu, afinal, sem ter nenhum de seus livros publicados. Pelo que dizem os dados biográficos, Howard Phillips Lovecraft era um sujeito fisicamente doente, tendo que interromper seus estudos diversas vezes por conta de sua saúde frágil. Talvez a reclusão e inadaptação ao mundo social, bem como a falta de compreensão de suas ideias e visões, tenham feito o autor expressar - de forma muitas vezes direta - o seguinte pensamento:

"Trata-se de um fato lamentável que a maior parte da humanidade é demasiadamente limitada na sua visão mental para ponderar com paciência e inteligência aqueles fenômenos isolados vistos e sentidos apenas por uns poucos psicologicamente sensíveis e que se encontram fora da sua experiência comum". (Pág. 50)


Plus:

Ouça a leitura de "The Colour Out Of Space", considerado um dos trabalhos mais significativos de H.P Lovecraft (áudio em inglês).

A Anna falou do Lovecraft aqui também.

Créditos: Spectrum

6 comentários:

  1. Uma boa descrição do seu 1º encontro com Lovecraft; gostei da sua apresentação do autor.

    Claire.

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  2. Tenho meu exemplar aqui e já vou tentar adiantar a leitura!
    thanks Mara! :*

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  3. perfeito. *-------*
    já tava a fim de ler esse livro, e depois de seu post, então...

    :D

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  4. Do Lovecraft só li contos...está mais que na hora de ler esse aí!

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  5. Maravilha que vocês se empolgaram! :) Acho que é bom começar tendo uma boa impressão, não é?

    Beijos de luz,

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  6. Começo a ler um texto teu, Marinha, e só paro no final (e ainda fico com desejo de mais!), de tão gostoso que é te ler.
    Estou com a má sorte de não encontrar esse livrinho nas livrarias, encontro praticamente todos os da coleção 64 páginas, menos este bendito Lovecraft, e é o que mais quero. :D
    Gosto de Lovecraft justamente por ele mexer com o sobrenatural de forma natural, como se o próprio tivesse vivenciado suas histórias, ou como se fosse possível, de repente, acontecer com nós mesmos alguns de seus fatos relatados. Sem contar a atmosfera sombria, elementos do ocultismo, admiro mesmo sua escrita (mais até que a do mestre Poe), já li dois livros dele e tô querendo partir para este terceiro. :)
    Beijão, amiga!

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