02 abril 2013

Uma introdução a O Senhor dos Anéis

Texto de autoria do escritor e colaborador Daniel Abreu de Queiroz.


Eu não me lembro da roupa que ela usava. Eu guardei muita coisa pra mim, mas isso se perdeu.

Ela surgiu na porta e estava linda. Eu lembro disso. Nos abraçamos e caminhamos no calçadão da Ilha. Ficamos no banco da pracinha. Andamos de carro como se não fosse a última vez. Na porta da casa dela, na despedida, nos abraçamos com força, algo que tentava dizer todas as coisas que não saberíamos falar. Coisas que vinham crescendo em mim e que certamente cresciam nela desde a consciência do fim. Coisas que tentáramos dizer de tantas formas e que só conseguimos comunicar finalmente com aquele abraço; silenciosamente procurando um entendimento mais profundo que palavras.

Eu voltei pra casa sozinho no carro. Fumando um cigarro quase amargo. Ouvindo o rádio. Um sentimento estranho e inevitável de liberdade. Sabendo que em algumas horas estaria dentro do ônibus, atirando minha vida num abismo que esperei tanto tempo pra conhecer. Pensando em Alice. Feliz por ter estado com ela. Por ter sido seu namorado e conhecido tantos momentos felizes com ela. E sentindo uma tristeza tão fina e tão funda e tão doída que eu ainda sinto agora e já senti tanto e que qualquer coisa que eu diga ou faça nunca vai conseguir explicar.

spooky buk, lek romântico

Ao desfazer a mala, do outro lado do Oceano Atlântico, retiro contrariado um volume enorme – edição comemorativa – de O Senhor dos Anéis. Puta parada inconveniente. Não queria aquele livro dentro da mala que eu precisaria carregar pra cima e pra baixo. Uma mala com espaço já insuficiente pra carregar as coisas que escolheria voluntariamente levar. Um volume impertinente que eu precisaria arrastar comigo de um lado pro outro, durante sei lá quanto tempo e quem sabe por quantos lugares, pra voltar com o dito pro Brasil e devolver pro amigo que sequer tinha me dado o livro de presente, mas estava apenas me EMPRESTANDO porque eu TINHA QUE LER na Europa!

Um GRANDE amigo (destaco, porque nem todo mundo tem amigos de verdade, mas hoje dizem “eu te amo” até pras sextas-feiras). Aquele amigo nerd que todo mundo tem – e que no meu caso é um grande amigo. O jeito dele de se despedir foi empurrando aquele livro em mim – como se eu fosse o Frodo e precisasse receber o fardo do anel – impresso em capa dura, com mais de mil páginas.

Eu nem queria ler aquilo. Já tinha visto os filmes. Naquele ano-de-meu-Deus de 2005, antes que O Anel fosse imposto à minha cautela, minhas leituras incluíam Proust e Céline. McLuhan. O Discurso do Método, de Descartes. A Filosofia Perene de Huxley e três livros de Platão. Umberto Eco. Hemingway. Camus. Sun Tzu, Chico Buarque e Ana Cristina Cesar. Naquele ano eu tinha lido Princípios do Comportamento na Vida Diária, de J. D. Baldwin e J. L. Baldwin – um livro sobre behaviorismo, que mudou minha vida. Estava num ano produtivo e não queria perder mil páginas do meu tempo lendo uma historinha de orques e dragões que, porra, eu já conhecia pelos filmes! Levei o livro decidido a não lê-lo – o que é muito pior!

Então já provisoriamente alojado na Holanda, eu li uma gramática holandesa, em inglês – pra pelo menos ter alguma familiaridade com a língua. Eu lera poucos livros em inglês e foi bastante trabalhoso. Depois da obrigação, voltei às leituras por prazer. Encontrei uma boa coleção em inglês, na casa da família de amigos que me hospedava, e comecei por Lord of the Flies – no qual já estava de olho há tempos...

Lord of the Rings ou Lord of the Flies?!?

Sei que já escrevi uma página de texto e ainda não fiz uma crítica do livro. Não estou escrevendo críticas de livros, nem posts de blogues – ou os estou escrevendo apenas acidentalmente. Um texto, pra mim, não é a teta de uma vaca puta, na qual você vai chupar apressadamente o seu suquinho literário. Um texto é uma comunhão. E se você não quer comungar, vá pra puta que te pariu. Vá pro raio que o parta. Vá caminhando, simplesmente, pra Mordor. Vá à merda. Vá com o diabo que te carregue. Vá pra puta que te pariu, repito, mas não vá me encher o saco exigindo – de quem tenta ser chef – um McDonnald’s por escrito.


Meu compromisso com as ferramentas do meu sonho é imenso. Minhas ferramentas são honestidade, espontaneidade, subversão e bom-humor. Meu compromisso com seus caprichos é zero. Esse pensamento está implícito na obra de qualquer artista original. Se não virou clichê até agora é só porque até hoje ninguém precisou dizer. As pessoas encaravam um quadro do Picasso sem entender porra nenhuma, mas faziam cara de entendidos e enfiavam o rabinho entre as pernas. Hoje todo mundo é curador, publicitário, comunicólogo, historiador da arte, psicólogo, filósofo e os caralho. Assistiram tantas vezes a televisão falando que VOCÊ É ESPECIAL e VOCÊ IMPORTA e SUA OPINIÃO É MUITO IMPORTANTE PARA NÓS que acreditaram mesmo. Não perceberam que era só um logro pra vender besteira. Levaram a sério. Então é preciso dizer: meu prazer e sentimento ascético ao escrever é muito importante para mim. Sua opinião pode ser construtiva, etc. e tal... Mas não é motivação.

Voltando ao Anel, depois de Lord of the Flies eu estava cansado de ler em inglês. Tracei todos os livros em português que consegui encontrar por perto. Machado de Assis, Suassuna e Jorge Amado. Casa-Grande & Senzala. Um livro sobre auto-massagem. Quando não achava nada, voltava pra coleção em inglês. Li sete livros dessa coleção. Depois mais Jorge Amado e Machado de Assis, porque criei gosto. Ficava gradualmente mais difícil conseguir livros em português... Finalmente, por simples desespero (dois livros depois de ler BRUNA SURFISTINHA), eu li O Senhor dos Anéis.

Recomendo.

To be continued...

Hhsaehueahusea Sério que deu muita tentação de terminar o texto no último parágrafo. Seria uma boa piada – pro meu senso de humor sombrio e pervertido – mas tem algo que eu gostaria muito de compartilhar. Sentei pensando em escrever sobre isso e, apesar de dar ao texto a liberdade de seguir por onde lhe parecer melhor, não quero parar de escrever até que tenha dito o que vim dizer. Pretendo fazê-lo na segunda parte deste post: Zen Budismo e O Senhor dos Anéis.

*O texto publicado não expressa necessariamente a opinião do Dose Literária e é de total responsabilidade do autor.