03 abril 2013

Zen Budismo e O Senhor dos Anéis

Texto de autoria do escritor e colaborador Daniel Abreu de Queiroz.


Conheço vários ateus teístas. Eles se apegam a um DISCURSO ateu, mas sua visão de mundo é baseada (sem que eles se dêem por isso) num modelo teísta de existência. Eles vivem como se o universo tivesse sido “criado”, como se tivesse sido “criado” por uma inteligência e, ainda, como se essa inteligência fosse similar à humana. Eles vivem como se fossem o centro de um mundo construído pra eles, por uma inteligência que se parece com a deles. E dessa confusão eles sequer tiram proveito ascético, uma vez que não vivem assim por fé, mas por desatenção e egoísmo, eu acho. Pensam “Deus não existe!” e pronto-acabou. Param de pensar.

Não consideram o universo como algo além de um imenso enigma-caleidoscópio para maravilhar nossos prazeres ociosos e oferecer ensejo às nossas punhetinhas semióticas. Inventam, dogmáticos, o certo e o errado. O bom e o ruim; e o melhor e o pior e o mais-ou-menos e o bem melhor que o outro e quase lá e um-pouquinho-assim-inclinado-ali-pra-esquerda-aí-mais-um-pouquinho-vai-aí-tá-PERFEITO! E aplicam |justo| e |injusto| ao infinito aleatório do mundo, como se houvesse um velhote de barba branca ali por trás, pra ser condenado ou agradecido. Pensam no vazio como algo pejorativo, por tentarem observá-lo de longe sem coragem de penetrá-lo.

Eu não sou teísta. Antes de saber que eu era zen budista, eu já não era teísta.

Antes de descobrir que era zen budista, eu me sentia isolado. E descobrir, no virar das páginas, que minha visão de mundo tinha uma escola para si – e que tinha sido estudada, praticada, aprimorada e teorizada por gerações e gerações de pessoas muito mais talentosas do que eu – foi e tem sido como encontrar um grande amor.

Zen budismo não é uma religião, como a maioria das pessoas as entendem. É uma prática. É uma prática baseada em certa visão de mundo, com o intuito de atingir maestria em determinada habilidade que o ser humano pode desenvolver. É algo palpável, que você pode experimentar. Não é uma questão de fé – embora a fé também seja necessária no desenvolvimento dessa habilidade. O zen budismo te pede, às vezes, que dê o “Salto de Fé” do Indiana Jones. Há um buraco vazio e você deve dar um passo à frente. Em outras palavras, eles dizem que você deve entrar na caverna do dragão; na boca do tigre. É preciso ter fé pra dar aquele passo – mas depois de pular, você pode sentir no vazio o chão prometido. Não é como se ficássemos pra sempre acreditando que há um caminho no vazio, mas sem nenhum lugar pra pisar e confirmar. Zen budismo é andar no vazio – não é ACREDITAR que se pode fazê-lo.

Zen Budismo???

Uma ilustração usada em zen budismo – importante para o que eu gostaria de compartilhar sobre minha visão de mundo e O Senhor dos Anéis – é a Teia de Indra.

Pessoas com alguma familiaridade com o zen saberiam dizer que ele trata da supressão do ego. Sem detalhes, basta dizer que isso que chamamos de “eu” é uma ilusão. Afunilando novamente para uma estreita faixa da discussão geral – focando apenas no que tem relação com o post – você não existe isoladamente do mundo e, principalmente, não existe como algo diferente dele. É um fato. Mas é um fato complicado de perceber, quando você foi acostumado durante a vida inteira a pensar o mundo sobre um modelo diferente. A Teia de Indra é uma metáfora que representa bem essa inexistência de um isolamento egoísta.

Pense em uma teia de aranha, ao ar livre, pela manhã. O orvalho caiu durante a noite e inúmeras gotinhas de água formam pelotinhas por toda a teia. Já viu uma teia de aranha assim, molhada? Consegue imaginá-la nitidamente, pelo menos?

Agora – cada gotinha contém em si o reflexo as outras gotas, como num espelho infinito. Imagine isso nitidamente e você vai entender porque a metáfora também é chamada de Joias, ou Pérolas, de Indra.

Loucura, loucura...

Ainda que cada gotinha seja única, contém dentro de si todas as outras gotinhas. Se algo mudar em uma das gotas – se ela diminuir de tamanho, ou englobar alguma impureza – irá transformar automaticamente todas as outras gotas. Essa é uma metáfora para a inter-relatividade do universo – expressa de forma famosa por William Blake:


“Ver o Universo no grão de areia e o Paraíso em uma flor; segurar o Infinito na palma de sua mão e compreender a Eternidade em uma hora.”

As pessoas ouvem histórias identificando-se com algum personagem, ou antagonizando com outros. Não estão todos em nós? Eu penso em Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, como uma metáfora para os processos internos em mim e nos outros. Minha Chapeuzinho (vadia sonsa) já aprendeu a dar ouvido aos conselhos da mãe e não tomar o caminho da floresta carregando a porra de uma cesta de comida. Tento ter sempre meu caçador preparado e equipado. Às vezes, preciso tomar conselhos ou pedir ajuda ao Lobo Mau – que tenho dentro de mim e que em certas situações é muito útil. Também fico esperto pra reconhecer os lobos maus das outras pessoas quando querem me comer – ocasião em que, com grande frequência, chegam vestidos de vovozinha.

Zen budismo???

O Senhor dos Anéis é um bom livro. Antes de ler, achei que seria apenas historinha de aventura sobre elfos e anões, mas descobri que somado a isso ele é um bom livro; além de um bom roteiro. Tolkien foi um bom escritor. É legal ver os filmes – pra assistir à materialização competente e criativa de tantas fantasias – e também vale a pena ler o livro, que é boa literatura naquele ponto literário em que o meio é a mensagem e o cinema não poderia entrar.

Por que a maioria das pessoas, desprezando seus Gandalfes, insistem em tomar conselho de reis decadentes, gananciosos e corrompidos? Tem um personagem que nem rei é – o cara é tipo um caseiro, tomando conta enquanto o rei não volta. Ele não quer deixar o rei voltar e diz que rei é ele. É patético. Diz que só quer guardar o anel ali, pra usar em último caso e talz... Sabendo o tempo todo que só traz ruína. Ambição fanática e ignorante. Quem daria ouvido a um idiota desses? Como é possível que as pessoas se permitam deixar um idiota dentro de seu mundo interno, sem direito divino de governo, decidir as coisas mais banais?

"Mimimimimi..."

E em quantas das infinitas gotinhas de orvalho sobre a teia de aranha Frodo conseguiu chegar até Mordor? Quem consegue proteger tanto e esforçar tanto sua própria pureza?

Essa é a parte mais bonita do universo. Vai chupar coquinho, ateu-de-boteco, pessimista! O que importa se há poucos santos e heróis? Eles existem, não existem? Você pode ser um deles, não pode? Há potencial para santo, herói, ou buda em cada um de nós. O que importa se seus méritos não serão reconhecidos, e se a maioria não vai te seguir com cartazes e canções? O que importa, ainda, se eles podem até te queimar, crucificar, ou envenenar – escolhendo, como Saruman, abandonar a razão pela loucura?


Se você faz – se dentro de você a ganância é suprimida, o sábio é desobstruído e a pureza derruba o anel na lava – então você transformou o mundo inteiro com isso. Existiu, e basta. Um anel para governar todos os anéis!

Antes: Uma introdução a O Senhor dos Anéis

*O texto publicado não expressa necessariamente a opinião do Dose Literária e é de total responsabilidade do autor.