09 maio 2013

Demian - Hermann Hesse

Considerado por muitos leitores o livro de suas vidas, por ser tão bem escrito e significativo, e pelos críticos internacionais como uma das obras mais importantes de toda a bibliografia do excepcional escritor Hermann Hesse, a obra é um conjunto de ideias, pensamentos e sentimentos individuais em tom profundamente místico e de questionamentos íntimos, em que os que lêem se identificam de imediato, principalmente aqueles que se encontram entre suas próprias dúvidas e afirmações, que sempre estão em busca de algo que determine sua personalidade própria e sua importância existencial; que ensimesmados refletem sobre seu eu, com o concorde propósito de conhecer-se, descobrir-se, evoluir e diferenciar-se do que comumente chamamos de massa.


Em Demian, o autor narra com grande sentimento humanitário e passagens profundamente reflexivas os questionamentos internos do protagonista Emil Sinclair, que a partir da pós infância adentra num mundo dualista determinado pelo próprio como “mundo luminoso” (ideal) e “mundo sombrio” (real), dividido entre a pureza do lar cristão ortodoxo e amor parental, e as experiências com o exterior, com um misticismo filosófico que o encaminhava em direção ao estado de autocompreensão, amadurecimento e descobertas, sucumbindo à influência de Max Demian, a misteriosa figura que passa a instigar sua curiosidade, criando vínculos de força mística. Até sua fase adulta, Demian ressurge de diversas formas sob vários aspectos, e ao final, Sinclair acredita atingir o clímax desse envolvimento, e dos ensinamentos que adquiriu ao longo dos anos, mas seu fim é um tanto quanto trágico e de pesada conclusão perante a humanidade.

O enredo em si não vem a ser o principal na obra, é simplório assim como nossas vidas, nenhum fato extraordinário, mas tem um quê de sombrio, espectral, quando na busca por compreender o possessivo Demian, Sinclair descobre que possui um poder, uma marca, e depara-se com um nome, uma entidade de poder e grande influência sobre sua vida.

O alemão Hermann Hesse (1877-1962)

É uma leitura particular, um encontro consigo, o invadir-se e concluir que pouco sabemos a nosso respeito, que estamos sempre tentando crer em algo, em deuses, entidades, em nós mesmos e que as ideias fixas e sonhos se transformam, modificam-se, para dar lugar a outros e a busca é contínua.

Hesse estudou Freud, era adepto de suas ideias psicanalíticas e também muito influenciado pela filosofia de Nietzsche, é evidente seu elo com o autoconhecimento e a filosofia. Eu ainda não tive a oportunidade, mas segundo indicações, após Demian deve-se ler O Lobo da Estepe do mesmo autor como se uma continuação conclusiva.
Hesse ganhou o Nobel de Literatura de 1946 por esta obra.

Nesse momento de solidão optativa e profundos questionamentos, digo que Demian é um dos outros tantos livros que pousou em minhas mãos no momento mais cabível.

Trechos selecionados:

(...)Foi a primeira falha que percebi na perfeição de meu pai, a primeira rachadura nos fundamentos sobre os quais descansara a minha infância e que o homem tem que destruir para poder chegar a si mesmo. Pág. 35

Entre nós não houve nenhuma alteração, nenhuma cena; não houve ruptura nem sequer um ajuste de contas. Houve apenas uma palavra minha, inofensiva em si, mas que marcou o momento em que a ilusão se rompeu entre nós em irisados pedaços. Pág. 145

- Sim, temos de encontrar nosso sonho, e então o caminho se torna fácil. Mas não há nenhum sonho perdurável. Uns substituem os outros e não devemos esforçar-nos por nos prender a nenhum. Pág. 163

Ficha técnica:
Título original: Demian
Autor: Hermann Hesse
Tradução: Ivo Barroso
Editora: Record
Gênero: Romance iniciático
Páginas: 187
Ano: 1984


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