Demian - Hermann Hesse

Considerado por muitos leitores o livro de suas vidas, por ser tão bem escrito e significativo, e pelos críticos internacionais como uma das obras mais importantes de toda a bibliografia do excepcional escritor Hermann Hesse, a obra é um conjunto de ideias, pensamentos e sentimentos individuais em tom profundamente místico e de questionamentos íntimos, em que os que lêem se identificam de imediato, principalmente aqueles que se encontram entre suas próprias dúvidas e afirmações, que sempre estão em busca de algo que determine sua personalidade própria e sua importância existencial; que ensimesmados refletem sobre seu eu, com o concorde propósito de conhecer-se, descobrir-se, evoluir e diferenciar-se do que comumente chamamos de massa.


Em Demian, o autor narra com grande sentimento humanitário e passagens profundamente reflexivas os questionamentos internos do protagonista Emil Sinclair, que a partir da pós infância adentra num mundo dualista determinado pelo próprio como “mundo luminoso” (ideal) e “mundo sombrio” (real), dividido entre a pureza do lar cristão ortodoxo e amor parental, e as experiências com o exterior, com um misticismo filosófico que o encaminhava em direção ao estado de autocompreensão, amadurecimento e descobertas, sucumbindo à influência de Max Demian, a misteriosa figura que passa a instigar sua curiosidade, criando vínculos de força mística. Até sua fase adulta, Demian ressurge de diversas formas sob vários aspectos, e ao final, Sinclair acredita atingir o clímax desse envolvimento, e dos ensinamentos que adquiriu ao longo dos anos, mas seu fim é um tanto quanto trágico e de pesada conclusão perante a humanidade.

O enredo em si não vem a ser o principal na obra, é simplório assim como nossas vidas, nenhum fato extraordinário, mas tem um quê de sombrio, espectral, quando na busca por compreender o possessivo Demian, Sinclair descobre que possui um poder, uma marca, e depara-se com um nome, uma entidade de poder e grande influência sobre sua vida.

O alemão Hermann Hesse (1877-1962)

É uma leitura particular, um encontro consigo, o invadir-se e concluir que pouco sabemos a nosso respeito, que estamos sempre tentando crer em algo, em deuses, entidades, em nós mesmos e que as ideias fixas e sonhos se transformam, modificam-se, para dar lugar a outros e a busca é contínua.

Hesse estudou Freud, era adepto de suas ideias psicanalíticas e também muito influenciado pela filosofia de Nietzsche, é evidente seu elo com o autoconhecimento e a filosofia. Eu ainda não tive a oportunidade, mas segundo indicações, após Demian deve-se ler O Lobo da Estepe do mesmo autor como se uma continuação conclusiva.
Hesse ganhou o Nobel de Literatura de 1946 por esta obra.

Nesse momento de solidão optativa e profundos questionamentos, digo que Demian é um dos outros tantos livros que pousou em minhas mãos no momento mais cabível.

Trechos selecionados:

(...)Foi a primeira falha que percebi na perfeição de meu pai, a primeira rachadura nos fundamentos sobre os quais descansara a minha infância e que o homem tem que destruir para poder chegar a si mesmo. Pág. 35

Entre nós não houve nenhuma alteração, nenhuma cena; não houve ruptura nem sequer um ajuste de contas. Houve apenas uma palavra minha, inofensiva em si, mas que marcou o momento em que a ilusão se rompeu entre nós em irisados pedaços. Pág. 145

- Sim, temos de encontrar nosso sonho, e então o caminho se torna fácil. Mas não há nenhum sonho perdurável. Uns substituem os outros e não devemos esforçar-nos por nos prender a nenhum. Pág. 163

Ficha técnica:
Título original: Demian
Autor: Hermann Hesse
Tradução: Ivo Barroso
Editora: Record
Gênero: Romance iniciático
Páginas: 187
Ano: 1984


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Comentários

  1. Incrível...fiquei muito curiosa aqui!
    Eu já estava com vontade de ler algo dele, agora é que eu quero.

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    1. Eu recomendo à vc ferrenhamente, Tam, acredito que vc vá gostar MUITO!
      Beijos.

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  2. parabéns pelo post. Meus 3 livros favoritos disparados são "Sidarta", "O Jogo das Contas de Vidro" e "O Lobo da Estepe". Para mim, este autor atingiu outro nível de humanidade.

    Fiquei com a dica do "Demian"

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    1. Fábio, entendo bem o que dizes quanto a "este autor atingiu outro nível de humanidade", meus próximos dele serão O Lobo da Estepe e Sidarta. ;)

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  3. aaah, fiquei muito a fim de ler *--*
    eu tenho O lobo da estepe mas ainda não li... vou procurar esse pra ler antes dele. :D

    bjs, Eni querida <3

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    1. Val, esse é contado durante a fase da adolescência, e O Lobo da Estepe durante a idade adulta e velhice, por isso dizem ser melhor ler "nesta ordem", mas um na verdade não tem ligação direta com o outro, tenha talvez em nossa maneira de associar cronologicamente.
      Independente do que virá antes, tenho CERTEZA que serão ótimos momentos de leitura e ótimas reflexões/constatações.
      Beijão, querida!

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  4. Eni, tu sabes quem desenhou essa capa?

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  5. O nobel foi com o livro "Os Jogos das contas de vidro" e não o "Lobo da estepe"

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  6. A obra mais impressionante de Hesse, sem dúvida é O Lobo da Estepe. Ultrapassa a ambivalência do existir, o estar aqui, pertencer a este planeta, tê-lo como lar, ou melhor dizendo, como a única possibilidade palpável, real, isso de acordo com o nosso condicionamento sócio-histórico, que determinam profundamente as nossas vidas particulares. Hesse é um escritor ímpar. Tive o privilegio de conhecê-lo aos 13 anos,e, modificou completamente a minha vida. Se já questionava, ainda havia no meu ser, instituições intocáveis, como a família, a moral imposta, a sexualidade definida em dois gêneros, a pátria, as religiões, principalmente as seculares. Li, quase todas as obras>O lobo da Estepe, trouxe-me, o conhecimento do lado escuro da vida, que nem sempre, é ruim, tem seus atrativos, como o desconhecido, a aventura, a liberdade. Demian, é Hesse na adolescência, um menino com uma mente inquieta, dupla personalidade, cria um alter- ego, e questiona a vida, a existência, o certo e o errado, tal qual Henrry cria o lobo da estepe. Em o teatro mágico, só para poucos, ´só para lucos que nas sua noites de bebedeiras(muita cerveja) e de grande ingestão de ópio, saía, pelas ruas alucinado, procurando satisfazer a sua parte mulher, que o atormentava, dividindo-o em dois seres opostos, mas, complementares. Uma profunda controvérsia, dentro do seu ser, envelhecido e solitário Até que, numa noite-madrugada em extremo delírio, localiza o portal do Teatro Mágico, e adentra-o, encontrando a redenção, nos braços de Herminía a sua porção mulher que até então se resguardara, nos dizeres de Gilberto Gil. Este aspecto da obra do grande e magistral Hesse, fica um pouco mais claro, no seu outro livro intitulado: Goldimundo e Narcizo, Seu ideal de vida é descrito em Sidarta, O jogo das contas de vidro e a fábula, Viagem ao Oriente, um mergulho profundo, nos mistérios do seu verdadeiro Eu. Uma viagem ao mundo intimista e particular, só nosso, onde Hesse busca interminavelmente, como todos nos, o Quem sou?! Namaste...

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