29 maio 2013

Mais um "cinematográfico" Victor Hugo

                                                    O texto de hoje foi escrito pelo convidado e escritor Fábio Michelete.


Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo
Ao começar a leitura do terceiro Victor Hugo de minha prateleira, logo de início já recebi um presente. A coleção da Abril Cultural – “Os imortais da Literatura Universal” inicia esta edição e Julho de 1971:
Tradução de Machado de Assis

“O texto de “Os trabalhadores do mar” que aqui publicamos é o da segunda edição da tradução de Machado de Assis, feita em 3 volumes, pela Tipografia Perseverança, RJ, em 1866, e citada no “Dicionário Bibliográfico Brasileiro” de Augusto V. Alves Sacramento Blake (vol.IV, Pag 197, ed Imprensa Nacional, Rio, 1898). Atualizamos apenas a ortografia e permitimo-nos emendar alguns evidentes erros tipográficos. Conseguimos esse texto, hoje em dia bastante raro, do Dr Plínio Doyle, que mui gentilmente nos permitiu reproduzir, em xerox, um exemplar de 1866 de sua propriedade.”

Não tenho conhecimento técnico sobre tradução. Sou apenas um apaixonado por livros. Acho que a tradução é quase uma adoção – ou co-autoria. A obra do mestre Victor Hugo, traduzida por outro Mestre, só podia encantar! Eu me lembro de ter comentado em uma resenha recente, que estranhava a antiguidade da linguagem de uma tradução. Me questiono quando uma tradução deve ser atualizada – e agora mais especialmente – quando ela NÃO deve ser alterada.

Victor Hugo continua bastante “cinematográfico” para mim. A própria escolha da “gente do mar” para contar suas histórias já dá mais profundidade à obra. As viagens ao mar permitiam literalmente ir além do horizonte, conhecendo o mundo, relativizando suas verdades culturais. Que caldo mais nobre para o fortalecimento da alma humana?

Seu desenrolar das histórias em diferentes núcleos de personagens que se cruzam (que comentem em resenhas anteriores), faz com que se crie uma espécie de cumplicidade com o leitor. Assim, ele pode num capítulo descrever um vulto, com uma determinada roupa, que desempenha determinadas atividades, sem nunca citar qual o personagem, mas com a certeza de que sabemos qual é , e de que continuamos no “fio” da história. O ambiente inteiro é descrito, sem que esta exposição seja enfadonha. Você conseguirá sentir a brisa, o cheiro de mar, a rispidez do solo, o ferimento numa pedra pontiaguda, a dificuldade de uma peripécia.

Em alguns trechos, o emocional vai crescendo – e você intui o que vai acontecer. Ainda que previsível, uma alegria te invade quando suas expectativas se confirmam, qual uma criança que ganha o que tinha pedido. Te faz correr pelas páginas, perder um pouco do sono noturno, atrasar o próximo compromisso, protelar uma tarefa importante – continuar colado no livro. 

Seu ritmo é ágil, e não há trechos áridos, como em “O Corcunda de Notre Dame” ou “Os Miseráveis”. Nada é excessivo – tudo compõe os personagens e cenários. Agora com 3 livros dele no currículo, reconheço seus personagens masculinos como sobreviventes fortes, unidirecionais – ou muito bons, ou muito maus. Não mudam de ideia, mas se entregam ao amor romântico. Já os femininos são dominados pelas emoções. Passam por dificuldades, mas não renunciam a seus sentimentos e vontades – desapercebidas de seu poder. 

Para quem quer conhecer o autor, fica a dica – mas eu iniciaria por “Os Miseráveis”.

Victor Hugo 1802-1885


Trechos selecionados:

“Havia nele a ligação do alucinado e do iluminado. A alucinação entra na cabeça de um campônio como Martin, do mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz surpresas ao espírito do Homem. (...) Resulta daí um mistoerioso estremecer de ideias: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o profeta...”

“Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, às vezes, olhando para uma mulher.”

“Tem mistérios aquele canto; uma virgem é o invólucro de um anjo. Feita a mulher, desaparece o anjo; volta, porém, depois trazendo uma alma de criança à mãe. Esperando a vida, aquela que há de ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra...”

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