26 maio 2013

O Pagador de Promessas prometido antecipadamente

Há tempos que queria dedicar um momento de leitura para um nacional e O Pagador de Promessas foi um dos que eu desejei ler assim que me deparei com a história na televisão. Não lembro se vi o filme (1962) ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes, ou se cai em uma adaptação Global enquanto trocava de canal, mas lembro-me de ter visto algumas cenas desta história e o interesse por conhecê-la completamente surgiu a partir de então.
Ano passado ganhei alguns livros do projeto paulista “Leituras do Professor” e o livro em questão estava num dos kits literários, bastava então tempo e oportunidade para lê-lo.


É uma peça do gênero teatro brasileiro considerado a obra-prima do teatrólogo e autor de novelas Dias Gomes, conhecido internacionalmente, que narra a saga do simplório Zé-do-Burro, que sai do interior da Bahia ao lado da esposa Rosa, com destino a Salvador, a pé, carregando por 360 quilômetros uma enorme cruz de madeira nas costas para cumprir uma promessa pela graça alcançada à santa, conhecida pela igreja católica como Santa Bárbara e pelo candomblé como Iansã. Ambas são a mesma santidade, porém, a distinção dos nomes feita pelas entidades religiosas é que vem a ser o causador de todo conflito que se sucede e do infortúnio do nosso protagonista.

No Prefácio muito bem escrito por Sábato Magaldi, nesta 51ª edição lançada pela Bertrand Brasil em 2010, somos introduzidos a uma análise literária, elucidativa, comparativa, porém, com um desnecessário resumo da história que estamos prestes a ler, contando o desfecho e o final.
Em seguida vem a Nota do Autor, em que Dias Gomes comenta que a obra vem a ser uma critica social, e de todo o seu sentido simbólico, mas também comete o mesmo erro de contar o final da história.
Quanta decepção.


Ler a história já sabendo o que vai acontecer no final muda todo o ritmo da leitura, todo o sentido, toda a compreensão. Tudo bem se houver análises da obra no próprio livro, tornando-a uma fábula com a sua moral da estória de brinde, mas que seja no posfácio, e que a Nota do Autor seja posta de forma conclusiva, não no início da obra!

Tal introdução me tirou toda a expectativa, todo o prazer da leitura, apesar de ser uma história curta, 173 páginas que podem ser lidas em cerca de 2 horas, não encontrei razão nenhuma nesta preparação à leitura, e sinceramente, minha intelectualidade quase se sentiu ofendida com essa inversão editorial, a minha vontade foi largar a leitura antes de iniciá-la, afinal, já sabia exatamente o que encontraria pela frente.
Pode até soar pedantismo de minha parte àqueles que encontraram sentido nesta edição, mas acredite, eu entendo a intenção contextual dos editores, mas me senti lesionada por não ter a liberdade de discernimento, de reflexão ao final da leitura, visto que tudo me foi posto antecipadamente, me tirando o direito de opinião própria.


Não sou crítica literária, tampouco me acho no direito de influenciar os leitores desta obra, mas se você um dia tiver a curiosidade e a oportunidade de ler o livro, garanto que será uma ótima experiência, mas evite ler as primeiras 18 páginas para não cair nessa desacorçoada sensação em que me encontro.

Só para finalizar, antes de me perder em mais indignação e divagações, a obra dividida em três atos, é agradável de se ler, faz o leitor se desdobrar em cada um dos 19 personagens e se compadecer com a determinação e inocência do herói Zé-do-Burro que dotado de valores morais e de honra se vê diante de um grande impasse, determinado por ele como um dever, questão de vida ou morte, o pagamento da promessa que fez à santa por ter salvo seu burro, companheiro e melhor amigo, Nicolau.

Dias Gomes

Imagens do filme homônimo de 1962.