18 maio 2013

O solitário de Mariana

O eremita alemão Arthur Schopenhauer registrou que "a solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais". Para indivíduos assim, o silêncio, a obscuridade e o sibilar do vento são companhias essenciais. O poeta brasileiro Afonso Henrique da Costa Guimarães, conhecido como Alphonsus de Guimaraens, viveu de forma solitária e silenciosa, como se um abismo profundo o separasse do restante do mundo.

Alphonsus de Guimaraens - Créditos: Museu Casa A.G

Alphonsus nasceu na belíssima cidade histórica de Ouro Preto (MG), em 24 de julho de 1870, e morreu isolado em Mariana em 1921. Sua obra poética é marcada pelo misticismo e religiosidade, com versos que lembram o céu enegrecido em dias tristes, um suspiro de lamentação pelo ente querido que deixou este plano, um amor impossível que leva à inadaptação ao mundo. Alphonsus de Guimaraens escrevia e existia como um espírito imerso em triste meditação, fruto da dor gerada pela morte prematura de sua prima e noiva Constança, filha do escritor Bernardo Guimarães, vitimada aos 17 anos pela tuberculose. 

Constança: musa inspiradora de Alphonsus, morreu precocemente. Créditos: APM

Apesar do ocorrido, o poeta simbolista seguiu com a vida terrena e contraiu matrimônio com Zenaide Silveira de Lima, com quem teve 15 filhos. Em entrevista, um dos filhos do casal - o também poeta Alphonsus de Guimaraens Filho -, falou que a mãe lidou de forma saudável com esse "amor avassalador" do marido.

Zenaide e o marido Alphonsus - Créditos: Museu Casa A.G

O fato é que as obras do solitário mineiro tem grande importância para a poesia brasileira, apresentando uma escrita marcadamente etérea e capaz de transcender o mundo físico. Entre os poemas mais marcantes figuram "Setenário das Dores de Nossa Senhora", "Câmara Ardente", "Dona Mística", "Kyriale", "Mendigos" e "Ismália", sendo este último o mais conhecido do autor. Apesar da grandiosidade de sua poesia, Alphonsus de Guimaraens ainda é pouco citado e lembrado pelo público brasileiro, fato que não posso deixar de lamentar. Tenho uma enorme predileção pelos poemas do ex-juiz mineiro, que soube viver sua vida de forma contemplativa e sem estardalhaços. Li em uma resenha escrita em 1976 que Alphonsus é apontado por alguns críticos como o "Verlaine brasileiro", já que não é difícil localizar a influência do poeta francês nos textos do simbolista brasileiro. Só que, diferentemente do autor de "A Angústia", Alphonsus de Guimaraens foi um homem que preferiu o abandono da terra para continuar de olhos fixos no céu de sua fé. Dentre os poemas que mais gosto estão "Ismália" e "Pulchra ut Luna". Confira e permita-se encantar: 


 PULCHRA UT LUNA 

II

Celeste... É assim, divina, que te chamas.
Belo nome tu tens, Dona Celeste...
Que outro terias entre humanas damas,
Tu que embora na terra do céu vieste?
Celeste... E como tu és do céu não amas:
Forma imortal que o espírito reveste 
De luz, não temes sol, não temes chamas, 
Porque és sol, porque és luar, sendo celeste. 
Incoercível como a melancolia, 
Andas em tudo: o sol no poente vasto 
Pede-te a mágoa do findar do dia. 
E a lua, em meio à noite constelada, 
Pede-te o luar indefinido e casto 
Da tua palidez de hóstia sagrada.


ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu, 
Pôs-se na torre a sonhar... 
Viu uma lua no céu, 
Viu outra lua no mar. 
No sonho em que se perdeu, 
Banhou-se toda em luar... 
Queria subir ao céu, 
Queria descer ao mar... 
E, no desvario seu, 
Na torre pôs-se a cantar... 
Estava perto do céu, 
Estava longe do mar... 
E como um anjo pendeu 
As asas para voar... 
Queria a lua do céu, 
Queria a lua do mar... 
As asas que Deus lhe deu 
Ruflaram de par em par... 
Sua alma subiu ao céu, 
Seu corpo desceu ao mar...


Plus:

Quem quiser ter acesso a mais alguns poemas, basta clicar neste link e baixar o material em pdf.

Para saber mais sobre a vida e obra do poeta simbolista, assim como conhecer o museu que carrega o nome do mineiro, acesse o site "Museu Casa Alphonsus de Guimaraens".