16 junho 2013

Bruxos e Bruxas, juventude e revolução

Pegue o modelo de sociedade pré-condicionada biológica e psicologicamente construída por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo, junte com o opressor e repressivo totalitarismo do Grande Irmão de 1984 somados a ditadura corrupta de A Revolução dos Bichos de George Orwell, misture a isso os poderes mágicos de Harry Potter ainda não despertos, com a visão de alguns personagens infantis de Charles Dickens, mas com o cinismo juvenil do tedioso personagem de J. D. Salinger, por fim, inclua uma profecia que mete medo aos grandes que estão no poder, com uma pitada de fantasia e mundos paralelos, coloque tudo isso na época atual e você poderá ter uma ideia do que se trata esta história.


Criada pelo best-seller James Patterson e por Gabrielle Charbonnet, além de fazer fortes referências e menções aos títulos distópicos e de fantasia da literatura universal, tem em sua peculiar história uma linguagem voltada ao público infantojuvenil, bem construída e com diálogos memoráveis. Este livro é o primeiro de uma série que promete levar milhares de jovens às livrarias, não somente por seu enredo, mas por sua narrativa de fácil compreensão e absorção e por sua ideia principal. Narrada com humor sarcástico pelos irmãos Whit e Wisty Allgood, a cada página somos surpreendidos ora com visões que mais parecem um filme de terror, ora com suspense, mas de uma maneira muito única não beira ao dramático, apesar de algumas passagens tristes e chocantes.
Assim que iniciei a leitura e de imediato percebi que se tratava de uma narrativa rasa, sem pontos reflexivos ou filosóficos, me despi de todo pré-conceito literato e me deixei levar como se eu, a leitora, tivesse a mesma idade dos personagens principais, 15 e 18 anos. Cheguei ao final da história em menos de 5 horas de leitura, somadas. Li com vontade e com prazer.
Seus direitos já foram vendidos ao cinema, e é possível ler a história imaginando a saga dos Allgood na telona, pois as cenas são facilmente projetáveis.


No meio da noite, os irmãos Allgood foram arrancados de sua casa, acusados de bruxaria e jogados em uma prisão. Milhares de outros jovens como eles também tiveram o mesmo destino. Outros tantos estão desaparecidos.
De uma forma que não é esclarecida a princípio, esses jovens representam um grande perigo ao totalitarismo do regime da Nova Ordem, criada por um conselho de superiores que se denominam como Únicos, num governo opressor que acredita que todos os menores de 18 anos são naturalmente suspeitos de conspiração.
Nenhum esforço é poupado para acabar com a liberdade individual e aniquilar os desertores, o regime governamental fica com a tutela dos jovens que não se encaixam nos padrões da Nova Ordem, e quem não estiver de acordo com as ideias totalitárias será condenado à uma vida carcerária de horrores psicológicos, humilhações físicas causada pela polícia da N.O., torturas, fome, longe da família, das escola, dos amigos, da música, livros, artes, internet, e por fim, será condenado a morte, antes de completar a maioridade.
Os que, por sorte, conseguirem se esconder e viver longe das prisões da N.O. são obrigados a sobreviver sob condições precárias, e toda e qualquer forma de manifestação contra a N.O. será duramente impelida e aqueles que se rebelarem, serão severamente capturados e punidos.


Parece ser uma situação horrível, coisa “de cinema”, algo que jamais aconteceria no mundo “civilizado e democrático” em que vivemos. Será, mesmo?
E se olharmos para as manifestações ocorridas em todo o Brasil, que está em época de resseção e a beira de um colapso inflacional, nas grandes capitais, a população, na maioria jovens que ainda não foram corrompidos pelo sistema, diante de um aumento abusivo nas tarifas de transporte público decidiram por fim sair às ruas para protestar pacificamente – já que não possuem outra alternativa - e foram severamente oprimidos, agredidos, detidos e humilhados pela polícia militar num confronto COVARDE (que muito me lembrou algumas cenas descritas no livro), a mando do governo do estado e deturpado - quando não omitido - pela mídia manipuladora de informação, que tem seus dois pés nos interesses políticos e interesse nenhum em mostrar a verdade.
A polícia, que tem seu salário pago pela população, que possui a função de proteger os cidadãos, foi a mandada de cumprir ordens que violaram inúmeros direitos humanos. Nós assistimos a isso, e simplesmente não pudemos fazer nada a respeito!
A população, que paga uma das mais altas taxas de impostos do mundo, mantém os parlamentares mais caros e mais corruptos de toda a esfera global, e é a que mais sofre as consequências de uma qualidade de vida pífia, de sub-existência, com má qualidade nos serviços públicos de educação, saúde, transporte, com salários risíveis, realidade esta que vivemos há décadas, e que pouco ou quase nada é feito em relação; é a que mais sofre com tudo isso e não tem sequer o direito de reclamar?
O sentimento de revolta é unânime! Não existe um bendito ser desta nação – a não ser os que se beneficiam com toda a politicagem, claro – que concorde com toda esta palhaçada, este abuso de poder, a população está cansada, revoltada, há muito tempo essa bomba estava inflando, bastou a covardia policial e a vista grossa que o governo federal tem feito, para que ela estourasse e a população se rebelasse e saísse as ruas para protestar, erguer o punho e reivindicar seus pouquíssimos direitos, mesmo que abaixo de cassetetes e balas de borracha, mas a voz não vai calar!


E você deve estar se perguntando, o que é que esse "dois minutos de ódio" num texto de revolta e indignação tem a ver com o livro? MUITO. A ficção norte-americana de Bruxos e Bruxas fala EXATAMENTE sobre isso que estamos vivendo aqui no Brasil nos últimos dias, mas infelizmente, não temos uma profecia favorável ao nosso destino, nem possuímos jovens com super poderes mágicos para fazer temer a cadeia hierárquica acima de nós, nosso futuro é incerto, em nossas leis - que os representantes eleitos pelo povo conseguem misturar com religião, sendo o Brasil um país laico - os nossos direitos civis estão sendo violados e os individuais sendo criminados, é disso que o livro fala, só que numa linguagem para que os adolescentes compreendam e possam ter conhecimento e visão de uma política que não é passada nas escolas, porque quem vai mudar esse país e esse mundo, somos nós, a juventude, aqueles que não tem muito a perder se for preciso perder algo para ser dono do seu próprio nariz e tiver também direitos, não só deveres.
A hora é agora. Sempre foi. Ontem foram 150 mil, amanhã serão 200 mil, e se nada mudar serão 1 milhão, não importa, isso não vai parar por aqui.

Parabéns Novo Conceito pelo lançamento, pelo investimento de marketing para trazer a tradução para o Brasil, e que inclusive manteve a arte da capa bem fiel à edição original norte-americana. A qualidade editorial e de diagramação merecem todo o destaque, não encontrei uma falha sequer.

Achei interessante também que, no final da leitura existe uma lista com nomes modificados (acredito que por questões de direitos autorais) de algumas bandas, livros e artistas que foram banidos pela Nova Ordem, mas facilmente reconhecíveis.
Durante a leitura pensei em como poderia ser a minha versão desta história, e juro que se eu tivesse um tempo para isso, construiria uma espécie de fan-fiction mais adulta.

James Patterson
Se você tiver a oportunidade de ler este livro, o faça! Se a linguagem não servir para te fazer refletir a partir das ideias sutis de política e regimento governamental, ao menos será uma grande fonte de entretenimento, Patterson sabe exatamente como conduzir a narração sem fazê-lo desistir da leitura no meio do caminho. É impossível não querer saber o que vem na página seguinte.

Ficha técnica:
Título original: Witch & Wizard
Autores: James Patterson e Gabrielle Charbonnet
Editora: Novo Conceito
Gênero: Ficção de fantasia
Ano: 2013
Páginas: 286
Valor: 29,90