28 junho 2013

Dose de poesia: Meus poetas preferidos - Parte 1/3

Abro aqui hoje uma série de postagens dividida em três partes sobre: meus poetas preferidosQuero destacar que não vou me alongar nas descrições sobre a vida dos mesmos e por isso estarei colocando em cada nome do poeta o link para Wikipédia para quem quiser saber mais sobre o mesmo, já que meu objetivo aqui, é falar sobre como os conheci e o que me chamou atenção na obra deles...
Espero com isso despertar o interesse dos leitores do dose por mais poesia em suas vidas ;)

Não posso dizer que amo poesia desde cedo, leio desde criança isso é um fato, mas poesia nunca havia me chamado atenção até que com uns 14 anos, eu conheci dois poetas que me fizeram amá-las. São eles...

"Todos os grandes poetas se tornam naturalmente,
fatalmente, críticos." (Baudelaire)
Charles-Pierre Baudelaire ou simplesmente Baudelaire, foi o meu primeiro e inesquecível poeta. Foi através dele que li o primeiro poema que realmente me chamou atenção e desde então, li sofregamente todos os poemas do mesmo que encontrei pela frente. Lembro que durante anos procurei incansavelmente seu livro As Flores do Mal, na época um livro raro pra mim pois eu moro em uma cidade do interior. Naquele tempo eu não comprava pela internet e como não viajo não tinha nem como comprá-lo na capital (até para consegui-lo em e-book era difícil). Vim lê-lo muitos anos depois e foi uma grande felicidade pois o achei na biblioteca pública da minha cidade em uma edição bilíngue. Hoje em dia já possuo meu exemplar e logo estarei relendo para fortificar minha admiração por esse poeta que em vida causou tanta polêmica por seu estilo de vida desregrado e irreverente.
Eis o meu primeiro poema, e digam por si mesmos se meu amor não é totalmente justificável....



Vampiro

Tu que, como uma punhalada

Invadiste meu coração triste,

Tu que, forte como manada

De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado

Encontrar o leito ao ascendente,

- IInfame a que eu estou atado

Tal como o forçado à corrente,

Como a seu jogo o jogador,

Como à garrafa o beberrão,

Como aos vermes a podridão

- Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz

Dar-me a liberdade, um dia,

Disse após ao veneno atroz

Que me amparasse a covardia.


Mas não! O veneno e o punhal

Disseram-me de ar zombeiro

"Ninguem te livrará afinal

De teu maldito cativeiro

Ah! imbecil-de teu retiro

Se te livrássemos um dia,

Teu beijo ressuscitaria

O cadaver de teu vampiro!"


A partir do maravilhoso Baudelaire eu conheci outro, que se tornaria não só meu poeta preferido, mas também um dos meus escritores mais adorados e quem não o conhece afinal? 

"I Became insane with long intervals
of horrible sanity." (Poe)
O segundo foi ele Edgar Allan Poe, quem nunca ouviu falar no poema O Corvo? Aqui mesmo no dose temos postagens sobre. Mas na época eu nunca ouvira falar dele e admitir isso nos dias de hoje pode até causar estranhamento até porque Poe, se tornou um dos escritores mais cultuados hoje em dia e amplamente conhecidoMas é isso mesmo, o conheci em outra época, por outros meios e me apaixonei primeiramente por seus poemas e depois é que conheci seus contos fantásticos.
Conheci-o por Baudelaire porque o mesmo era grande admirador de Poe e eu pensei logo que se meu poeta preferido era tão fã de outro, esse então devia ser maravilhoso! Então o li e adorei suas poesias logo no primeiro momento...seu estilo tão sombrio e apaixonado. Era amor e morte em palavras, fiquei fascinada. 
O primeiro poema que li do atormentado Poe foi:





Annabel Lee

Foi há muitos e muitos anos já,

Num reino ao pé do mar.

Como sabeis todos, vivia lá

Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,

Ao pé do murmúrio do mar.


A partir desses dois grandes nomes, conheci dois outros grandes poetas, dessa vez brasileiros. E tenho que dizer: Maravilhosos. Talvez por causa do estilo dos mesmos eu me interessei logo: um Romântico da Segunda Geração e o outro considerado Simbolista. São eles:


Manuel Antônio Álvares de Azevedo ou apenas Álvares de Azevedo, um poeta jovem que viveu todos os ideais da geração romântica, morreu aos 20 e poucos anos, atormentado, apaixonado e sonhador. Seu poemas eram cheios de medo do amor, virgens impossíveis, escapismo...eu particularmente adorei tudo o que li dele e na época, adolescente, me deixei embalar por suas poesias.
Não lembro o primeiro poema que li dele, mas esse é um dos que mais gosto:


Se eu Morresse Amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
  Se eu morresse amanhã!

 Que sol! que céu azul! que doce n'alva 
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
  Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
    A ânsia de glória, o doloroso afã...
   A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Álvares de Azevedo


Por fim, Augusto de Carvalho Rodrigues do Anjos ou Augusto dos Anjos, é um poeta sem igual. Já li muitos poemas mas jamais encontrei algum poeta com tanta originalidade como ele...não estou desmerecendo ninguém mas ele é único. Eis um dos meu preferidos dele:

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigêneses da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco, 
Este ambiente me causa repugnância... 
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 
Que se escapa da boca de um cardíaco.


Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas 
Come, e à vida em geral declara guerra,


Anda a espreitar meus olhos para roê-los, 
E há-de deixar-me apenas os cabelos, 
Na frialdade inorgânica da terra!

Logo logo estarei trazendo para vocês a Parte 2 e 3. Aguardem!