08 junho 2013

Historietas do "taradão da Bastilha"

Foi um encontro rápido, mas o retorno já está marcado. É assim que tenho me sentido em relação a Donatien Alphonse-François, conhecido mundialmente como Marquês de Sade. O primeiro contato que travei com o libertino e revolucionário francês foi através do livrinho de contos "O corno de si mesmo & outras historietas", lançado pela excelente e acessível Coleção 64 páginas, da editora L&PM pocket. São treze contos sarcásticos, avançados, de nítido teor sexual e libertário.

Marquês de Sade ficou amplamente conhecido por suas obras polêmicas, resultado de experiências pessoais e desejos. Sade pagou muito caro por expressar luxúria em suas histórias e na própria vida, sendo condenado e preso por envenenamento e sodomia, em 1772. No entanto, toda essa fúria puritana contra a devassidão do marquês também escondia uma pose, pois como bem nos lembra o também polêmico cantor e compositor brasileiro Lobão: "Há sempre uma outra pose por trás de quem posa". O dedo em riste apontado contra o controverso marquês camuflava fortes questões políticas, já que a obra libertária do escritor levava em consideração o direito das mulheres à liberdade sexual, à escolha consciente e pessoal de parceiro e estilo de vida. A emancipação feminina sempre foi um enorme tabu social - e continua sendo -, abafada por ideias preconceituosas, machistas e limitadas. Além de chamar a atenção para a necessidade da igualdade entre homens e mulheres, Sade afrontava instituições religiosas, modelos falidos de casamentos que conduziam à infelicidade e dominação, além de esculachar membros do clero, tendo em vista que determinados indivíduos à frente de entidades religiosas têm o estranho hábito de pregar o "faça o que eu mando, mas nem pense em fazer o que eu faço".

A "falta de compostura" de Sade gerava dores de cabeça para antigos e novos regimes de governo, e a solução encontrada pela censura da época foi trancar o marquês em prisões e sanatórios durante boa parte de sua vida. Afinal, não deveria ser nada fácil conter as possíveis arruaças de tiradas inteligentes, como a que podemos encontrar nos contos organizados pela L&PM. Meus preferidos são "Talião", que conta a história de uma mulher que recebia do marido as desculpas mais esfarrapadas para justificar as inúmeras traições e resolveu aplicar a "Lei de Talião" com ele; "A pudica ou O Encontro Imprevisto", narrativa divertidíssima sobre as carolas que não são tão carolas assim; o interessantíssimo "O corno de si mesmo ou A conciliação inesperada", onde a máxima está na lição empática de evitar a fofoca e o julgamento precipitado, haja vista que "hoje foi comigo, amanhã pode ser com você", e o bem bolado "A castelã de Longeville ou a mulher vingada", um conto de vingança e terror, cujo drama leva ao processo de conscientização.



Para quem não conhece o trabalho do "taradão da Bastilha", recomendo a leitura desse livreto "impróprio para menores de 18 anos". É uma ótima oportunidade para não se deixar enganar por tudo o que censuram ou dizem que "não presta, não é para você".