Historietas do "taradão da Bastilha"

Foi um encontro rápido, mas o retorno já está marcado. É assim que tenho me sentido em relação a Donatien Alphonse-François, conhecido mundialmente como Marquês de Sade. O primeiro contato que travei com o libertino e revolucionário francês foi através do livrinho de contos "O corno de si mesmo & outras historietas", lançado pela excelente e acessível Coleção 64 páginas, da editora L&PM pocket. São treze contos sarcásticos, avançados, de nítido teor sexual e libertário.

Marquês de Sade ficou amplamente conhecido por suas obras polêmicas, resultado de experiências pessoais e desejos. Sade pagou muito caro por expressar luxúria em suas histórias e na própria vida, sendo condenado e preso por envenenamento e sodomia, em 1772. No entanto, toda essa fúria puritana contra a devassidão do marquês também escondia uma pose, pois como bem nos lembra o também polêmico cantor e compositor brasileiro Lobão: "Há sempre uma outra pose por trás de quem posa". O dedo em riste apontado contra o controverso marquês camuflava fortes questões políticas, já que a obra libertária do escritor levava em consideração o direito das mulheres à liberdade sexual, à escolha consciente e pessoal de parceiro e estilo de vida. A emancipação feminina sempre foi um enorme tabu social - e continua sendo -, abafada por ideias preconceituosas, machistas e limitadas. Além de chamar a atenção para a necessidade da igualdade entre homens e mulheres, Sade afrontava instituições religiosas, modelos falidos de casamentos que conduziam à infelicidade e dominação, além de esculachar membros do clero, tendo em vista que determinados indivíduos à frente de entidades religiosas têm o estranho hábito de pregar o "faça o que eu mando, mas nem pense em fazer o que eu faço".

A "falta de compostura" de Sade gerava dores de cabeça para antigos e novos regimes de governo, e a solução encontrada pela censura da época foi trancar o marquês em prisões e sanatórios durante boa parte de sua vida. Afinal, não deveria ser nada fácil conter as possíveis arruaças de tiradas inteligentes, como a que podemos encontrar nos contos organizados pela L&PM. Meus preferidos são "Talião", que conta a história de uma mulher que recebia do marido as desculpas mais esfarrapadas para justificar as inúmeras traições e resolveu aplicar a "Lei de Talião" com ele; "A pudica ou O Encontro Imprevisto", narrativa divertidíssima sobre as carolas que não são tão carolas assim; o interessantíssimo "O corno de si mesmo ou A conciliação inesperada", onde a máxima está na lição empática de evitar a fofoca e o julgamento precipitado, haja vista que "hoje foi comigo, amanhã pode ser com você", e o bem bolado "A castelã de Longeville ou a mulher vingada", um conto de vingança e terror, cujo drama leva ao processo de conscientização.



Para quem não conhece o trabalho do "taradão da Bastilha", recomendo a leitura desse livreto "impróprio para menores de 18 anos". É uma ótima oportunidade para não se deixar enganar por tudo o que censuram ou dizem que "não presta, não é para você".

Comentários

  1. eis um dos títulos que ando querendo comprar dessa coleção 64 páginas... nunca li nada de Sade, além de trechos soltos, valeu a recomendação... :D

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  2. Nossa, vocês só aceitam comentários que elogiam o autor ou a obra em questão? Deixei aqui um comentário falando sobre 'A Filosofia na Alcova' e o mesmo foi deletado. Que absurdo! Vocês deveriam ser mais imparciais...

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  3. Só não li ainda este livrinho porque ainda não o encontrei, mesmo sabendo que alguns destes contos já li em O Marido Complacente e Os Crimes do Amor. Também já vi uma peça do 120 Dias de Sodoma que me deixou impressionada. Adoro o filme baseado em sua vida e obra Contos Proibidos do Marquês de Sade (2000). Enfim, sou fã. :)
    A partir dessa tua resenha aumentou mais ainda minha vontade de ler esse 64 páginas, Mara. :)

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  4. Olá Mara, estes contos são os mais agradáveis. Sinceramente não sei se você vai realmente curtir as outras obras dele. Tenho uma compilação aqui com partes dos livros mais polêmicos dele. É pesado... tenha cuidado... beijos

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  5. Ah, eu gosto do Marquês!
    Dele eu li Justine (que é ótimo), muitos contos e o livro Os crimes do amor (que foi o que menos gostei dele, porque não gostei do Marquês apaixonado...prefiro o devasso! :x).
    Sou louca pra ler mais obras dele.

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