01 junho 2013

O poeta do claustro

Existem muitas formas de ser enterrado-vivo dentro do caixão que forjamos ou, que muitas vezes, forjam para nós. O infeliz poeta Junqueira Freire entendeu bem disso. Frei sem vocação e sem qualquer vontade, Junqueira foi obrigado a ingressar no Mosteiro de São Bento, localizado em Salvador (Bahia). 

Junqueira Freire

Durante o curto tempo que exerceu a vida monástica, Luis José Junqueira Freire passou sua existência tomado por sentimentos de amargura, arrependimento e revolta, já que a decisão que tomara o deixava taciturno e completamente insatisfeito. Como se observa em grande parte dos históricos pessoais, a ideia de servir à vida religiosa veio de sua família, pois Junqueira apresentava sérios problemas de saúde desde os primeiros anos. Sem muitas perspectivas e tomado pela dor, o jovem frei morreu aos 23 anos, desgostoso e tão sombrio como uma das pinturas de El Greco

Apesar de todas essas mazelas, Junqueira Freire dedicou algum tempo de sua rotina imerso em leituras, além de lecionar e escrever poemas. Seus versos, cercados de uma jovialidade reprimida e conflitante, iluminaram reflexões sobre as agruras do mundo religioso, quando o mesmo foge de nossas inclinações. Podemos perceber isso no prólogo do seu livro Inspirações do Claustro: "Cantei o monge, porque ele é escravo, não da cruz, mas do arbítrio de outro homem. Cantei o monge, porque não há ninguém que se ocupe de cantá-lo. E por isso que cantei o monge, cantei também a morte. É ela o epílogo mais belo de sua vida: e seu único triunfo." 

Mosteiro de São Bento (Bahia). Fonte: Pergaminho de Clio

Ao termos contato com a poesia do jovem frei, percebemos como o desejo reprimido de viver uma vida normal, com prazeres e desejos, o deixava confuso e perturbado. Por estar dentro da clausura, o amor e o sexo remetiam à sombra do pecado, sentimento que fazia Junqueira oscilar entre a oração e a heresia, lembrando de perto os conflitos representados pelo Barroco. Para o poeta do claustro, a vida havia sido perdida e apenas a morte seria a asa libertadora daquele estado onde o mundo era sórdido e penoso, e onde sua existência não poderia mais ser aniquilada pelas grades da cela.

Se refletirmos com sinceridade, perceberemos um pouco dos anseios do poeta dentro das nossas vidas e, certamente, teremos compaixão de mais uma alma ceifada pelas obrigações de um mundo que aprisiona e oprime. Pessoalmente, gosto muito dos poemas 'Soneto' e 'Saudade', pois eles são declarações expressas dos embaraços vividos por Junqueira.

Soneto

Arda de raiva contra mim a intriga,
Morra de dor a inveja insaciável;
Destile seu veneno detestável
A vil calúnia, pérfida inimiga.

Una-se todo, em traiçoeira liga,
Contra mim só, o mundo miserável.
Alimente por mim ódio entranhável
O coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;
Sei desprezar um nome não preciso;
Sei insultar uns cálculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso
De uns lábios de mulher gentis, ufanos; 
E o mais que os homens são, desprezo e piso.


Saudade

Ao meu amigo Frei Bento da Trindade Cortez, atualmente no Mosteiro do Rio de Janeiro. ... porque lágrimas também são amor. Dr. J. J. B. de Oliveira


Em minhas horas de noturna insônia,
Com os olhos fitos no porvir longínquo
Eu penso em mim, - e na segunda idéia
Encontro-me contigo.

Eu te pranteio no arrebol da aurora,
Que em teu exílio meditando esperas.
Envolto num crepúsculo te enxergo
A deplorar teus fados.

Nas nuvens de sangüíneas listras
Lágrimas verto que sobre elas mando,
Partem, - porém do caminhar cansadas
Descaem no oceano.

Desesperado então, maldigo o espaço,
Maldigo o céu e a terra, o vácuo e o pleno.
Em cada criação deparo um erro.
Nem acho Deus tão sábio.

E na minha alma se desenha ao vivo
Melhor, mais belo, mais ditoso, um mundo.
Tiro do nada, sem ausência e males,
Um orbe todo novo.

O amor da pátria que os tiranos banem,
Não choraria maldições e sangue.
Nem tu nem eu seríamos cortados
Por divisões de abismos.

Mas quando ainda não acabo o sonho,
Diviso armadas que vão mar em fora.
Desperto, e caio nos aéreos braços
Da quimera sublime.

E mais amargo te lamento a sorte,
Tu, mártir feito pelas mãos dos bonzos,
Invoco o céu que entornará sobre eles
Alabastros de anátema.

Ligando a mim teu coração dorido,
Que a teus amigos em penhor deixaste,
Tateio nele as emoções tão vivas,
Que em teu desterro sofres.

Conheço as aflições que te salteiam,
Nobre proscrito.
O sol, a lua, os astros.
Cruzam teu ponto, e trazem-me sinceros
Tuas ingênuas dores.

Sim! para os claustros não nasceu tua alma.
Teu coração não te palpita - Monge.
Nem tão baixo teus ímpetos serpenteiam,
Que um cárcere os contente.

Nesse vasto palor que te orna a fronte,
- Sinal dos homens de profundo gênio,
Eu leio a grande e destemida idéia,
Que não cabe nos claustros.

Deserta, ó gênio, do covil imundo,
Onde o leão dos vícios se alaparda.
Ah! esta cela, onde a indolência dorme.
Não pode, não, ser tua.

Coral guardado nas flumíneas urnas,
Quem há de te arrancar do equóreo fundo?
Não serias mais belo, em áureo engaste,
No colo de uma virgem?


Junqueira Freire faz parte da safra de poetas brasileiros que precisam e devem ser lidos, relidos e lembrados.