29 junho 2013

Sentando no colo de Tchekhov

Anton Tchekhov foi um bom amigo quando precisei. Esperando sentada para que a fila do consultório médico andasse, os oito contos selecionados para compor o rapidinho "A corista & outras histórias", lançado pela editora L&PM na Coleção 64 Páginas, tiraram muito do meu tédio naquele momento. Não tem nada que pague uma âncora jogada bem no meio da inércia profunda dos atendimentos na área de saúde, cujo único passaporte é uma senha infinita. Arrisco o palpite de que todo mundo conhece esse sentimento - ou pelo menos experimentou algo parecido uma vez na vida.

Tchekhov

A Enimara já escreveu sobre as delícias de ler o "Tchek", médico e contista russo que nasceu em Taganrog, em 1860. O autor russo tinha o brilhantismo de observar a vida cotidiana de homens e mulheres banais que, exatamente por esse motivo, tornam tudo mais grandioso. As oito histórias são tão boas que se torna penoso apontar preferidos, mas vou fazer um enorme esforço e deter minhas atenções em quatro narrativas.

"A palerma" chamou bastante minha atenção por tratar de relações de poder que envolvem classe social e sistema empregador X empregado. O texto traz a tentativa de um senhorio em passar a perna na governanta da casa e preceptora de seus filhos, pagando bem abaixo do combinado. O interessante na narrativa é perceber como somos fragilizados como seres humanos e que podemos nos submeter aos caprichos mais descabidos simplesmente porque nos colocamos em uma posição de desprivilegiados, aceitando todos os desmandos dos sapatos que nos esmagam, camuflando a humilhação com a ideia de "eu te acolho, você não encontra coisa melhor". Até hoje isso acontece, principalmente na iniciativa privada, com controle direto ou tácito, feito através daquelas mensagens ridículas de "você está fazendo um bom trabalho, MAS...", começando a apontar soluções para você adentrar na dita "cultura organizacional".

"Nós realmente amamos seu trabalho, mas."

O livro segue com o interessantíssimo "O gordo e o magro", que traz um perfil dos bajuladores de ontem, hoje e amanhã. O que um bom cargo, posição e status social podem fazer com as personalidades? Como diria Tchekhov:

"(...) para que esse servilismo e essa bajulação?" (pág. 9)

A história traz o reencontro acidental de dois amigos de infância com posições e vidas muito diferentes. Sem entregar os pontos, eu sugiro que você leia o artigo "Bajular com categoria", do escritor maranhense Cláudio Rodrigues, para entender um pouquinho mais do "feeling" deste conto.  

Igualmente formidável é o conto "A dama do cachorrinho", com observações que beiram à máxima dos 'costumes e comportamento social'. Na narrativa, um casal que se conhece no ambiente litorâneo de Ialta começa um relacionamento amoroso. Nada de mal nisso, mas existe a simples observação de que ambos são casados. A partir desse ponto, eles iniciam uma vida dupla, ostentando o socialmente aceito em contraponto aos segredos e mistérios dos 'pecadilhos'. Gosto bastante da crítica que Anton Tchekhov faz nesse conto ao mostrar que somos obrigados a viver uma vida para os outros e uma vida nossa.

"Cada existência pessoal sustenta-se no segredo, e talvez seja por isso que o homem educado exige tão nervosamente respeito à sua privacidade". (pág. 36).

Essa disparidade entre uma vida convencional e um mar oculto de segredos (que parece ser a verdadeira vida) pode ser percebida também em "A noiva", enredo protagonizado pela jovem Nádia. Aos 23 anos, a pacata russa vê seus sonhos contestados pelas indagações ferinas de um agregado da família, Sacha, um sujeito cheio de ideais e projetos, do tipo "revolucionário" e que sofre de tuberculose. Unindo os questionamentos que já trazia dentro de si com as observações nada suaves de Sacha, a pobre Nádia se vê entre a tormenta de seguir com seus projetos de casamento ou mudar de vida, estudar e abrir as asas.

Para quem ainda não teve a oportunidade de sentar no colo de Tchekhov, esse conjunto de histórias são uma ótima oportunidade para começar.