03 julho 2013

Dose de Poesia: verdades e venenos de Gregório de Matos

Já faz um tempo que eu queria comentar sobre a versão do poema "Epílogos" de Gregório de Matos, que o rapper paulistano Rappin Hood gravou (parte do poema) para uma apresentação no Museu da Língua Portuguesa de São Paulo. Porém, ainda não tinha encontrado um áudio "decente" e faz poucos dias que me lembrei e achei alguns áudios deste poema "cantado ou contado".
O que me impressiona desde a primeira vez que li e ouvi o poema/rap, é que ficou assustadoramente atual e diante de tantos acontecimentos no Brasil nos últimos dias, não podemos dizer que o "povo brasileiro acordou só agora" porque o sarcástico Gregório já estava "acordado" desde o século XVII.


Gregório de Matos também conhecido como Boca do Inferno, é considerado o maior poeta barroco do Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa, no período colonial. Suas poesias eram carregadas de sátiras sobre os costumes do povo e da Igreja. Boca do Inferno fazia jus ao seu "apelido", porque desenvolveu também poemas eróticos, considerados escandalosos para época.

O poema "Epílogos" ilustra muito bem o período barroco. A sonoridade nos lembra ecos e consequentemente nos remete ao ambiente da Igreja e ao mesmo tempo a gritaria dos comerciantes nas feiras e comércios livres.  

Abaixo, parte do áudio do poema por Rappin Hood no Museu e poema completo transcrito.




Que falta nesta cidade?................Verdade
Que mais por sua desonra?...........Honra 
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha. 

O demo a viver se exponha, 
Por mais que a fama a exalta, 
numa cidade, onde falta 
Verdade, Honra, Vergonha. 

Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio 
Quem causa tal perdição?.............Ambição 
E o maior desta loucura?...............Usura. 

Notável desventura de um povo néscio, e sandeu, 
que não sabe, que o perdeu 
Negócio, Ambição, Usura. 

Quais são os seus doces objetos?....Pretos 
Tem outros bens mais maciços?.....Mestiços 
Quais destes lhe são mais gratos?...Mulatos. 

Dou ao demo os insensatos, 
dou ao demo a gente asnal, 
que estima por cabedal
 Pretos, Mestiços, Mulatos. 

Quem faz os círios mesquinhos?...Meirinhos 
Quem faz as farinhas tardas?.........Guardas 
Quem as tem nos aposentos?.........Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos, 
e a terra fica esfaimando, 
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos. 

E que justiça a resguarda?.............Bastarda 
É grátis distribuída?......................Vendida 
Que tem, que a todos assusta?.......Injusta. 

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça, 
que anda a justiça na praça 
Bastarda, Vendida, Injusta. 

Que vai pela clerezia?..................Simonia 
E pelos membros da Igreja?..........Inveja 
Cuidei, que mais se lhe punha?.....Unha. 

Sazonada caramunha! 
enfim que na Santa Sé o que se pratica,
é Simonia, Inveja, Unha. 

E nos frades há manqueiras?.........Freiras 
Em que ocupam os serões?............Sermões 
Não se ocupam em disputas?.........Putas. 

Com palavras dissolutas me concluís na verdade, 
que as lidas todas de um Frade são 
Freiras, Sermões, e Putas. 

O açúcar já se acabou?..................Baixou 
E o dinheiro se extinguiu?.............Subiu 
Logo já convalesceu?.....................Morreu. 

À Bahia aconteceu o que a um doente acontece, 
cai na cama, o mal lhe cresce, 
Baixou, Subiu, e Morreu. 

A Câmara não acode?...................Não pode 
Pois não tem todo o poder?...........Não quer 
É que o governo a convence?........Não vence. 
Que haverá que tal pense, 
que uma Câmara tão nobre por ver-se mísera, e pobre 
Não pode, não quer, não vence.

Plus:
Ana Miranda, aclamada escritora brasileira, escreveu um romance baseado na vida de Gregório de Matos e acontecimentos históricos da época - Boca do Inferno, publicado em 1989 e que recomendo fortemente. Miranda também publicou uma antologia poética - Que seja em Segredo e que possui alguns poemas eróticos do Boca do Inferno.



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