27 julho 2013

O maior detetive que o mundo já conheceu!

Demorei bastante para escolher (a palavra certa seria descobrir) qual dos personagens literários que atravessaram minha vida conquistariam o status de referência. Foram anos e anos de muita indecisão e desassossego. Passei um tempo com a protagonista Elizabeth Bennet, criada pela escritora inglesa Jane Austen para o romance Orgulho e Preconceito, mas ela não foi suficiente para expressar todos os meus anseios por tanto tempo. Eu ainda a admiro e sempre penso nela com carinho, mas tive que abandonar minha personificação tão logo percebi que me faltava uma ressonância maior.

Foi nessa espécie de "convulsão febril literária e espiritual" que encontrei Sherlock Holmes, detetive nascido das entranhas de Arthur Conan Doyle, e Arturo Bandini, rebento da mente complicada e viva de John Fante. Hoje eu quero me deter no meu detetive, gênio, arguto observador de detalhes e pessoas e mentor literário "Holmes. Sherlock Holmes".

Diálogo de Watson e Holmes na versão cinematográfica

Já escrevi sobre as aventuras vividas pelo engenhoso investigador inglês e seu fiel amigo, dr. Watson, em outra oportunidade e é com alegria renovada que volto a falar dos contos publicados na Strand Magazine, periódico que catapultou Holmes (e junto com ele Conan Doyle) para a fama. Os contos que li foram publicados mensalmente entre julho de 1891 e junho de 1892 no já citado jornal, e foram reunidos em uma coleção de bolso luxuosa da editora Zahar (As Aventuras de Sherlock Holmes, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, 2011). A capa dura e o apuro na edição, que também acompanha as ilustrações originais publicadas na Strand Magazine, deixaram meu coração soltando pulos de felicidade.

Ilustração original publicada na Strand Magazine

São 416 páginas de pura fascinação, casos fantásticos e rotina movimentada, tanto para Sherlock quanto para Watson, que além de acompanhar ativamente cada passo da investigação também assume o papel de cronista pessoal do maior detetive que o mundo literário já conheceu. A edição primorosa da Zahar traz doze contos alucinantes e fica torturante para mim, fã confessa, escolher e pincelar os mais excitantes. Apenas por apego ao didatismo, vou mencionar alguns dos contos que você NÃO PODE perder.

O primeiro deles é o divertido "Escândalo na Boêmia", onde a personagem Irene Adler aparece para perturbar as convicções de Holmes em sua esperteza e pontaria imbatível. O ponto forte da investigação é recuperar uma comprometedora fotografia que pode trazer sérios problemas para um figurão da realeza. Vale destacar "Um caso de Identidade" e "O Homem da Boca Torta" pela originalidade e situações inusitadas. No primeiro conto, Sherlock e Watson estão às voltas com o dilema de uma pobre moça cujo noivo sumiu no dia do casamento; o segundo caso também traz uma situação de desaparecimento, mais dessa vez o problema envolve um respeitável pai de família.


Já em "As Cinco Sementes de Laranja" e "O Polegar do Engenheiro", a narrativa alcança picos eletrizantes, misturando crime, noite e silêncio, já que, em ambos os casos, determinado grupo de facínoras não perde tempo ou cabeça na hora de executar crimes hediondos. O primeiro conto envolve uma antiga organização preconceituosa que espalhou medo e terror pelos EUA, fazendo incontável número de vítimas, e o segundo trata de um infeliz jovem trabalhador que, no início de carreira, aceitou uma proposta tentadora demais para ser verdade e se meteu em apuros mortíferos.

Para mim, a melhor história do livro é a sinistra "A Banda Malhada", com uma narrativa carregada de terror e um iminente clima de morte. Nessa nova aventura, Sherlock Holmes e Watson prestam socorro a uma moça que perdeu a irmã de forma misteriosa e repentina. O padrasto da jovem é um sujeito do tipo brutamontes, capaz de usar qualquer insanidade temperamental para conseguir manipular tudo e todos. O conto é chocante, eu diria até estarrecedor, e me prendeu os olhos até depois de lido.



A edição de luxo lançada pela Zahar me custou R$ 17,00 reais e me conduziu dentro de uma experiência sem volta com o meu absoluto detetive. Como ele mesmo diria se estivesse me lendo aqui, neste exato momento:

"Segundo uma velha máxima minha, depois que se excluiu o impossível, o que sobra, por mais improvável que seja, deve ser a verdade". (pág. 374)