1001 Livros: O clássico dos clássicos, Dom Casmurro

Pois bem, decidi me dedicar um pouco aos clássicos nacionais, e uno a fome com a vontade de comer ao ler esta que é a obra mais conhecida do célebre escritor Machado de Assis.
Obrigatoriamente conhecida pelos vestibulandos e professores, prazerosamente apreciada pelos fãs do gênero e do autor - perdão, Autor, com A maiúsculo. Um dos livros mais lidos e conhecidos de toda a história da literatura nacional.

Desde pequena sempre tive esse livro na estante de casa, mas naquela época, por mais que tentasse compreender a linguagem, eu não tinha idade suficiente para ser leitora de Machado de Assis. Ano passado ganhei o livro através do Projeto Leitura para Cidadania, que distribui livros gratuitamente à população, e foi das mãos de uma professora que descobriu que eu gostava de literatura. Nesta edição da Paulus, 189 páginas, em papel jornal, paupérrima, mas de diagramação e edição impecáveis.



Nela, Dom Casmurro, Bentinho, o próprio, trata o leitor como um amigo confidente, aquele à quem está narrando sua vida desde a infância na Rio de Janeiro do final do século XIX, dividindo experiências e sentimentos, os mais especiais dedicados à sua amiga infante Capitu, de beleza e mistério notórios, outros, envoltos aos acontecimentos em sua residência e família da Rua de Matacavalos. A mãe, a prima, os tios, o agregado, todos com sua devida importância na história e com suas peculiaridades, algumas trovadoras outras risíveis.

Numa das conversas entre os adultos da casa, Bentinho, que está entrando para a adolescência, ouve por trás da porta a notícia que viria a mudar seu destino adiante, sua mãe cumpriria a promessa que fez ao nascer o rebento, mandar o filho ao seminário para ser padre quando estivesse na mocidade.
Com a decisão tomada, Bentinho, o filho único e estimado, se vê as voltas de favores alheios para que sua mãe esqueça a promessa, substitua-a por outra, que a dê cabo, enfim, tudo o que Bentinho não quer, é ver-se distante da amada Capitu; mas todas as suas tentativas não saem como esperado.



No seminário, Bentinho faz amizade, Escobar vem a ser o amigo à quem ele confessa amores e segredos, e enquanto cumpre seu calvário durante o tempo de enclausuro, a amada Capitu jamais é esquecida.
Passa-se o tempo, Bentinho agradou a mãe ao pagar-lhe a promessa divina e se vê diante do seu próprio destino, aquele escolhido e tão sonhado: estudar, ser homem direito, homem de posses, advogado e casar-se com a amiga de infância.

Bentinho tem sorte, um futuro belíssimo pela frente, realiza sonhos e desejos maiores ao lado da esposa e do casal de amigos íntimos, Escobar (o colega de seminário; agora comerciante) e Sancha (melhor amiga de Capitu), e tudo é perfeito, só que não. O desejo de dar a luz a um herdeiro poria toda a perfeição de sua vida em uma única dúvida eterna...
Capitu traiu ou não traiu Bentinho?



A começar pelo título, seu Autor e fama, esta obra se torna indefectível em nossa literatura nacional, só não gosta quem não a compreende. Pode até não apreciar o gênero, mas é impossível desmerecer sua importância na literatura mundial!
Entretém com prazer e com cultura.

Trecho selecionado:

    "Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
    Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me."

32 . Olhos de ressaca - Pgna. 49 - Dom Casmurro - Machado de Assis - Paulus



Este volume da coleção Nossa Literatura integra o projeto Leitura para Cidadania, que consiste na doação anual de milhares de livros, para a formação educacional de crianças, adolescentes e adultos em escolas públicas, hospitais, presídios e entidades sociais de todo o país. A PAULUS Editora tem consciência de que acreditar no Brasil é também investir em educação, possibilitando, a um maior número de pessoas, o acesso ao que existe de melhor em nossa cultura.

Comentários

  1. Um dia quero reler Machado, Eni! Faz muito tempo que li, lembro que Memórias Póstumas me deixou fascinada na época. Beijo! =)

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  2. Eu tentei lê-lo na adolescência e não rolou, quem sabe agora dê certo :)

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  3. A cada livro de Machado de Assis que leio, compreendo o porquê da sua eminência e prestígio. Ele está se tornando o meu autor predileto. Dom Casmurro é realmente uma obra fantástica!

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