21 agosto 2013

A Elegância da Literatura (Do Ouriço)

O texto de hoje é sobre o livro "A Elegância do Ouriço" de Muriel Barbery escrito pelo colaborador e escritor Fábio Michelete.

Comecei-o em doses pequenas – poucas páginas por vez – pois estava terminando outro livro. Pareceu como tarde de degustação de cachaça, que a cada dosezinha vai nos afeiçoando, descendo mais fácil, sensibilizando, abrindo novas visões e sabores, fluindo.

Inicialmente, você tem a impressão de que é sobre a arrogância intelectual, ou sobre a futilidade da vida dos ricos e acadêmicos. As personagens, paradoxalmente, colocam-se arrogantemente num patamar acima desses que criticam, e são amargos, como os que despertaram do cotidiano e se perceberam em meio à vida fútil que a maioria vive.
Consegue então fazer crítica de si próprio: se por um lado valoriza o constante aculturar-se, por outro relativiza sua importância, ao lembrar que o bicho-homem está sempre (no fundo) atrás apenas de sexo e status (para conseguir mais sexo). Reconhece que não há inteligência na escolha por pensamentos infelizes, e esta reveladora conclusão dá ao livro uma dose de humildade que o abrilhanta ainda mais.
Constrói as personagens, nos afeiçoa a suas ideias sobre o sentido da vida, promove deliciosos encontros, e novas conclusões sobre este sentido. Faz-nos sentir como é especial encontrar e simpatizar com seres humanos com gostos parecidos, que confirmam nossa visão do mundo, ou a questionam num nível que nos desafia e interessa. Refleti, ao escrever este parágrafo, que é por isto que escrevo minhas resenhas – para encontrar por ai pessoas que enxergam parecido, ou que se deixem instigar pelo que penso, mesmo que anonimamente.

É delicioso como a autora escreve frases profundas, bem elaboradas. Como se tivesse sido escrito por minha irmã, é de uma sagacidade! Cáustico! Sugere livro bem trabalhado, com verdadeiros trechos de “arte”. Vale muito a leitura. Um novo clássico. Diversão garantida que entrou para a lista dos meus preferidos.

Frases selecionadas:


“...que nada é mais duro e injusto do que a realidade humana: os homens vivem num mundo em que são as palavras, e não os atos, que têm poder, em que a competência última é o domínio da linguagem.”
“Quando as linhas se tornam seus próprios demiurgos, quando assisto, qual um milagroso ato inconsciente, ao nascimento no papel de frases que escapam à minha vontade e que, inscrevendo-se na folha apesar de mim, ensinam-me o que eu não sabia nem acreditava saber, gozo desse parto sem dor, dessa evidência não concertada, que consiste em seguir sem esforço nem certeza, com a felicidade dos espantos sinceros, uma pluma que me guia e me transporta.”
“(...) toda essa vida em que nos arrastamos, feita de gritos e lágrimas, risos, lutas, rupturas, esperanças desfeitas e chances inesperadas: tudo desaparece de repente quando os coristas começam a cantar. O curso da vida se afoga no canto, há uma impressão de fraternidade, de solidariedade profunda, de amor mesmo, e isso dilui a feiura do cotidiano numa comunhão perfeita.”

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