06 agosto 2013

A Triste História do Índio Juca e As Ordens do Cacique

A resenha de hoje é uma colaboração da Jornalista Alessandra Carvalho que é também redatora na agência Teia de Marketing Literário Virtual e escrevinhadora eventual.  E-mail para contato: comunique.a.ale@gmail.com

Foi por acaso que caiu em minhas mãos o livro A Triste História do Índio Juca (Ed. Biblioteca 24horas, 2011), do escritor carioca Paulo Ouricuri. Ao folheá-lo despretensiosamente, notei que toda a história é narrada em estrofes de oito versos, e pensei: contar uma história dentro de um poema não é tarefa fácil, pois, ou você acerta o tom, ou erra desastrosamente.
Afinal, a poesia flerta com o abstrato, com as emoções, com o sentimento, enquanto que uma história, geralmente, segue por caminhos mais concretos, mais realistas, mais objetivos.
Misturar a poesia e o conto, narrando uma história que faça sentido em meio a versos e estrofes que toquem de alguma forma o leitor, é tarefa das mais complicadas. Mas Paulo Ouricuri sabe como fazer.
A Triste História do Índio Juca inicia estimulando o leitor a imaginar o que se passou no Brasil antes de seu descobrimento, narrando eventos e acontecimentos históricos que ocorreram no mundo antes, bem antes de Pedro Álvares Cabral ancorar seus navios em terras tupiniquins. E o curioso é que eu, enquanto leitora e enquanto brasileira, nunca havia parado para pensar o que se passou em meu país enquanto este ainda nem era um país.
Conhecemos a história da Grécia e da Roma antiga, do Egito, de Cleópatra e Ramsés, sabemos detalhes sobre o Renascimento. Boa parte daquilo que o mundo viveu enquanto nosso país ainda dormia em berço esplêndido é de nosso conhecimento. Contudo, por algum motivo, nós mesmos, brasileiros da gema, nunca paramos para pensar que, só por que ainda não havíamos despertado para os olhos do mundo, não significa que não existíamos; que nada se passava por aqui.
A história que Paulo Ouricuri nos conta se passa exatamente neste período – um período em que o Brasil ainda não havia entrado para os livros de história. Aliás, para a história oficial, somente passamos a existir de verdade quando Pedro Álvares Cabral nos encontrou.
Mas não. Já existíamos antes, e o índio Juca, do título da obra, é um pequeno indiozinho que vive em uma aldeia pacífica e feliz, no coração de um Brasil ainda ignorado. Nestes remotos tempos esta tribo já possuía uma estrutura social complexa e incomodamente conhecida entre nós: a da obediência cega.
Todos os índios desta aldeia obedecem sem questionar os mandamentos de seu Cacique – que, aliás, ninguém conhece, ninguém escuta, ninguém vê. O único que tem acesso ao Cacique é o Guardião, que de tempos em tempos é trocado. Porém, mesmo os Guardiões que já não ocupam mais este respeitado posto não revelam absolutamente nada sobre o grande chefe, sendo sua identidade e todos os detalhes acerca de sua história um segredo muito bem guardado.
E obedecendo as ordens vindas do Cacique, repassadas aos demais índios pelo Guardião da vez, a tribo sempre prosperou.
Porém, inesperadamente, um Guardião renuncia ao seu cargo. A tribo se coloca em polvorosa. Algo parecido nunca havia acontecido em sua história! Assustada, a aldeia trata de rapidamente colocar outro Guardião de sua confiança no lugar do desertor – afinal, como poderão viver sem receber as ordens de seu cacique?
Assumido o novo posto, o Guardião passa a repassar para a tribo ordens estranhas, que limitam sua liberdade, seu pensamento e o poder de questionar que a tribo ainda possuía; ordens que exigem veneração total ao Cacique. Quando perguntado o porquê de determinada ordem, o novo Guardião somente repete: “São ordens do Cacique, são ordens do Cacique”.
Como se isto bastasse para explicar tantos desmandos ilógicos e nocivos.
Rapidamente a tribo mergulha em um período nebuloso, pois, apesar das duvidosas ordens, nunca se cogitou desobedecê-las. O Cacique nunca errou, e todas as suas ordens sempre vieram de encontro aos interesses da tribo.
Por que haveria de ser diferente agora?
E é a submissão cega e absoluta que termina por colocar a tribo em maus lençóis. A obediência irrestrita a ordens que não entendiam levam todos os índios desta aldeia para um caminho mortal e inevitável.
A Triste História do Índio Juca trabalha diretamente com nossa imaginação, e nos coloca a pensar no Brasil que havia antes de seu descobrimento – mas também no Brasil que vivemos hoje. A poesia, a ficção e a própria realidade se entrelaçam nesta história, e nos instigam, praticamente nos obrigando a refletir sobre como a estrutura social estabelecida pelos nossos antepassados mais longínquos nos levaram a viver e a fazer a história de nosso país tal e qual a organizamos hoje.
Durante a leitura da obra há uma sensação insistente e constante de que já vimos esta história antes.
Paulo também consegue tocar em nosso civismo e em nosso cerne, deixando que o leitor decida se o melhor para si e para sua tribo seja abster-se de seu poder questionador, deixando-se somente levar pelas decisões tomadas por quem nos governa, ou se o melhor – apesar de mais complicado – seja nos posicionar, e aprender a duvidar de quem quer que seja.
Um livro que merece ser lido e, acima de tudo, merece ser compreendido em toda sua complexa e criativa essência.

Mais informações sobre o autor? Veja também a entrevista feita aqui.