17 agosto 2013

Gota por gota de tédio

Imagine uma torneira vazando, gota por gota caindo em ritmo compassado, interminável, enlouquecedor. Uma simples torneira pingando pode se transformar no seu pior pesadelo quando você está em um ambiente pequeno, onde não há para onde correr. Pois bem, alguns livros têm esse poder torturador e "O casamento" (original The Wedding, editora Arqueiro, tradução de Fernanda Abreu, 2012, pág. 224), do norte-americano Nicholas Sparks, é exatamente um desses carrascos modernos.

Anunciado como a "sequência de Diário de uma paixão", o romance conta a história do advogado Wilson Lewis, genro de Noah Calhoun - protagonista do Diário -, e da luta que ele (Wilson) trava para reconquistar Jane, sua esposa. O casal já está casado há quase 30 anos, os filhos estão criados e o marido tem um histórico de vida ausente, sempre ocupado com os afazeres do escritório. A gota d' água para o relacionamento é quando Wilson esquece o aniversário de casamento e deixa a esposa desolada. Desesperado para manter sua união, ele recorre aos conselhos do encantador sogro, já que a história de amor dos protagonistas de Diário de uma paixão é parâmetro para tudo na vida dos filhos, agregados e netos.

Noah Calhoun: modelo de vida para os personagens de O casamento

Preso entre a incerteza e o amor avassalador que sente por Jane, o advogado aproveita a oportunidade que surge com o casamento de sua filha mais velha para tentar mudar. Wilson passa a ser um homem mais paciente, amoroso, atencioso, preocupado. Uma verdadeira reviravolta. Apesar de Sparks trabalhar um tema pertinente, a narrativa toda parece acontecer em um campo onírico e repleto de detalhes cansativos. O protagonista do livro é um homem fraco, tem autoestima rastejante, orbita em torno da mulher e nem de longe parece ser um sujeito de carne e osso. Vou explicar melhor: Wilson era ateu, racional, focado. Ao casar com Jane, que trabalhava como garçonete em um café, o determinado advogado acaba mudando radicalmente sua vida. Até aí tudo bem, não é mesmo? Acontece que o cara se converte ao cristianismo sem nenhum motivo aparente, não tem amor próprio, sempre afirmando coisas negativas ao seu respeito (Oh, céus, como uma mulher dessas pode ficar com uma porcaria feito eu?!!?) e nem de longe lembra um workaholic. É um personagem decadente. E muito.

Com todas essas negativas, eu comecei a ver o romance do casal como algo doentio, onde a balança pende apenas para um lado. Apesar das afirmações de sofrimento da esposa, senti que nada daquilo fazia sentido ou se relacionava com os fatos que o protagonista narrava. Fora isso, algumas opiniões retrógradas dão o ar da graça, como quando Jane fala que "adora ver o marido de terno, acordando cedo e trabalhando para prover o sustento da família", ou que achava "válido o mundo estar em revolução, com pessoas que tinham um espírito inconformista e tal, mas que ela era uma pessoa que queria uma vida mais tradicional". Em outras palavras, a boa esposa esfrega na cara do leitor e da leitora do século XXI que "bom mesmo é ser rainha do lar". Por favor, hein?!

Status: Lendo O casament... , puxa, que tédio!

Um dos únicos pontos altos da obra é o arremate final, concedendo ao leitor 5 minutos de perplexidade. De resto, nem de longe "O casamento" se aproxima de "Diário de uma paixão". Pelo contrário: é uma gota de água caindo de forma monótona e sem futuro.


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