03 agosto 2013

Madrasta seduz enteado e é expulsa a pontapés pelo marido

O título deste texto - um spoiler descarado - dá uma chamada de jornal. Essa é uma forma justa de mencionar o peruano que está na lista dos escritores mais importantes da atualidade. Ainda hoje me lembro da primeira vez em que toquei em Mario Vargas Llosa. Juro, ele tremeu! Foi um frêmito sem pausas, onde as páginas voaram de cima para baixo impulsionadas pela força do ventilador. Na ocasião, eu topei com a "menina má" e o pobre-diabo do Ricardito. A indicação veio direto da seção "Livros em Pauta" e foi um tiro certeiro porque, meses depois, vi a Patrícia mencionar "Elogio da Madrasta" e nem pensei duas vezes na hora de pagar o resgate exigido pela livraria para adquirir o meu exemplar.



A edição que tenho em mãos é versão pocket e é assinada pela editora Ponto de Leitura, original "Elogio de la madrastra, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht (dupla que também traduziu o "Travessuras da menina má"), 2011, pág. 179. O toque picante e avassalador de Llosa também marca presença nessa obra, que fala do relacionamento sexual (e afetivo?) de uma mulher de quarenta anos com o seu enteado angelical, infante e travesso. O livro não pontua qual a idade do menino, mas o trata o tempo todo como criança. Pelo seguimento da narrativa, presumo que tenha entre quatorze e quinze anos, já que é capaz de "peripécias" que exigem certa força e destreza.

Lucrecia, a madrasta, é mulher de um sujeito excêntrico, capaz de passar horas a fio trancado no banheiro fazendo sua higiene pessoal. A ideia toda desperta interesse, já que o tal marido dedica cada dia da semana para dar atenção a uma parte específica do corpo, tratando todo detalhe físico com a paciência e habilidade de um miniaturista. A felicidade para don Rigoberto consiste em ter noites sexuais intensas com sua mulher e tratar com requinte seu momento de ablução (lavagem, melhor dizendo). Para ser mais exata, o simples ato do asseio significa um ritual sagrado para Rigoberto, e é muito provável que Mario Vargas Llosa tenha escolhido a palavra ablução por esse motivo. 

A madrasta dos sonhos? Para mim não. rs.

No decorrer do texto, o autor intercala os acontecimentos do trio Lucrecia - Alfonso (Fonchito, o infante) - don Rigoberto com descrições feitas das telas impressas na obra, as quais encontram conexão dentro da própria história. Gostei muito de perceber a capacidade de Llosa em criar mundos e identidades através de uma interpretação específica feita para cada quadro (das muitas que podem existir). A sutileza de cada nova história criada a partir de um olhar diferenciado das telas anda de braços dados com códigos perceptíveis a olho nu, basta que o leitor tenha disposição.

O enteado dos sonhos? Hummm... Quem sabe!

O desfecho da narrativa é surpreendente e me fez lembrar de O diabo, conto do russo Tolstói. Não vou esconder que esse foi um dos motivos que acelerou os meus batimentos cardíacos, fazendo com que cada palavra antes do fim fosse um tambor rufando na minha cabeça. A energia maligna que parece surgir de carinhas de anjo é perigosa e extremamente fascinante. Pode parecer uma comparação estranha mas, enquanto lia "Elogio da madrasta", não consegui tirar a música "Back off Bitch", da galera do Guns n' Roses, da cabeça. Por que será? (risos)

Aprovado, então.