10 agosto 2013

Noites de tormenta e dias de lembranças

Aos nove anos de idade, eu vibrava ao ouvir no toca-fitas aquele som eletrônico flutuante que caracteriza a música "Woman in Chains", da banda Tears For Fears. Mesmo sem entender nada do que estava sendo cantado ali, eu conseguia sentir a vibração das notas para alguma coisa de sofrimento e amor. Agora, anos depois de ouvir "You better love loving and you better behave/Woman in Chains", senti a canção voltando para minha cabeça quando li "Noites de Tormenta", (original Nights in Rodanthe, tradução de Saul Barata, editora Novo Conceito, 2012, pág. 256), do conhecido Nicholas Sparks. Já tive a oportunidade de ler outro livro do autor, além de assistir filmes baseados em seus romances, e apesar das reações amorosas ou odiosas por parte do público serem bem efusivas, tento me manter distante da celeuma toda e concentrar minha atenção em cada livro individualmente.

Em "Noites de Tormenta", Sparks conta a história de amor entre Adrienne Willis, uma mulher de 45 anos que enfrenta um divórcio doloroso, cheio de culpa e ressentimentos, e o cinquentão Paul Flanner, médico bem sucedido, mas que traz nos ombros o peso de uma vida ausente do lar e da rotina do único filho. O casal se conhece em uma pousada onde Paul foi se hospedar por cinco dias. Nesse período, a vida dos dois muda drasticamente e o amor começa a renascer.

Como muitas mulheres, Adrienne carrega sozinha o peso da educação dos três filhos adolescentes, vivendo sem distrações e tentando entender em que ponto errou feio para que seu marido a trocasse por uma mulher mais jovem. Assim como na letra do Tears For Fears, a bibliotecária é uma mulher acorrentada à opressão de um relacionamento que fracassou, e por conta disso não vê motivos para voltar a pensar em si como alguém capaz de amar e se deixar amar. O também divorciado Paul Flanner tenta consertar seu próprio coração e o relacionamento com o filho Mark, que também optou pela Medicina e se mudou para o Equador com a intenção de ficar longe do pai.

Cena do filme "Noites de Tormenta"

O encontro todo começa quando Jean, amiga de Adrienne, pede à ela que vá cuidar de sua pousada em um lugarejo isolado, já que precisará viajar para assistir a um casamento. Adrienne aceita e fica responsável por receber um único hóspede, o doutor Paul. Ao se conhecerem, uma espécie de atração inexplicável começa a despontar, transformando pequenos detalhes esquecidos em quebra-cabeças de retorno ao amor. 

É um livro rápido, bem ao estilo proposto pelo escritor norte-americano, merecendo crédito por trazer à tona o tema do amor maduro, vidas que se reconstroem e sacrifícios silenciosos que precisam ser feitos quando você é diretamente responsável pela felicidade de outras pessoas. Gostei bastante dos conflitos internos que os dois personagens centrais enfrentam justamente por serem reais, cotidianos e possíveis, mas não posso deixar de dar ponto negativo para o "efeito pó mágico" que Sparks insiste em salpicar em suas histórias. Uma pessoa fechada, com o coração machucado, desgastado e inseguro, não abre sua vida e muda suas esperanças de uma hora para outra. Isso exige tempo e a reconstrução é sempre demorada. Em "Noites de Tormenta", uma tempestade é capaz de unir enlouquecidamente duas almas maltratadas de forma avassaladora e, pasmem, em menos de uma semana. 

Cena do filme "Noites de Tormenta"

Apesar de acreditar no poder do amor e dos bons sentimentos, é difícil conceber que gente verdadeiramente machucada se cure tão rápido. E apesar de tentar mascarar essa intenção, foi isso que ficou nas entrelinhas no romance de Paul e Adrienne que, diga-se de passagem, ganhou tonalidade epistolar. 

Destaco também o dilema médico vivido por Paul e o arremesso final do livro, que me fez acabar com os três últimos capítulos bem rápido. A capa da edição que possuo é do filme homônimo, com Richard Gere e Diane Lane na pele de Paul e Adrienne, respectivamente. Ainda não assisti, mas como gosto muito do trabalho do Richard, o longa está na minha lista.