14 agosto 2013

Sobre Constantino "Tolstoi" Lievin

            O texto de hoje foi escrito pelo convidado e escritor Fábio Michelete.

Hesitei bastante em começar o “Ana Karênina” (que eu insistia em ler como se o circunflexo lá não estivesse). Volume grande, letras pequenas, difícil manuseio. O nome do autor traduzido “Leão Tolstoi” também não convidava... mas por que tanta unanimidade sobre este clássico? Eu precisava saber.

Foram algumas boas semanas até termina-lo. Não porque fosse chato, pelo contrário. Tolstoi tem grande habilidade para descrever discussões em torno de uma mesa de jantar, e tornar aquilo interessante para nós. Seu artifício é simples – típico dos romances psicológicos. O autor faz a gente entrar na cabeça das personagens. A construção das respostas e pensamentos são muito boas. Em especial na descrição das duplas amorosas, uma percepção destacada que o autor tem do universo feminino (e ainda bastante atual – quando se trata de sentir-se aceita ao conseguir um parceiro).

Adaptação cinematográfica de 2012

Há ainda um componente político no livro. Aliás, essas reflexões, importantes em especial na personagem de Constantino Lievin, permitem uma ligação importante entre a biografia do autor e esta figura por ele criada. Tolstoi deve ter feito o livro grande como uma cebola protetora para poder ali colocar suas reflexões em segurança. Como sua personagem, também opta pela vida em simplicidade.

A opção por simplicidade é uma resposta para a vida. Consome menos recursos, e nos faz menos escravos da materialidade. Há menor chance de explorarmos outros, mas também, menos contribuição para a roda de consumo que sustenta nossa sociedade, tal como é arranjada. Você ajuda ao contratar uma empregada doméstica e a paga na média do mercado? OU você a explora e a impede de exercer seu potencial como ser humano fazendo outra coisa? Uma discussão que espero que não fique entre aqueles que dividem o mundo entre o preto e o branco.

Por trás das escolhas políticas, permanece a relação do ser humano com sua biologia. Não são os jogos de poder, ou a hipocrisia da sociedade que fazem um homem e uma mulher se unirem. Estes são apenas o palco onde tais disputas ocorrem, motivadas por um imperativo animal. Os seres humanos são (também) animais. Ainda há inúmeros mecanismos de sedução por desvendar nesta espécie, mas a hierarquia social e o status sem dúvida têm relação íntima com o tema.

Adaptação cinematográfica de 2012
E é nas disputas de status social, inerentes ao jogo sexual, que as convicções políticas também se tornam importantes. Não é bastante adotar um estilo de vida que o faça mais feliz. É preciso alardear isto, conseguir que isto se torne um símbolo distintivo que faça suas escolhas parecerem melhores que a de outros. Para muitos, não bastará ser vegetariano. Será preciso militância pública. Não bastará ter o direito, será preciso afirmá-lo como um distintivo social – de fundo hierárquico/sexual.

Para Tolstoi – senhor de sua atuação política, mas escravo da biologia, não bastou apenas escolher a vida simples. Era preciso difundi-la e dela fazer propaganda para a família e demais relações. Num extremo tragicômico, segundo sua biografia (Wikipedia), aos 82 anos decidiu sair de casa em busca da vida simples com valores que sua família não podia compartilhar. Viajou na terceira classe (mais simples), pegou pneumonia e morreu. A morte sim, é algo que sempre nos igualou.

Por Fabio Michelete

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