07 setembro 2013

Cuidado com o que você deseja - O melhor de mim, de Nicholas Sparks

"Ela havia conhecido o tipo de amor pelo qual valia a pena arriscar tudo".

Arriscar tudo é uma atitude muito forte, eu diria até mesmo drástica. Quando uma pessoa joga tudo para o alto e aposta todas as fichas em alguém ou em uma situação, ela está eliminando todos os outros caminhos para seguir apenas um. Certo ou não, esse é um dos "princípios do amor eterno" que sempre pulam em nossos olhos quando entramos em contato com livros que abordam essa temática. E isso não é diferente na obra de Nicholas Sparks. Depois de ler quatro livros do autor, beirando ao quinto, estou começando a suspeitar que o best-seller norte-americano aposta em alguns ingredientes conhecidos e inerentes ao "padrão" das expectativas e comportamentos humanos quando o assunto é relacionamento. Usei as aspas na palavra 'padrão' justamente para deixar claro que toda regra tem sua exceção. 

Em seus livros, Sparks trabalha com o amor idealizado, romantizado, beirando ao platonismo e à tragédia. Seus protagonistas são pobres mocinhos indefesos que, mesmo carregando sua dose de pecados, só querem viver um amor para recordar, um amor para a vida inteira. Injustiçadas criaturas que vivem noites de tormenta, pensando em casamento, desejando serem homens e mulheres de sorte para escreverem sua própria história em seus diários de paixões, dando o melhor de si. Ufa! É, acho que consegui matar um pouco da charada proposta por Nicholas Sparks: ele moderniza o clássico Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. No romance "O melhor de mim" (original The Best of Me, tradução de Fabiano Morais, editora Arqueiro, 2012, págs. 272), o leitor vai se deparar com mais um casal impedido de viver sua linda história de amor. 

Felizmente, "O melhor de mim" ganha contornos mais realistas e uma narrativa sinceramente comovente onde, em meados da década de 1980, o atormentado Dawson Cole, nascido em berço podre, já que seus parentes são todos criminosos de última categoria, se apaixona por Amanda Collier, linda e bem nascida líder de torcida. O relacionamento dos dois é proibido antes mesmo deles terem conhecimento disso, e com muito esforço eles engatam um romance. Os pais de Amanda são contra o namoro e a torturam mentalmente para que termine com o pobretão e condenado à criminalidade. A mãe, uma socialite intocável, é a primeira a evidenciar o nítido sistema de castas que parece existir [ficcionalmente] na pequena cidade de Oriental, localizada no estado americano da Carolina do Norte.

No começo da juventude, acontece uma catástrofe na vida de Dawson que acaba mudando seu destino para sempre. Ele e Amanda se separam e só se reencontram vinte e cinco anos depois, na mesma cidade e por ocasião da morte de um grande amigo de ambos, o restaurador de carros Tuck Hostetler. Só que como todo bom casal sofrido, muitas coisas mudaram, e algumas delas para pior, impossibilitando que Amanda e Dawson vivam essa enorme paixão.

Getty Images
Amanda é uma mulher casada, mãe de três filhos, carregando no coração a dor imensa de uma perda, e vive muito mal com o marido, um dentista alcoólatra. Ela desistiu da sua carreira profissional, dos seus sonhos e do amor da sua juventude, fatos que deixaram marcas profundas no seu coração. Mas apesar dos sofrimentos de Amanda, a minha empatia vai toda para Dawson Cole. Por ser diferente dos seus parentes criminosos, Dawson apanha, é torturado pelo próprio pai, vive em condições terríveis e nunca foi capaz de ter uma vida normal. Pela descrição feita por Sparks, ele é um sujeito decente e solitário, um morto vivo que respira assombrando pelos fantasmas do passado.

Diferentemente de outros títulos, eu me senti bem próxima dessa história e me peguei pensando em como seria bom passar os dedos entre os cabelos de Dawson e dizer para ele que estava tudo bem, que ele deveria seguir em frente. Sou uma pessoa que acredita no poder do amor, no modo transformador de como ele pode operar na existência de quem o permite, mas preciso dizer: "Cuidado com o que você deseja".

De forma desmedida, você pode ter inúmeros problemas por arriscar tudo por algo ou alguém, e seu coração pode se partir diversas vezes por viver no passado. Talvez Nicholas Sparks possa pensar mais nas consequências reais de relacionamentos que deixam marcas para a vida toda e apontá-las de um modo nu e cru, e não mascarando com pó de arroz todas as situações embaraçosas e tristes da vida.

Nicholas Sparks
Emily Brontë abriu os olhos dos leitores para esse tipo de amor-que-arrisca-tudo em "Morro dos Ventos Uivantes". Se ela conseguiu essa proeza em 1847, presumo que o premiado autor norte-americano possa se dar esse trabalho no século XXI. Ou não?