15 setembro 2013

Da domesticidade ao primitivismo... O apelo da selva, de Jack London.

minha edição pela Abril Cultural...

Umas semanas atrás tive o imenso prazer de ler uma obra que me deixou impressionada. O apelo da selva foi a história que eu precisava pra me apaixonar por Jack London.


Trata-se da história de um cão chamado Buck, que foi raptado do lugar onde morava, por um trabalhador da fazenda de seus donos, para ser vendido e enviado para servir de cão que puxa trenós nas áreas mais geladas do Canadá. O ano é 1897. Passando privações, apanhando e sendo transportado de maneira rude, Buck percebe aos poucos que sua vida vai mudar e não há como escapar desse destino. Após se ver diante de situações inusitadas para um cão doméstico, a personalidade de Buck vai se transformando...

Uma das coisas que mais me chamou a atenção na história é justamente essa mudança no instinto do cachorro, e como London conduz a história. É como se o leitor mudasse junto com o personagem canino. A passagem de cão doméstico para 'lobo selvagem' se dá em meio a uma área inóspita, com pessoas de todos os tipos [algumas gentis com os cães, mas a maioria nem tanto...]. Buck vai passando de um 'dono' a outro, e ainda precisa enfrentar outros cães entregues a mesma sorte. Alguns foram amistosos com Buck, mas até no meio animal, percebemos a inveja e a ambição por um lugar de liderança entre a matilha. A lei que prevalece é a do mais forte e mais esperto contra o mais fraco e frágil. Outro fator interessante a dizer sobre esse livro é que a narrativa se dá em terceira pessoa, como se alguém conversasse conosco sobre a vida de Buck, e toda ela pelo ângulo de compreensão do animal. 

O latir de Buck muda de um latido doméstico ao uivo de um cão que luta para sobreviver no frio, nos perigos do gelo, contra a maldade e egoísmo humanos, e na supremacia do animal mais forte. Buck apanha para ser domado, passa frio, fome, tem suas patas machucadas pelo gelo cortante, vê outros animais em iguais circunstâncias perecerem no caminho por não suportarem as condições precárias a que são submetidos, precisa matar para sobreviver, arrasta o peso de trenós e vê companheiros de jornada ficarem para trás, passando a mão de outros donos... 

Achei fantástico o fato do livro ser bem ilustrado, e apesar de curto [menos de 200 páginas] a leitura é empolgante, cheia de passagens que fazem você pausar a leitura e refletir sobre o mundo e selvageria animal. A transição de domesticidade a selvageria se dá de forma gradual, e cada vez mais intensa. O livro é inteiro impregnado dessa transformação por meio de adaptação no personagem Buck. 


"Esse primeiro roubo provou a aptidão de Buck para sobreviver no meio hostil do norte. Provou a sua adaptabilidade, a sua capacidade para se ajustar a condições mutáveis, cuja carência teria significado nada mais nada menos do que a morte - imediata e terrível. Assinalou, além disso, a decadência ou a desintegração da sua natureza moral, coisa inútil, obstáculo até, na impiedosa luta pela existência. No sul, onde imperava a lei do amor e da fraternidade, sim senhor, era muito bonito respeitar a propriedade privada e os sentimentos do indivíduo; mas no norte, sob a lei do porrete e da dentada, era louco todo aquele que tais coisas tivesse em consideração; tanto quanto ele observara, não podia fazer vida." 

Nota-se nessa passagem uma crítica do autor sobre a civilidade, que perde espaço quando se trata de sobreviver em meio ao caos. Todos os valores ensinados a Buck, como cão doméstico, caem por terra quando ele precisa sobreviver. A moral do cão é inútil na hora de lutar por sua comida. Apanhando dos humanos e sendo surrado por outros de sua espécie, a única opção que resta a Buck é lutar, mesmo que de forma brutal e incivilizada... 

Buck ainda encontra calor humano entre a frieza do norte [de território e humana], quando, ao 'perder-se' de uma matilha que tem um final trágico, é acolhido por um homem bondoso, e encontra lealdade nesse humano, que o defendeu de uma surra. Mas a selva clama por Buck, e ele se encontra cada vez mais desapegado das questões 'humanas' e dos sentimentos de 'companheirismo' aos quais a um cão são atribuídos esses valores. A liberdade de respirar por conta própria, de buscar seu próprio alimento, de sentir o vento e a natureza em sua plenitude transformam Buck num legítimo ser da floresta... 

É um livro que me deixou triste, reflexiva e me fez divagar por dias em sensações desconfortantes... Senti pena dos demais cães que Buck conheceu em sua jornada, senti pelos donos que perderam seu velho amigo, e tristeza pelo próprio Buck, que, sozinho, teve que se adaptar a um mundo selvagem, gelado e vazio de bondade e compaixão humana...