25 setembro 2013

Dublinenses - Os retratos irlandeses de James Joyce

Quando ouço ou vejo o nome James Joyce já me vem à cabeça aquele livro gigante de sua autoria, considerado o melhor romance em língua inglesa do século XX - “Ulisses”. De tanto ouvir que Ulisses é um livro difícil de ler ou “digerir”, não quis conhecer Joyce através dele porque confesso que esse tipo de leitura me assusta um pouco.

Aproveitando a indicação de uma professora, conheci o conto “Arábia” que faz parte da compilação de contos onde James Joyce retrata o cotidiano do povo irlandês – Dublinenses (no original Dubliners).
Dublinenses é o olhar de Joyce sobre seu próprio povo e suas origens. Em quinze contos retrata o sentimento irlandês, costumes e lugares de suas lembranças da infância pobre em Dublin.

Particularmente, eu gostei de somente quatro dos quinze contos: Eveline, Dois Galanteadores, A Casa de Pensão e Arábia, título que aguçou minha curiosidade de conhecer o livro.

Arábia 

Todo dia o garoto-narrador observa de sua janela, a irmã de seu amigo Mangan sair de casa. Ele a segue pelas ruas até conseguir conversar um pouco com ela. Apesar de se falarem pouco, a irmã de Mangan está sempre nos pensamentos do garoto, típica paixão de infância. Numa manhã, a menina pergunta ao garoto se ele irá à Arábia, um bazar de Dublin. Ele confirma que irá e a convida para ir junto, mas ela não poderá acompanha-lo, então ele diz que trará um presente do bazar para ela. Após a conversa, o garoto fica inquieto e ansioso para ir ao bazar, contando as horas e planejando sua "aventura".

Para comprar o presente, ele precisa pedir dinheiro ao tio que se atrasa e esquece completamente do pedido, pois está quase sempre embriagado. Após a tia chamar a atenção, o tio concede o dinheiro e no dia seguinte o garoto parte com ansiedade para o bazar. Mas o trem atrasa e ele chega quando o bazar está fechando. Ele se aproxima da única tenda que ainda está aberta, observando os objetos e esperando ser atendido pela mulher da tenda, mas é completamente ignorado. Frustrado e com raiva o garoto acaba não comprando nada e as luzes do bazar se apagam.

Estatua de James Joyce em Dublin
O conto Arábia, revela o fascínio de um novo amor (a irmã do amigo) e lugares distantes (o bazar) que se confunde com a familiaridade da rotina e da labuta diária, com consequências frustrantes. O bazar oferece experiências que diferem da Dublin de todos os dias e a irmã de Mangan deixa o narrador com novos sentimentos de alegria e euforia. Sua paixão por ela, no entanto, compete com as frustrações do dia-a-dia como a rotina da escola, atraso de seu tio e os trens de Dublin. 
O bazar decepciona o narrador que não encontra os objetos e mercadorias encantadoras do Oriente Médio e sim uma feira com objetos e pessoas ingleses (a mulher da tenda que o despreza).
Concluí-se que o garoto percebe que não precisa de presentes para demonstrar o amor pela menina, e que sua paixão não passa de uma ilusão, assim como a expectativa da ida ao bazar. Eu diria que o final do conto nos transmite uma sensação de pessimismo quanto as expectativas que criamos em torno dos nossos desejos.


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