04 outubro 2013

A busca pela serenidade de Sidarta, Hermann Hesse

Sempre soube que quando eu iniciasse a leitura deste livro, tiraria dele aprendizados e visões até então não experimentadas, principalmente porque se trata de uma narrativa de um mundo oriental que eu desconhecia, onde o grandioso escritor alemão Hermann Hesse narra a vida de Sidarta, um jovem indiano em busca da sabedoria, da paz e da serena liberdade espiritual.
E foi no sacolejar de um ônibus de viagem, acompanhada das constelações e de uma lua crescente inspiradora, à oeste de nossas terras tupiniquins, que desfrutei dessa leitura tão agradável.
São 121 páginas repleta de revelações transcendentais.


Membro de uma casta sacerdotal, o filho de brâmane, criado desde pequeno nos costumes hindus para tornar-se um sábio em seu vilarejo, Sidarta, apesar da pouca idade possuía uma inteligência lúcida e conhecimento ímpar acerca de sua cultura, admirado por todos, mas de uma inquietude que despertaria seu desejo de desbravar o mundo à sua volta, seja nas experiências físicas, seja nas espirituais; juntamente com seu melhor amigo Govinda, que já nas primeiras páginas decidem seguir caminho fora dos costumes e rituais brâmanes, a contragosto de seus pais.

Ambos juntam-se então aos ascetas, peregrinos esqueléticos que viajam a pé e praticam o pensar, o esperar e o jejuar; alimentam-se somente uma vez por dia, vivem de esmolas, seguem em grupo mesmo sendo cada um individualmente dono de seus próprios pensamentos e atos, aprendem e praticam os feitiços dos samanas, e durante o tempo de caminhada, Sidarta e Govinda, entre sábias constatações e seu desassossego, decidem por si, quando avistam discípulos de Gotama, tomar os conhecimentos do augusto Buda.
Govinda identifica-se aos Gotamas desde o princípio, mas Sidarta, cheio de indagações e dúvidas quanto a doutrina dos budistas, separa-se do amigo e em seguida vem o seu despertar, e o desapego à tudo o que vinha buscando até então; esta incessante busca findou-se em experiências mais mundanas que espirituais, quando em sua caminhada solitária, depara-se com a bela Kamala, que ensinou-lhe as artes do amar.


Kamala, detida em seu mundo material, entre gracejos de seus amantes, riquezas e belas roupas, introduziu Sidarta ao mundo dos comerciantes, dos homens tolos, dos sansara, dos que vivem com o propósito de adquirir bens, súditos, status social, riquezas, e assim Sidarta permaneceu durante longos anos até atingir a idade madura e ter por si que nada daquilo trouxe-lhe, de fato, a felicidade e a paz na alma, pelo contrário, deturpou tudo aquilo que trazia em seu interior.
O desapego do que havia conquistado veio a ser seu maior desafio, mas nada para Sidarta era o bastante, e após abrir mão de tudo novamente, foi na beira de um rio, ao lado do balseiro e ermitão Vasudeva, que Sidarta enfim encontrou a paz, o seu lugar.
Encontros e reencontros trazem nos últimos capítulos do livro, ensinamentos e vivências um tanto quanto sofríveis ao nosso sábio e filósofo Sidarta, juntamente com as frases e passagens mais memoráveis, dignas da mente brilhante de Hesse que viveu durante anos na Índia aprendendo sobre a cultura deste precioso povo.

Hermann Hesse

Sidarta é um livro que fala sobre a busca pessoal pela paz interna e externa, o estar em equilíbrio consigo e com mundo, do desassossego de uma alma que está sempre em busca de algo, mas que não se contenta quando atinge sua máxima. Cada passagem, cada capítulo, carrega em sua narrativa, reflexões e experimentações do autor, quando o próprio se volta à seu interior e extrai sua essência e intelectualidade, colocadas em frases e constatações que ambientam o leitor ao mundo dos sábios, dos peregrinos, dos que dedicam sua existência ao aprendizado, dos que não se limitam aos prazeres terrenos e materialistas, dos que buscam respostas à perguntas nunca feitas, para quem guarda em si a inquietude da alma que nunca cessa, em um caminhar constante.

E por mais que eu gaste todo o meu vocabulário para descrever o quão significativa e importante é esta obra para a literatura universal, jamais transporia em suma o resultado final desta leitura em meu particular, a mente e o espirito transcendem muito além do que as palavras exortadas, faladas ou escritas, definiriam se me coubesse o dom de exprimir da alma toda a exultação que esta leitura proporcionou-me.
Cada leitor terá para si a conclusão da obra de forma particular. E eu desejo, meu amigo, que você tenha um dia a oportunidade de entender o que vos digo, ou tento lhe dizer, após ler esta obra.
Excelente leitura, digna de todas as cinco estrelas e favoritado.

Não me obrigues, porém, a falar mais. As palavras deturpam sempre o sentido arcano. Todas as coisas alteram-se, logo que lhes pronunciamos o nome. Então se tornam levemente falsas e ridículas... Pg. 116

Ocorreu-me às vezes sentir, por uma hora e mesmo durante um dia inteiro, a presença do saber no meu íntimo, assim como sentimos o pulso da vida no nosso coração. Certamente refleti sobre muita coisa, mas seria difícil para mim transmitir-te os meus pensamentos. Entre as ideias que se me descortinam encontra-se esta: A sabedoria não se pode ser comunicada. A sabedoria que um sábio quiser transmitir sempre cheirará tolice. (...) Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la. Pg. 113/114

Do original: Siddhartha
Hermann Hesse
Civilização Brasileira
12ª Edição
1974
121 páginas
Sebo Saber - Osasco
R$2,50


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