10 outubro 2013

Contos curtos, realistas, cruéis... Dalton Trevisan


De Dalton Trevisan nunca havia lido nada, mas já ouvira muito a seu respeito e foi a partir de uma comparação feita com Rubem Fonseca - um dos meus nacionais preferidos - que meu interesse pela leitura de Vozes do Retrato, aumentou. Ele estava na minha estante há quase um ano. Na realidade, Fonseca e Trevisan nada tem nada a ver com o outro, literariamente falando, mas ambos são muito bons.
O livro em questão trata-se de uma compilação de contos curtinhos, nessa edição da editora Ática, 1992, 60 páginas, que ganhei da amicíssima Mara Vanessa, contos estes que segundo a descrição, é Um olhar cruel e verdadeiro sobre a realidade brasileira.



São 15 contos no total, tranquilamente lidos em menos de duas horas, e o que me chamou a atenção na narrativa de Trevisan, é seu estilo conciso, direto, utiliza poucas palavras para descrever cenas cotidianas, 'come' palavras, como no ritmo dos pensamentos. Eu confesso que estou muito desacostumada com esse tipo de literatura, e nem é meu gênero preferido, mas não desmerecerei o trabalho do escritor, que possui uma bibliografia que preenche facilmente duas páginas de um currículo. Mente prolífera, criativa, me senti em alguns momentos como se estivesse lendo posts de um blog impresso, achei diferente, uma leitura e sensação literal que eu até então não havia experimentado. Notei em alguns momentos um fluxo de consciência e tive dificuldade para acompanhar o raciocínio do autor, principalmente no conto Cemitério de Elefantes.

Firififi e O Fim da Fifi, conta a história de uma cadelinha pequinês, descrevendo seu jeito, seus hábitos caninos, sua relação com a dona, o que achei uma fofura. Mas o segundo conto é cruel, Fifi já idosa, sendo rejeitada, incompreendida e sofrendo com a sua velhice, até o dia do seu fim, e isso tudo na visão da cadelinha, é de partir o coração.

Orgulho de Mulher, Maria Pintada de Prata, Caso de Desquite, Vozes do Retrato e Me responda, Sargento, narram relacionamentos, separação, e todo o lado ruim de uma relação amorosa ou conjugal, diversas facetas, distintos personagens, um retrato real da população brasileira da classe baixa. Esse livro, aliás, é bem pessimista, não estava preparada para ele neste momento, acho que por esse motivo é que não dou-lhe mais do que três estrelas.

O restante dos contos são todos envoltos nas descrições dos últimos momentos de uma vida, todos eles falam de morte, de diversas formas, por diversos motivos, Eis a Primavera, Uma Vela Para Dario, O Ciclista, O Pai, O Chefe, O Rei, Clínica de Repouso, Chuva e Penélope. Foram, inclusive, os que mais gostei.

Dalton Trevisan

Fiquei curiosa para conhecer outros trabalhos dele, mas vou adiar esse momento, esse primeiro contato já foi o suficiente por ora.
O que mais gostei no livro todo foi a entrevista das primeiras páginas, que faço questão de transcrever na íntegra:

-Você é um escritor que não gosta de dar entrevistas e nem de falar sobre seus textos. Por quê?
Nada tenho a dizer fora dos livros. Só a obra interessa, o autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista.

-Seus contos estão cheios de crueldade entre os personagens. A gente fica querendo saber como é que surgem essas histórias para você. Como é que você se inspira?
Notícia policial, frase no ar, bula de remédio, pequeno anúncio, bilhete de suicida, o meu fantasma no sótão, confidência de amigo, a leitura dos clássicos, etc. O que não me contam, escuto atrás da porta.

-Seus contos são curtos e vão direto ao ponto. Você escreve rápido, então?
Depende. Na minha opinião, para escrever o menor dos contos a vida inteira é curta.

-Além de escrever, do que você mais gosta?
Você pode contar no dedos as pequenas delícias da vida: o azedinho da pitanga na língua do menino, a figurinha premiada da bala Zequinha, um e outro conto de Tchekhov, o canto da corruíra bem cedo, o perfume da glicínia debaixo da janela, o êxtase do primeiro porrinho, o beijo com gosto de bolacha Maria e geléia de uva, um corpo nu de mulher.

-Qual é o sentimento que te leva a escrever? Não escrevo para mudar a vida, melhorar o mundo, salvar a minha alma. Rabiscado de letras vale mais no papel branco? Toda a minha desculpa de escrever.

Discordo de Dalton Trevisan quando ele diz que seus contos são mais interessantes que o contista, para mim, foi exatamente o contrário. Adorei essa entrevista.