20 outubro 2013

Fome, desespero, Crise de 29 e uma maratona de dança - Mas não se mata cavalo?

E eis que trago a vocês, leitores queridos do Dose Literária, mais uma obra de meu Acervo Particular, que me tocou profundamente: Mas não se mata Cavalo?, do autor americano Horace McCoy. [They shoot Horses, don't they?, no original]. 

imagem retirada do google, mas é da mesma edição que eu possuo...

Durante a crise de 29, onde artistas, boêmios, vagabundos, operários, e toda sorte de falidos se encontravam como iguais, em meio ao declínio da economia, um baile de dança parece ser uma oportunidade de conseguir duas refeições ao dia... ou quem sabe, o prêmio final [que não daria pra muita coisa, mas mataria a fome dos vencedores por algum tempo...]
A história se passa no período da Grande Depressão nos Estados Unidos. Após a queda da bolsa, milhares de pessoas foram à falência, perderam seus bens, seus empregos e viveram anos de miséria e falta de perspectivas. Nesse desespero financeiro/econômico, quem já não possuía muita coisa antes da Queda da Bolsa já vivia numa triste situação, imaginem após o acontecimento...

Robert Syverten nos é apresentado logo no início do livro, durante seu julgamento, em que ele está sendo sentenciado pela morte de Gloria Beatty. A narrativa se dá na pessoa de Robert, contando em detalhes como ele foi parar ali, no banco dos réus. Interessante é a forma como McCoy conduz o fio da história, entremeando frases no início de cada capítulo [a sentença dado a Robert pelo juiz] com os acontecimentos que o levaram a essa situação. E eis que ele fala na vítima Gloria Beatty, uma mulher que ele encontra por acaso, próximo a uma parada de ônibus. Quando os dois se encontram, acabam indo juntos ao mesmo destino, pois Gloria tenta conseguir um emprego nos bastidores de Hollywood. Ele é aspirante a diretor, e também procura uma ocupação na área cinematográfica. Mas a fome, o desemprego e a falta de recursos estão em alta no momento... 

Surge uma oportunidade de ganhar algum dinheiro num concurso de dança, em circunstâncias escusas. Essa maratona de desesperados consiste em vários casais dançando sem parar até sobrar um único par no salão. Horas a fio, dias sem dormir direito, os participantes tem mínimas pausas para comer, se lavar ou usar o banheiro. Imaginem ter apenas 15 minutos para dormir e depois ter que voltar ao salão de dança? Pois é dessa forma que se desenrola a maratona. O prêmio é uma quantia em dinheiro, mas será que é o suficiente para fazer valer esse sacrifício todo? Os participantes são em sua maioria vagabundos, desempregados, comerciantes falidos e decadentes, prostitutas e toda corja de marginalizados de Hollywood, que não vêem outra alternativa de conseguir um prato de comida que lhes aplaque a fome. Mas há também pessoas 'de família', que se encontram em igual situação de miséria, e não tem com o que alimentar suas próprias famílias... São horas ininterruptas que vão desgastando os participantes. Os mais frágeis logo desistem, mas muitos acabam exaurindo suas últimas forças cobiçando o prêmio final. Robert e Gloria seguem na disputa depositando o que lhes resta de esperança em dias melhores [se ainda houverem dias assim].


Gloria é um dos personagens mais marcantes dessa história... ela carrega em si todas as frustrações de uma geração inteira...Ela é perturbadoramente desesperançada... revela-se em seu olhar um desgosto pela vida, uma apatia quanto à perspectiva de amanhã... decadente, desiludida, morta enquanto ainda vive... seu pessimismo beirando à agonia... Robert é o parceiro de Gloria na maratona. Acaba sendo seu único companheiro. Gloria cansou daquela vida, ela não quer mais viver. Robert pode ser sua única saída, seu salvador, aquele a quem ela pode confiar seu desejo, ele é quem pode ajudá-la a sair daquele fundo de poço em que se encontrava... ou talvez fosse ele que findaria com todo aquele suplício...

Robert é o personagem que não consegue ver pessoas sofrendo e quer ajudar de alguma forma. Ele não exita em dar ânimo para que Gloria não desista. Ele é sonhador e 'literal'. Ele é seguidor da filosofia 'Oras, se eu soluciono tal coisa desse jeito, por que não deveria solucionar problema semelhante da mesma forma?'
É por ter atendido o pedido de Gloria que ele está sendo condenado por assassinato...

"Não compreendo nada. Tenho pensado e mais pensado e não consigo compreender. Aquilo não foi crime. Procuro fazer um favor a uma pessoa e acabo pegando uma condenação à morte." 


Mas... e o cavalo do título? O que ele tem a ver com a história toda? O cavalo representa uma metáfora [eis uma genialidade por parte do autor, que me deixou ainda mais encantada com o livro] sobre um acontecimento na infância de Robert, e que ele 'aplicou' na situação em que se encontrava com Gloria. A referência com o 'cavalo' se torna bem clara no fim do livro e dá todo sentido ao título da obra.

"Que Deus tenha piedade de vossa alma..." 

Há uma adaptação cinematográfica intitulada A noite dos desesperados, lançado em 1969, dirigido por Sidney Pollack, com Jane Fonda no papel de Gloria Beatty. Apesar de algumas diferenças entre filme e livro, é uma adaptação válida, e a interpretação de Fonda nos faz imaginar Gloria daquela forma apresentada na película.
Robert e Gloria
É uma leitura rápida que nos leva a reflexão, e é de fácil entendimento. São menos de 200 páginas recheadas de desespero, desilusão, tragédia e com um toque de melancolia e amargura. Passei horas e horas devaneando sobre o que li, tentando digerir o mal-estar que o livro me causou...

Horace McCoy

O autor nasceu no Tennesse, em 14 de Abril de 1897 e faleceu na California, em 16 de dezembro de 1955. Deixou poucas obras, entre elas O pão da mentira, Eu podia ter ficado em casa e Kiss tomorrow goodbye. Temos ainda Scalpel [1952]. Mas não se mata cavalo? é sua primeira obra, publicada em 1935. 


"Levantei-me. Por um momento tornei a ver Gloria sentada naquele banco lá no trapiche. A bala lhe entrara bem no lado do crânio; o sangue nem sequer começara a escorrer. O clarão do tiro ainda lhe iluminava o rosto. Tudo me parecia claro como o dia. Lá estava ela num absoluto repouso, no mais completo bem-estar. Ao golpe da bala a cabeça lhe caíra um pouco para o lado oposto ao em que eu estava; eu não tinha uma visão completa de seu perfil, mas podia ver de seu rosto e de seus lábios o suficiente para saber que ela estava sorrindo. O promotor público estava enganado quando disse ao júri que ela morrera em agonia, sem amigos, sem outra companhia senão a de seu brutal assassino, ali, naquela noite negra, à beira do Pacífico. Ele estava enganado, tanto quanto um ser humano pode estar. Ela não morreu em agonia. Estava em repouso, numa grande felicidade, e sorria... Foi a primeira vez que a vi sorrir. Como podia estar em agonia? Além disso, ela tinha amigos, sim.
Era eu o seu melhor amigo. O seu único amigo. Ninguém pode dizer que ela não tinha amigos."