07 outubro 2013

Labirinto de Mil Corações Mudos - Fabio Gimovski

Desenvolver uma história de fantasia não é tarefa fácil, requer pesquisa, conhecimento acerca de diversas culturas, uma mente muito criativa, argumentação nos pequenos detalhes para tornar a leitura crível e transpor o leitor na atmosfera de um mundo inventado, utópico, paralelo, imaginário.
Eu sou suspeita para falar, fantasia é um dos meus gêneros preferidos na literatura, e quando tive a oportunidade de ler Labirinto de Mil Corações Mudos, que só pelo título me despertou um profundo interesse, muito bem escrito pelo paranaense Fabio Gimovski – e quando digo MUITO BEM escrito, é porque além de ter superado as minhas expectativas, tornou-se uma das minhas histórias preferidas da literatura contemporânea nacional – e lançado pela Editora InVerso.

Gimovski possui o dom da escrita! “Suas palavras trazem apenas o reflexo do que seus olhos viram e sua imaginação condensou em histórias para contar.” Isso é notório em cada capítulo, cada passagem, na criação dos personagens, nas ilustrações, em cada descrição de ambiente, do inicio ao fim do livro, e eu aqui nesse impasse para falar de um livro que amei com todo o coração, mas me esforçando ao máximo para ser imparcial, porque quando gosto muito de uma obra tenho dificuldades para falar dela sem exagerar nos predicados.
Vemos atualmente diversos lançamentos, diversos gêneros para inúmeros gostos, mas sinceramente, são poucos os que me cativam como Labirinto de Mil Corações Mudos o fez, e que orgulho poder dizer que história tão rica como esta foi desenvolvida por um brasileiro que viajou o mundo inteiro sorvendo a essência cultural de cada lugar visitado, para a construção deste mundo mágico.

Mapa das terras do reino de Kadmirra

Usando de analogia distinta para contar-lhes em resumo esta fantástica história, devo primeiramente falar-lhes sobre o reino de Kadmirra.
O rei Baltazar e sua rainha Magdala trazem ao mundo a princesa Sofia, predestinada antes mesmo de seu nascimento à tornar-se uma dançarina sacerdotisa, e trazer ao seu povo beleza, alegrias, sabedoria e equilíbrio espiritual, dons que recebeu dos espíritos da Floresta do Oráculo quando ainda era um bebê. Mas dentre esses dons, uma maldição foi-lhe lançada.
Sofia era amada por todos no Palácio Escarlate. Sua curiosidade e desejo de conhecimento, não somente pela dança mágica com véus e rituais sagrados, mas pelos ensinamentos dos sábios e da casta sacerdotal, fariam-na seguir o seu destino de abandonar o título de princesa, para tonar-se uma alta sacerdotisa, fato que se consumaria antes de Sofia atingir a idade adulta, para desespero do rei, que assombrado pela profecia que perseguia a filha, nada pôde fazer para mudar seu destino.

Sofia - ilustração contida na obra

Chegado o dia da cerimônia em que Sofia tornar-se-ia uma dançarina consagrada à passos de iniciar seus aprendizados com a alta sacerdotisa Saboni, a profecia é concretizada e Sofia cai num sono profundo, não almejando seu intento, pois desconhecia o futuro e a maldição que não esgueirou-se de seu destino.
O reino cai em desgosto e tristeza inconsolável. O rei, inconformado, beira à loucura e planeja construir um templo para guardar o corpo da filha cujo espírito foi desligado, mas que a morte não foi permitida aproximar-se dela, como no conto de A Bela Adormecida. A esperança e a insanidade, fez o rei levar junto ao corpo da filha, os mil habitantes do reino de Kadmirra.

Começam então os planos para a construção de um labirinto ao noroeste de Palácio Escarlate, que guardaria os mil corações mudos daqueles que foram obrigados a seguir o destino de Sofia, todos dormiriam por séculos até o despertar da sacerdotisa amaldiçoada, sem que seus corpos fossem deteriorados com o passar dos anos, pois o labirinto foi construído num lugar estratégico, um local mágico, em que ações do tempo guardariam o sono daqueles que nele repousassem.
Assim que a profecia findaria-se, despertariam todos como se os séculos de sono profundo não passassem de um sonho ébrio, alimentado pelas flores de lótus, trazidas das terras de Alemdar por um discípulo do Priorado de Lótus.

Muita angústia, dor, sofrimento e morte sucederiam a partir de então, até o despertar de Sofia. Gimovski descreve todas essas passagens de maneira tão convincente, que é possível compadecer-se com o mesmo pesar, a partir daí, resta-nos devorar o livro página por página para descobrir os motivos, os algozes mais perversos desta história, e a função de cada coadjuvante desta fabulosa obra.

João, o Revelador - ilustração contida na obra

Paralelamente, conhecemos a história dos ventos. Licaeus vem a ser um dos personagens principais, um vento milenar que sopra e percorre seu mundo conhecendo não só as paisagens e a natureza, mas que alimenta uma curiosidade acerca dos humanos que cruzam seu ser. Neste mundo de fantasia, os ventos possuem alma, não formas. Seu soprar é sua vida, seu balançar nas folhas das árvores é o seu conversar com aqueles que dedicam atenção e apreciação às forças naturais, desde que o mundo foi criado, e juntamente os ventos, Licaeus existe.
Numa determinada passagem, o vento observa um ancião abaixo de uma árvore, que para sua surpresa o ouve, e passa a conversar com Licaeus, este homem é João, o Revelador. Nesta conversa, o velho revela ao vento sobre a maldição de Sofia, que repousa em seu sono de décadas, e o vento, vem a conhecer sentimentos e sensações humanas, até então não experimentados, e após ouvir a história da sacerdotisa adormecida, deseja possuir formas humanas, para libertar a princesa, pois o vento não é permitido adentrar no labirinto. Como, então, isso seria possível?

Tudo se encaixa, ao final. Toda a história é elucidada a cada capítulo, cada descrição começa a fazer sentido ao leitor. Mas ao contrário de um conto de fadas, o final surpreende em tom melancólico, nada é previsível até o último capítulo, e cá entre nós, foi exatamente isso que me fez apaixonada por esta épica. Minha personagem favorita é Jesana, uma escriba que escreveu sobre a história das Dakinis, as dançarinas do ar, 'bastava-lhe passar as as mãos sobre as capas do livros ricamente decorados na imensa biblioteca, para que as histórias escondidas em suas páginas se revelassem'. É ou não é melhor dom de todos?

Em momento algum me vi enfadada ou desorientada, Fabio Gimovski sabe exatamente como conduzir a narrativa em ricas 258 páginas, a leitura flui tão prazerosa, que a única decepção que tive, foi a de não possuir continuidade em dois ou mais livros.

Fabio Gimovski, autógrafo com caneta tinteiro

Para mais informações a respeito da obra, onde encontrar o livro e entrevista com o autor, acesse o site.

Concurso Cultural de Outubro/2013

Para os leitores do Dose Literária foi disponibilizado um exemplar do livro que será sorteado no Concurso Cultural deste mês, juntamente com um brinde especial, um chaveiro 'apanhador de sonhos'.

Obra disponibilizada em parceria com o autor

Se você gostou da história e deseja ter a obra em sua estante, descreva-nos seu sonho mais utópico em nosso formulário, acessando a página Concursos Culturais.
A resposta mais criativa será avaliada por todas as autoras do Dose Literária e será publicada no blog.
Entraremos em contato com o ganhador solicitando os dados para correspondência.

Se você é fã de ficção e fantasia, não deixe de participar e conhecer essa grandiosa fábula.Desejamos sorte e uma ótima leitura!


Biografia do autor e demais obras:


http://www.fabiogimovski.com.br