12 outubro 2013

Uma tempestade indomável chamada Mattie - Bravura Indômita, de Charles Portis

Sensacional! Essa é a palavra e o sinal de pontuação exatos para fazer referência ao romance Bravura Indômita (original True Grit), do norte americano Charles Portis. Do começo ao fim, não consegui deixar de me impressionar com a protagonista de quatorze anos, a destemida Mattie Ross. É preciso ter ressonância dentro e fora do peito para encarar uma identificação tão profunda como a que senti pela Mattie. 

A história é a seguinte: O pai de Mattie é assassinado por um cara chamado Tom Chaney, sujeito que foi ajudado pelo pai da garota. Ao saber da morte do pai, Mattie parte em busca do corpo - a fim de realizar os procedimentos do enterro e transporte - e, principalmente, para vingar sua morte. Para isso, ela contrata os serviços do agente federal Rooster Cogburn, conhecido pela truculência e por ser "um homem de fibra", mesmo possuindo apenas um olho (o agente ficou caolho em combate). Cogburn também nutre o hábito de beber além da conta, mas isso parece não atrapalhar o exercício de suas atividades. Mattie e o agente federal contam com a ajuda do ranger texano LaBoeuf, outro sujeito ríspido e que faz a jovem garota "comer uma volta", como dizem por aí.

Juntos, o trio dispara no encalço de Chaney, encontrando muitos outros obstáculos no caminho. A cavalgada é longa, a comida escassa e a dureza nas ações e sentimentos é uma questão de necessidade. O livro narra uma jornada fantástica, onde descobrir os limites do corpo é como olhar para um abismo ou para um riacho, depende do rumo que você decide seguir.

Bravura Indômita (tradução de Cássio de Arantes Leite, editora Ponto de Leitura/Objetiva, 2012, pág. 271) traz a voz carregada do Velho Oeste Americano, com suas expressões, sotaques, trejeitos e figuras de linguagem. Cowboys e toda a aura do 'bang-bang' fazem parte do meu gosto literário e cinematográfico, por isso o meu primeiro contato com Charles Portis foi acima do que eu poderia esperar. E ainda tem Mattie Ross. Ah, Mattie Ross... Ela é inteligente, forte, destemida, indomável. Em um contexto agrário de meados de 1840, onde a figura feminina era dividida em "temperamentos delicados" ou "mulheres dissolutas", e cujo elo de união desses dois mundos é a falta de decisão ou inferioridade, Mattie é uma verdadeira tempestade. Aos quatorze anos, a garota vence todas as barreiras, trabalhando com cálculos precisos, com noções de compra e venda, além de conhecer de perto como tocar negócios. Somado a tudo isso, ela vive sem medo, como um corcel selvagem. Li o livro sem querer que ele terminasse, mas o final só ajudou a corroborar a opinião que formei de Mattie e seus dois companheiros.

Mattie, LaBoeuf e Cogburn na versão dos irmãos Coen (2010)

Bravura Indômita foi adaptado para o cinema pela primeira vez em 1969, com o premiado John Wayne no papel de Rooster Cogburn e Kim Darby na pele de Mattie Ross. No entanto, a versão adaptada e dirigida pelos irmãos Joel e Ethan Coen, em 2010, merece os meus aplausos de pé. Jeff Bridges e Matt Damon, interpretando Cogburn e LaBoeuf, respectivamente, estão simplesmente fantásticos! E não tem como deixar de elogiar a jovem Hailee Steinfeld pela interpretação da destemida Mattie, embora eu tenha criado na minha mente uma Mattie ainda mais indômita e robusta, com traços firmes e olhar expressivo.

Querida e admirável Mattie Ross

O livro está no alto da minha estante, entre os que considero clássicos inesquecíveis. O filme dos irmãos Coen está enfileirado junto a outros da categoria "especiais" na minha estante. E eu recomendo que você ouça Townes Van Zandt, "I'll be here in the morning", quando estiver se deliciando com esse cláááássico literário. Ah, ainda em tempo: Boa leitura, 'maninha(o)'!