23 novembro 2013

As histórias do velho maldito - Ao sul de lugar nenhum, de Charles Bukowski

"É por isso que todos nós gostamos de ver os loucos... Em filmes ou algo assim. Nós os admiramos porque eles fazem exatamente o que querem fazer". Essas foram as palavras do escritor e "louco convicto" Charles Bukowski, proferidas durante uma entrevista. Conhecido pelo estilo de vida nada convencional, Bukowski destilou algumas dezenas de poemas, contos e romances sobre a rotina de quem vive nas sombras, à margem dos padrões sociais. O velho Buk era, por si só, exemplo máximo do que escrevia.



No último dia 12 de setembro, recebi de uma amiga muito querida o livro "Ao sul de lugar nenhum: Histórias da vida subterrânea" (original South of No North, tradução de Pedro Gonzaga, editora L&PM, 2013, págs. 240), uma coletânea de vinte e sete contos escritos por Bukowski. Como uma soda cáustica, Buk usa o alter ego Henry Chinaski para falar das experiências que viveu, além de retratar a virulência da vida humana em textos ficcionais.   

Os protagonistas são bêbados, marginais, vagabundos, assassinos e prostitutas. Gente que respira esquecida em becos imundos e afogados em loucura, álcool, sexo, violência e desilusão, exatamente como foram os dias do escritor. Nascido em uma família hostil, Henry Charles Bukowski cresceu vitimado pelo desafeto, bullying (ele sofria de um caso grave de acne) e sem maiores perspectivas. Encontrou na bebida e no cigarro a companhia que lhe foi negada pela convivência no lar e na sociedade. De voz áspera e comportamento dissidente, Bukowski passou a vida com empregos mal remunerados (Um par de bêbados), amargando um período na cadeia (Lembra de Pearl Harbor?), gastando doses cavalares de suas escassas finanças apostando em corridas de cavalos (Pittsburgh Phill & Cia.), se envolvendo com prostitutas (Como amam os mortos) e sofrendo com uma ou outra doença - inclusive hemorroidas (Todos os cus do mundo e também o meu). O currículo é imenso e os lugares por onde o 'velho safado' andou podem ser inomináveis.


Se você já teve a oportunidade de 'topar' com caras como Marquês de Sade, Henry Miller, e toda a "confraria beat", certamente não vai se assustar com o pingo de limão nos olhos que é Charles Bukowski. Amado por unanimidade aqui no Dose Literária, o 'safadão' não escreveu sobre as belezas do amor ou paisagens paradisíacas, mas o que o torna especial é o fato de ter escancarado a porta onde antes havia apenas o ato de espiar por trás da fechadura.

Como lembra Marina Bukowski, filha do 'ômi':

"Certamente eu sabia que o meu pai era muito diferente dos outros pais. Minha mãe também era muito diferente. E as nossas vidas e todas as nossas amizades eram diferentes. Talvez eu visse isso como uma coisa positiva, ao invés de me sentir obrigada a me encaixar em algo que não me encaixava".