13 novembro 2013

Crônica de um sucesso anunciado!

O texto de hoje é sobre o livro "Crônica de uma Morte Anunciada" de Gabriel Garcia Marquez escrito pelo colaborador e escritor Fábio Michelete.

Como o título já foi o spoiler, não hesito em avisar que há uma morte no livro! Mas isto é tão acessório! Tudo fica na habilidade do autor em te contar uma história – te climatizar.

Na receita para um bom romance, o ritmo tem que ser bom – e Marquez foi mestre neste livro. Dava para ter lido num fôlego só.
Livros também me interessam quando o personagem central é franco - verossímil, um destaque em alguma característica, mas aquela sensação de que não atingiu todo o seu potencial - como todos nós. Deve entregar-se a vida, seja ao desejo, ou a uma situação desafiadora – ambas aventuras que são como corredeiras: você embarca no fluxo das águas, mas não consegue controlar nada durante a viagem.

Marquez nos mostra a irmandade entre os povos de origem latina. Ao longo do livro, compreendemos completamente e nos deliciamos com os detalhes das fofocas, versões, ambientes e intenções. Somos capazes de acompanhar a importância de cada relato. Será que leitores de outros continentes saboreiam este autor na mesma intensidade?

Vemos os anacronismos de nossa vida cotidiana, dos hábitos dos homens de beberem e irem a puteiros, parecendo independentes, mas tão manipuláveis. Das exigências das mulheres guardarem sua virgindade e cuidarem da roupa e da cozinha, mas definirem os destinos com base em sua trama de comentários e relacionamentos. Hábitos que permanecem no imaginário latino, mesmo após séculos de luta pela igualdade entre os gêneros. As vaidades, os símbolos de status, as diferenças sociais tão típicas de nosso continente estão explicitamente retratadas no povoado e personagens descritos na trama. Qual a receita que produziu as desigualdades sul-americanas? Como mitiga-las?
Gabriel Garcia Marquez - Caricatura de J.Bosco

Frases selecionadas:

“ A única coisa que minha mãe censurava nelas era o costume de se pentear antes de dormir. 'Meninas', dizia-lhes, 'Não se penteiem de noite que os navegantes se atrasam'. Exceto por isso, pensava que não havia filhas mais bem educadas. 'São perfeitas', ouvia-a dizer com frequência. 'Qualquer homem será feliz com elas, porque foram criadas para sofrer'."

“Convenceram-na, enfim, que que a maioria dos homens chegava tão assustada na noite de núpcias que era incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda da mulher e na hora da verdade não podia responder por seus próprios atos.”

“As luzes estavam apagadas, mas logo que entrei senti o cheiro de mulher morna e vi os olhos de leoparda insone na escuridão, e depois não voltei a saber de mim mesmo até que começaram a soar os sinos.”

“Nasceu de novo. 'Fiquei louca por ele', disse-me, 'louca de pedra', Bastava-lhe fechar os olhos para vê-lo, ouvia-o respirar no mar, o calor de seu corpo acordava-a à meia noite na cama.”

“Numa noite de bom humor, derramou o tinteiro sobre a carta terminada e em vez de rasga-la acrescentou num post-scriptum: 'Como prova do meu amor, envio-lhe minhas lágrimas'.”
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