30 novembro 2013

"O ego pode acabar com um autor" - Entrevista com Tammy Luciano

Depois de uma longa e persistente caminhada, a carioca Tammy Luciano tem muito o que comemorar. Primeira escritora brasileira do Selo Novo Conceito Jovem, da editora Novo Conceito, Tammy conquistou o coração do público com o lançamento "Claro que te amo!", sendo destaque na Bienal do Livro do Rio este ano. 

A jornalista e atriz também é autora de peças de teatro, poesias e crônicas, e traz na bagagem, além de muita experiência, cinco livros publicados: "Fernanda Vogel na Passarela da Vida", "Novela de Poemas", "Sou Toda Errada", "Garota Replay" e o recente "Claro que te amo!". Em entrevista ao Dose Literária, Tammy falou sobre carreira, processo de criação e os desafios enfrentados para alcançar o sonho de ser escritora.

Tammy Luciano em sessão de autógrafos

Dose Literária - Como teve início a sua história com a literatura e que tipos de influência foram essenciais na sua decisão de ser escritora? 

Tammy - Eu comecei a escrever muito novinha. Na adolescência, a escrita já era fundamental e intransferível. Lembro que Marcelo Rubens Paiva e Fernando Sabino me mostravam ser possível um autor ser made in Brasil. Meus pais e uma professora de português chamada Margarida foram importantes nas descobertas diárias de me tornar escritora. Eu achava estranho escrever mais do que todo mundo e o apoio da minha família foi fundamental. Lembro do meu pai em longas conversas comigo por essas descobertas pessoais de me tornar escritora. 

Dose Literária – Circunstâncias externas e internas podem dificultar a aceitação do nosso talento como carreira. Você passou por isso? 

Tammy - Eu hoje vejo as pessoas muito preocupadas com o sucesso. Eu escrevi a adolescência toda sem me preocupar em aparecer. Escrever para mim, no meu quarto, já me dizia tudo, era o máximo. Depois de uns dez anos é que comecei a buscar o lado profissional, em me mostrar para as pessoas. Eu só publiquei meu livro uns quinze anos depois de abraçar a escrita, então as circunstâncias externas só passaram a ser presentes quando fui buscar editora. Como a maioria, tomei muito não, mas nunca desisti. Continuei escrevendo. Internamente sempre foi o que quis e jamais, nem por um segundo, pensei em desistir. 

Dose Literária  – Como é o processo de preparação e escrita de um livro? Você utiliza alguma técnica especial? 

Tammy - Normalmente, eu tenho dois cadernos. Um para escrever as cenas do livro, resumos do que vou escrever. O outro faço anotações com nomes, mapas de ideias, frases bacanas. Depois é ter paciência, sentar e escrever por horas e horas. Essa parte não é nenhum sacrifício porque eu amo demais ser escritora. Nunca, em nenhum dia, é cansativo, chato ou tenso. E as personagens chegam quando menos espero, cheias de histórias para contar e de repente estou completamente apaixonada pela história, sentindo uma vontade enorme de dividir com os meus leitores.

Dose Literária  – Escrever biografias e retratar situações reais exige grande esforço de pesquisa e dedicação. Seu primeiro livro conta a história da modelo Fernanda Voguel, vitimada pela queda do helicóptero do empresário João Paulo Diniz, em 2001. Quais foram os principais desafios que você enfrentou para produzir e escrever o livro? 

Tammy -  O compromisso com a verdade. Eu entrevistei 55 pessoas, quis ser bem jornalista nesse trabalho. Fiquei feliz porque ganhei o primeiro Independência e apesar de não ter tido tanta fama com o projeto, ele me mudou muito, internamente. No começo existiu um certo descaso, algumas pessoas questionando o meu desejo de escrever a história, que foi um convite da Myrian Vogel que eu amei, mas depois qualquer dúvida ficou. Hoje, dez anos depois, vejo o livro como uma forma de reviver a Fernanda e conhecer sua trajetória que foi bem legal. Até hoje recebo muitos elogios das leitores, comentando o livro.

Dose Literária – Em seu site pessoal, você diz que “dificilmente escreverá outra biografia”, mesmo recebendo convites para novos livros do gênero. Por que esse posicionamento? 

Tammy - Porque me senti realizada com a biografia da Fernanda. Recebi muitos convites, mas o trabalho de uma biografia, na parte de pesquisa é exaustivo, e eu me realizei no primeiro livro. Não sei se eu encontraria uma família tão legal como a família Vogel que me tratou com tanto respeito, me forneceu sua intimidade e não me censurou. Eu digo que a Myrian Vogel foi minha madrinha literária. Depois também me encontrei demais nas histórias que escrevo hoje, nos romances jovens, estou maravilhada com as possibilidades desse universo ficcional jovem. 

Dose Literária – Os livros “Sou toda Errada”, “Garota Replay” e o lançamento “Claro que te amo!” trazem à tona sentimentos conflituosos, vividos por garotas jovens e envolvidas no desafio de vencerem a própria confusão mental e emocional. O que tem atraído a sua atenção para esse universo específico? Você faz alguma espécie de “laboratório de observação” na hora de compor seus personagens? 

Tammy - Na verdade meu segundo livro, Novela de Poemas, também trata desse mesmo universo, só que em formato de poesias. É o universo que me envolve a escrever, gosto dessa descoberta do primeiro grande amor, da ideia dos primeiros desafios profissionais, das resoluções familiares. Não sei explicar bem, é uma questão da escolha inexplicável. É como o autor que ama escrever livros para criança. Eu amo escrever livros com protagonistas jovens. Tenho comigo que meu jeito de escrever combina com essa faixa etária e me envolvo tanto com a história que normalmente estou vivendo a minha vida, enquanto mentalmente fico meses refletindo a vida das minhas personagens. Eu, claro, observo o mundo, leio muito, tenho um grupo jovem de teatro, então esse universo está em mim e fico feliz das leitoras se reconhecerem, curtirem minhas criações. 

Dose Literária – “Claro que te amo!” (resenhado pelo Dose Literária) tem conquistado ótima repercussão. O livro conta a história de Piera, moça que sofre duas formas de rejeição e precisa aprender a lidar com elas. Trazer às cicatrizes da personagem à tona é uma forma de fazer as pessoas se identificarem com ela?

Tammy -  E não é que aconteceu o que eu queria? As pessoas adorarem o livro está sendo um enorme presente. Eu tenho repetido que estou muito feliz com todo esse carinho. A aceitação do público compensa toda a dedicação. Preparar um livro não é tarefa fácil, mas eu também não escrevo tentando colocar o que vai agradar os meus leitores. Tento escrever com o coração, pensando sim nas pessoas que me acompanham e sinto que assim tem funcionado mais. 

Dose Literária – Você constrói seus personagens tomando por base características de pessoas que você conhece ou é algo completamente ficcional? 

Tammy - Tem um pouco de mim, mas muito mais do que vejo. Eu acho o máximo os sentimentos críveis das minhas personagens e sempre digo que não escrevo sobre as perfeitinhas. Também adoro contar história de amor, sentimentos que todos adoram viver, então olho sempre ao redor, escuto sobre sentimentos e escrevo meus livros vivendo intensamente aquele encontro e pensando nas pessoas que vão ler. É maravilhosa a ideia de fazer as pessoas mais felizes com os meus livros. Finais felizes fazem um bem danado para o meu coração. 

Livros publicados pela autora

Dose Literária – Tammy, você persistiu por quase duas décadas para poder realizar seu sonho de ser escritora. Hoje em dia, o caminho está mais fácil? Quais os principais obstáculos para quem quer lançar suas produções?

Tammy -  Para algumas pessoas do meio foi bem mais rápido, mas para mim demorou. Isso me deu um pé no chão, um respeito com o público. Eu sei o que é escrever sem ter leitor. Acredito que conseguir uma editora seja o maior desafio. O número de autores é grande, muita gente querendo, buscando e poucos conseguem. As editoras não dão conta de contratar todas as demandas de escritores, então quem quer vencer tem que trabalhar muito, se dedicar, conhecer bem a sua carreira, o seu público, ter paciência e não ser achar o tal. Amar muito o que faz e respeitar quem está curtindo o seu trabalho. O ego pode acabar com um autor. 

Dose Literária  – Há pouco tempo atrás, ser escritor não era uma atividade reconhecida como carreira no Brasil. As biografias de sacrifício, dor e superação de homens e mulheres que foram em frente e seguiram escrevendo, mesmo com todos os reveses, não são poucas. Atualmente, ser escritor em tempo integral neste país é possível? Há resultado material dessa escolha? 

Tammy - Bem, eu acho que ainda peguei esse lado de sacrifício, superação, já que escrevi uns 15 anos sem ganhar dinheiro, então a parte financeira nunca foi o mais importante, mas claro que conseguir hoje ganhar dinheiro com o que amo fazer é maravilhoso. Eu lembro que quando recebi como escritora, não acreditei. Era quase como me pagarem para eu comer chocolate ou passar férias na Disney. Hoje, claro, eu trabalho muito, preciso me manter, moro sozinha, mas eu prefiro, por exemplo, ganhar menos, não fazendo trabalho de revisar livro de autores, ganhando para avaliar textos para me dedicar aos meus livros. Então recuso alguns trabalhos extras que outros escritores aceitam, porque quero fortalecer minha carreira. Me dedico muito nas redes sociais, em manter contato com leitores, em estudar sobre roteiros, em pesquisar. É possível ser escritor sim, eu fico feliz de estar hoje no grupo de escritores que conseguiram fazer parte de uma grande editora. É bom depois de tantos anos pensar que valeu e poder viver do meu trabalho. 

Dose Literária – Obrigada pela atenção, Tammy. Desejamos a você muito sucesso e realizações! Gostaria de deixar alguma mensagem especial aos leitores do Dose Literária? 

Tammy - Quero agradecer o carinho e respeito com o meu trabalho. Fico muito feliz com o apoio dos blogs. Muito sucesso para o Dose Literária e adorei estar aqui. Quero mandar um beijo especial para todos que estão curtindo o meu trabalho, levando meus livros para casa. São vocês que fazem a minha carreira continuar e seguir forte. Quem quiser saber mais de mim, das minhas redes sociais, só visitar o www.tammyluciano.com.br . Sejam sempre felizes!