16 novembro 2013

Os amores e dores de Claro que te amo!, de Tammy Luciano

Amor e abandono são equivalentes a uma estrada bifurcada, onde quase nunca os caminhos são escolhidos por meio de uma linha reta. Pelo contrário: existem tantas curvas, acidentes e buracos que é extremamente complicado apontar as certezas sem medo de errar. Esse é o sentimento que absorvi da leitura de "Claro que te amo!", lançamento da escritora Tammy Luciano pelo selo "Novas Páginas", da editora Novo Conceito, 2013, pág. 320. 

Com o subtítulo "A felicidade pode chegar quando mais esperamos", o livro fala sobre recomeço, mudança e novas oportunidades, trazendo como pano de fundo a história de Piera, uma jovem de dezenove anos, estudante de arquitetura e moradora da zona sul do Rio de Janeiro, que foi abandonada pelo noivo e pela mãe. Depois de seis anos de namoro, o sujeito que a namorava decide encerrar o relacionamento de forma abrupta e, pouco tempo depois, resolve casar. Piera (nome bastante incomum, que remete a um município espanhol) fica destruída e conta com o apoio do grupo de amigas inseparáveis para superar o trauma. Mesmo depois do término, a moça decide acompanhar o casamento do ex para, segundo acredita, alcançar a liberdade em relação a todo o seu passado.

Nesse meio tempo, a sofrida estudante precisa lidar com outro problema ainda maior: o retorno da mãe ausente. Vítima de abandono materno, Piera acompanha com dor e confusão a volta da mãe desaparecida por quase vinte anos. Criada pelo pai, homem honesto, amoroso e sereno, a jovem estudante só consegue ver a caixa de Pandora que tem nas mãos. Apesar da rotina de estudos, trabalho no escritório de arquitetura do pai, do apoio das amigas e das expectativas para o futuro, Piera se sente vazia, transbordando conflitos internos. Com o rompimento do noivado, a protagonista atravessa mais da metade da narrativa revivendo um amor malogrado, presa aos sentimentos ruins que nutre pela mãe e sem saber como lidar com o turbilhão de acontecimentos que a inundam. A situação só muda de figura quando ela conhece Marcelo, médico iniciante, descrito com um verdadeiro Adônis mitológico. É esse gentil doutor que ajuda Piera a atravessar todas as péssimas fases da vida, além de despertar novas emoções.

Com esse fermento, Tammy Luciano cria a narrativa interessante de "Claro que te amo!", apresentando ideias pertinentes sobre os momentos de choque que uma pessoa rejeitada passa. Piera tem a autoestima balançada, apesar de viver confortavelmente, estudar em uma excelente universidade particular e ter uma presença paterna positiva. A rejeição imposta pela mãe nos primeiros anos de vida transformou a jovem em uma pessoa que vive pedindo desculpas por tudo, emocionalmente abalada e com tendências a remoer o passado.

Cicatrizes antigas difíceis de curar fazem do quinto livro de Tammy Luciano uma aposta acertada no mercado editorial, com temas pertinentes, texto bem construído, coerência e proximidade com a vivência do leitor. A leitura da obra flui com rapidez, leveza e tranquilidade. Em muitas ocasiões, me peguei pensando na dor da Piera como real, e elaborando estratégias mentais para repassar à garota. Outro ponto que me entusiasmou bastante foi perceber a relação de carinho travada entre a estudante e seu pai que, ao contrário de muitos, criou a filha sozinho, ensinando os melhores valores. O livro também traz outra grande surpresa que envolve essa relação familiar e que acaba pegando o leitor de surpresa.

Minhas únicas duas observações fazem referência à construção da personalidade de Piera e ao desfecho do livro, respectivamente. Sendo Piera uma moça sofrida, que aprendeu a cuidar da casa muita nova, com todos os afazeres e decisões domésticas que lhe são pertinentes, a jovem oscila mais para a fraqueza e o desmonte do que para a confiança e a resolução. Você pode achar que não, mas tenho observado de forma empírica como pessoas que são compelidas a tomar decisões ainda na fase infantil transformam-se em adultos muito cedo, despertando para aspectos que, em outras circunstâncias, não seriam observados com tanta cautela. Em outras palavras, ocorre um processo de adultização precoce. Piera mostrou ter um perfil completamente oposto.

Em relação ao desfecho do livro, só posso adiantar que não fugiu do esperado, ou seja, das boas e tão necessárias (ao que parece) projeções românticas. No fundo, tudo se resume à busca pelo amor. O ser humano vive pelo amor e para o amor. É verdade, não discordo. Mas seria ainda mais bonito se tivéssemos a capacidade de ver o amor como um suplemento de nossas vidas, e não complemento, para dar uma resposta à época das "muletas emocionais".

Escritora Tammy Luciano/ Créditos: Arquivo Pessoal

Tammy Luciano é atriz, jornalista e voluntária no Retiro dos Artistas, onde mantém um grupo de teatro. Segundo depoimento da própria escritora em seu site pessoal, ela precisou trabalhar duro por quinze longos anos para ter seu sonho alcançado. Profissional perseverante, que fez do seu projeto íntimo uma experiência de vida com propósito, é um um dos fatores inegavelmente estimulantes para conhecer outros exemplares da autora.