02 novembro 2013

Os elefantes não esquecem, de Agatha Christie

Um caso arquivado envolvendo "pacto de morte", com suspeitas que circulam entre suicídio e crime passional. Duas crianças órfãs, mistérios e segredos. E, mais uma vez, o detetive Hercule Poirot entra em cena, só que desta vez em passagens rápidas e infinitamente menos entediantes do que o usual. 

Agatha Christie, a famosa "Rainha do Crime", prende a atenção do leitor em "Os elefantes não esquecem" (original "Elephants Can Remember", tradução de Newton Goldman, Saraiva de Bolso, 2011, pág. 168), obra publicada originalmente em 1972 e que faz parte da coleção de oitenta romances e coletânea de contos da autora. A partir de um ditado popular ligado ao conhecimento do poder de memória observado nos elefantes, Agatha aborda mais um caso do prestigiado Hercule Poirot que, junto com a escritora de romances policiais Ariadne Oliver, precisa resolver um mistério funesto ocorrido há quase duas décadas. Ariadne (possivelmente inspirada na própria Agatha Christie) tem sua recôndita vida atrapalhada pelas perguntas inoportunas de uma senhora, desejosa por saber mais sobre Celia, afilhada da escritora e filha do casal Ravenscroft. No passado, marido e mulher foram achados mortos junto ao penhasco próximo da casa em que viviam, deixando dois filhos menores. Celia, uma das crianças, cresce e torna-se noiva do filho da tal madame inconveniente. Decidindo investigar mais a fundo como se deu a morte dos pais da futura nora, a mulher decide procurar a Sra. Oliver, madrinha da herdeira Ravenscroft, para que ela a ajude a desvendar o caso.

Atordoada, a Sra. Oliver pede ajuda ao amigo Poirot para solucionar o caso e ajudar a afilhada. Curiosamente, Ariadne tem o mesmo nome da mitológica filha de Minos, rei de Creta. A lendária princesa foi responsável por ajudar o herói Teseu a derrotar o temido Minotauro e sair do hipnótico labirinto construído por Dédalo. Por meio do novelo de linho concedido pela filha do rei, Teseu consegue sair vitorioso, dando asas à ideia do 'Fio de Ariadne', um modelo de resolução de problemas complexos com processos igualmente complexos. A partir desse gancho de percepção, o leitor vai entender o importante papel desenvolvido pela escritora fictícia em toda a narrativa.

"Os elefantes nunca esquecem e nunca perdoam" (p.s: Maldade, gente! rs)

O desmembramento do caso leva à revelações sombrias, prendendo a atenção página por página. Ao tomar por base outros romances da 'rainha do crime', consegui desvendar uma parte do segredo assim que obtive uma informação solta na metade do livro. Com atenção, seguindo as pistas corretas e finalmente sentindo lógica no passo a passo do crime, me senti dentro de uma investigação policial de 'casos arquivados', e percebi a importância da observação meticulosa, do sentido aguçado, da entrevista com testemunhas e esmiuçamento de depoimentos para resolver situações até então esquecidas.

A 'rainha do crime' quando era apenas Agatha

"Os elefantes não esquecem" é um dos livros mais interessantes de Agatha Christie, não só por trazer à tona uma tragédia familiar cheia de desmembramentos, mas também por apresentar a figura do detetive belga - com quem não me entendo muito bem - de forma menos esnobe e mais cooperativa. Gostei bastante da participação da escritora Ariadne Oliver com a ideia dos "elefantes", fazendo jus à capacidade de memória das pessoas, e de como lembranças (mesmo que fantasiosas) são capazes de ajudar na solução de crimes e na incansável busca por justiça.